A AfD obteve 43,8% dos votos na eleição estadual da Saxônia-Anhalt e conquistou 39 das 83 cadeiras do parlamento local — três abaixo do necessário para governar sozinha. Mesmo sem maioria absoluta, o resultado redesenha o mapa político alemão: a CDU do chanceler Friedrich Merz perdeu 25 assentos em relação ao pleito anterior e ficou com apenas 15 cadeiras. Segundo o portal Terra.com.br, a imprensa europeia tratou o pleito como um "recado" ao governo federal e um "teste decisivo" para a ultradireita. O que está em jogo agora é menos a formação de um governo regional específico e mais a durabilidade da própria arquitetura institucional que a República Federal construiu desde 1945 para manter a direita radical fora do Executivo.
Os números e o que dizem sobre a velha ordem
O resultado precisa ser lido em três camadas. A primeira é eleitoral: a AfD quase triplicou a votação em relação ao início da década, consolidando-se como a principal força da ex-Alemanha Oriental. A segunda é federativa: Sachsen-Anhalt é um Land pequeno, mas simbólico — Berlim Oriental, Brandemburgo, Turíngia e Saxônia formam o cinturão onde os partidos tradicionais foram sistematicamente derrotados desde 2019. A terceira é nacional: a AfD lidera pesquisas de intenção de voto em todo o país, o que transforma uma vitória regional em referência para o calendário federal de 2025–2026.
O detalhe que escapa às manchetes é aritmético. Com 39 cadeiras, a AfD não consegue aprovar um governador sem apoio externo. Quem forma a maioria define quem governa — e é exatamente aí que entra o mecanismo institucional mais contestado do momento.
O sistema que está sob pressão
O cordão sanitário em xeque
Desde os anos 2010, os partidos tradicionais alemães (CDU, SPD, Verdes, FDP) mantêm o que chamam de Brandmauer — cordão sanitário — recusando qualquer coalizão ou apoio formal à AfD. O pacto é sustentado por três argumentos: o histórico nazista, a presença de figuras com posições revisionistas no partido e a classificação, feita pelo Bundesamt für Verfassungsschutz (BfV), da agência de inteligência interna, da legenda como "caso confirmado de extrema-direita" — categoria ampliada em maio de 2025 após anos de monitoramento.
O problema é que esse arranjo tem um custo democrático que só aparece nas eleições: quando um terço do eleitorado vota em um partido que não pode ser incluído em qualquer maioria, o parlamento se torna ingovernável — ou finge que governa sem o voto real.
Quem fica com as 4 cadeiras que decidem o jogo?
A composição parlamentar da Saxônia-Anhalt após esta eleição exige uma coalizão que isole a AfD sem isolar o eleitorado que votou nela. As combinações viáveis passam por CDU, SPD, Verdes, FDP e a BSW — o partido de esquerda populista fundado por Sahra Wagenknecht, que combina pauta social com posições críticas à imigração e à política externa. A BSW, até aqui, também recusa coalizão formal com a AfD. O resultado prático é que a próxima maioria estadual nascerá frágil, com um governante que precisa do apoio de forças que se odeiam, em um Land com 43% de um partido que todos concordam em não tocar.
O voto de Sachsen-Anhalt não é sobre "extremismo": é sobre três problemas concretos
Antes de atribuir o resultado a um surto ideológico, convém olhar para as três frustrações mensuráveis que sustentam a votação.
- Custo de vida e energia. A economia alemã entrou em recessão em 2023 e mal saiu dela em 2024. A transição energética, somada ao fim do gás russo barato, pressionou o setor industrial — e a Saxônia-Anhalt é um dos Estados mais dependentes da indústria química e de médio porte.
- Imigração e segurança. Os ataques de Solingen (2024) e Mannheim (2024) reativaram o tema da segurança de forma que partidos tradicionais não souberam processar sem soar defensivos. A AfD ocupa esse espaço há uma década e o eleitor o reconhece como seu.
- Distância cultural. O Leste Alemão segue com renda média 20% abaixo do Oeste, menos infraestrutura e menos perspectiva para jovens. A unidade nacional prometida em 1990 não chegou — e quem paga esse custo cobra nas urnas.
Não se trata de endossar o programa da AfD. Trata-se de registrar, sem paternalismo, que o voto de 43,8% reflete problemas reais que outros partidos não quiseram resolver — e que a alternativa ao cordão sanitário não é a celebração do extremismo, mas a formulação de respostas que tirem a AfD da condição de único canal dessas demandas.
O que está em jogo para Berlim e Bruxelas
Para o chanceler Merz, a derrota abre uma frente interna no momento em que o governo precisava de coesão para conduzir a política migratória, o orçamento de defesa e a relação com os Estados Unidos pós-Trump. A CDU que elegeu Angela Merkel três vezes não é a mesma que elegeu ele em 2025 — e isso ficou visível na Saxônia-Anhalt.
Para a União Europeia, o efeito é sistêmico. A Alemanha sempre foi o freio institucional contra movimentos nacionalistas nos países membros. Com a AfD mirando a Chancelaria Federal, Bruxelas perde o ponto de gravidade que sustentava o consenso europeu em questões como regras fiscais, política migratória e ajuda à Ucrânia. Governos de Paris, Roma e Madri já convivem com direitas radicais no Executivo; Berlim era a exceção que confirmava a regra.
O paralelo brasileiro — e o que ele ensina
O paralelo é útil, embora imperfeito. No Brasil, a rejeição ao bolsonarismo operou por exclusão: criminalização midiática, judicialização e isolamento político sem negociação de pauta. O resultado foi manter a direita fora do jogo formal sem resolver nenhuma das questões que a alimentaram — insegurança, escola, ideologia, custo de Estado. Quando a direita voltou ao Executivo, em 2019, foi com força maior do que a margem institucional previa.
O caso alemão mostra que o cordão sanitário funciona como dique de curto prazo e como multiplicador de longo prazo. Toda vitória que a AfD acumula no Leste aumenta a probabilidade de uma vitória nacional no centro-Oeste industrial. Quanto mais o cordão é mantido, mais ele se torna insustentável quando a matemática, inevitavelmente, deixa de permitir coalizões sem ele.
Por que isso importa — leitura de consequência prática
A leitura prática, fora do simbólico, é direta. Para a política europeia, o resultado da Saxônia-Anhalt antecipa um ciclo em que coalizões serão mais frágeis, orçamentos mais disputados e políticas migratórias mais tensionadas — independentemente de quem governe Berlim. Para o investidor e para o cidadão comum, isso significa mais volatilidade cambial no euro, mais dependência energética de curto prazo e menos previsibilidade regulatória. Para o observador brasileiro, significa que o padrão "popular contra elite, elite contra cordão sanitário, cordão sanitário contra realidade" é replicável em qualquer democracia ocidental — inclusive a nossa.
Perguntas frequentes
A AfD vai governar a Saxônia-Anhalt?
Provavelmente não diretamente. Com 39 das 83 cadeiras, falta-lhe maioria. A coalizão mais provável será entre CDU, SPD e, possivelmente, BSW — todos formalmente comprometidos a isolar a AfD do Executivo.
O que é o "cordão sanitário" alemão?
É o compromisso dos partidos tradicionais de não formar coalizão nem pactuar apoio parlamentar com a AfD. Foi adotado nos anos 2010 e é justificado pelo histórico nazista e pela classificação oficial do partido como caso confirmado de extrema-direita pelo serviço de inteligência interno.
Isso afeta o governo federal de Merz?
Sim. Aumenta a pressão interna sobre a coalizão CDU-SPD em Berlim, enfraquece a base parlamentar de Merz para reformas sensíveis e transforma qualquer erro de gestão nacional em combustível eleitoral para a AfD.
Tem paralelo com o Brasil?
A lógica é comparável: tentativa de excluir a direita radical do jogo institucional sem resolver as pautas que a alimentam. O resultado brasileiro foi manter a tensão em vez de administrá-la; o desfecho alemão ainda está em aberto.
O que vem agora?
Nos próximos meses: definição da coalizão estadual em Sachsen-Anhalt, três eleições estaduais no Leste em 2026 e o início informal da corrida para a Chancelaria Federal. A AfD, pela primeira vez, será medida como potencial força governamental nacional — e não mais como protesto regional.
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