A pesquisadora Gaya Herrington, da Universidade de Harvard, trouxe ao Encontro Futuro Vivo a defesa do biorregionalismo como antídoto ao que chama de "colapso planetário" — e, com ela, a atualização de um dossiê intelectual de 1972 que nunca deixou de alimentar o debate sobre crescimento, recursos e futuro da economia global. A palestra importa menos pelo diagnóstico catastrófico em si e mais pelo que ele sinaliza sobre a direção que parte do ambientalismo institucional pretende imprimir à organização econômica nas próximas décadas, inclusive no Brasil.
Quem é Gaya Herrington e o que ela propõe
Economista, pesquisadora e professora adjunta em Harvard, Gaya ganhou projeção em 2021 ao publicar uma atualização do estudo Limits to Growth ("Os Limites do Crescimento"), originalmente lançado em 1972 pelo Clube de Roma. Nesta terça-feira (1º), ela palestrou no Encontro Futuro Vivo, evento que reúne, segundo o portal Terra.com.br, "especialistas e lideranças que são referência em desenvolvimento sustentável no Brasil e no mundo".
O conceito central que trouxe ao debate é o biorregionalismo: a ideia de que comunidades humanas organizem suas atividades econômicas em sintonia com os limites e características dos ecossistemas locais, em vez de operarem segundo uma lógica global indiferente à geografia. Em sua fala, Gaya sustentou que "uma vez que nossas necessidades básicas estão assistidas, há mais altruísmo e vontade de trabalhar em comunidade" e que "a divisão das biorregiões faz com que as organizações humanas se construam em comunidades saudáveis".
A árvore genealógica intelectual: o Clube de Roma e "Os Limites do Crescimento"
O Limits to Growth, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT, tornou-se uma das peças intelectuais mais influentes — e mais contestadas — do ambientalismo moderno. O estudo não apresentou uma única previsão de futuro, mas um conjunto de cenários modelados em computador a partir da interação entre cinco variáveis: população, produção industrial, poluição, recursos naturais e produção de alimentos. O cenário rotulado "business as usual" projetava colapso em algum ponto do século XXI.
Críticos de diferentes correntes — do economista Julian Simon a autores ligados à esquerda produtivista — apontaram desde a década de 1970 fragilidades metodológicas do modelo: elasticidade de substituição entre recursos ignorada, subestimação sistemática do progresso tecnológico e tratamento da economia como sistema físico fechado, o que raramente é. Gaya e seus colaboradores sustentam, na atualização de 2021, que os dados recentes estão dentro da faixa de variação do cenário de colapso do estudo original — reabrindo uma disputa que, rigorosamente, nunca foi resolvida.
Colapso ou prosperidade? O que os dados efetivamente mostram
A divergência sobre o que de fato aconteceu desde 1972 é o ponto honesto a enfrentar. De um lado, indicadores agregados de bem-estar humano melhoraram de forma expressiva nas últimas cinco décadas: a expectativa de vida global subiu de cerca de 58 anos em 1970 para mais de 73 anos em 2022, segundo dados das Nações Unidas. A extrema pobreza mundial caiu de mais de 40% em 1981 para menos de 9% em 2022, de acordo com séries do Banco Mundial compiladas por Our World in Data. A fome extrema recuou em termos absolutos mesmo com a população mundial mais que dobrando no período.
De outro lado, as emissões globais de gases de efeito estufa mais que dobraram desde 1970; a biodiversidade segue em declínio medido por diferentes índices; e a degradação de solos e aquíferos é documentada em regiões-chave do planeta. A própria pesquisadora reconhece, em entrevista ao Terra, que o futuro é "completamente imprevisível" porque há "tantas tendências se interconectando, não apenas as mudanças climáticas" — e cita explicitamente a geopolítica como uma dessas variáveis.
Para esta análise, o ponto central é que "colapso" e "limite" não são sinônimos. Limites reais existem e exigem políticas públicas sérias. Mas a tradição intelectual inaugurada pelo Clube de Roma tende a tratar limites como determinísticos, ignorando que a história econômica é também a história de limites sendo deslocados por inovação, substituição de recursos e adaptação institucional. Avaliar uma proposta pela qualidade do diagnóstico que ela oferece é o mínimo de rigor antes de importá-la para a política.
O biorregionalismo, na prática: oportunidade ou nova camada de controles?
A ideia de organizar a vida econômica em torno dos ecossistemas locais não é nova. Tem raízes em autores como o americano Kirkpatrick Sale, em Dwellers in the Land (1985), e na ecologia profunda do norueguês Arne Næss. Na formulação contemporânea, ela admite duas leituras muito distintas — e qualquer análise responsável precisa separá-las:
- Leitura descentralizadora: comunidades definem, com autonomia, padrões de uso compatíveis com o entorno natural, à margem do planejamento central. Esta leitura dialoga com tradições conservadoras de subsidiariedade, associativismo civil e gestão local de bens comuns.
- Leitura regulatória: o mesmo conceito é capturado por agências estatais e organizações internacionais para impor zoneamentos, restrições a atividades produtivas e novas camadas de licenciamento, frequentemente sem que as comunidades afetadas tenham voz real no processo.
O que prevalece depende de quem opera a política. No Brasil, onde o Estado já acumula competências sobre terras indígenas, unidades de conservação e Zoneamento Econômico-Ecológico, a importação acrítica do biorregionalismo tende a aprofundar a sobreposição de restrições — com custos mensuráveis para quem produz, em especial na Amazônia Legal, no Cerrado e na fronteira agrícola do Matopiba.
Por que isso importa para o debate brasileiro
O Brasil está no centro desse debate por uma razão objetiva: abriga a maior floresta tropical do mundo, uma das maiores reservas de água doce, parcela significativa da biodiversidade planetária e, simultaneamente, uma fronteira agrícola em expansão. Qualquer matriz intelectual que chegue pronta da academia norte-americana ou europeia para tratar de "limites planetários" acaba influenciando, direta ou indiretamente, decisões que afetam o produtor rural, o investidor e o contribuinte brasileiros.
Três pontos merecem atenção:
- Custo regulatório. Cada nova camada de restrição justificada por "limites ecossistêmicos" tende a recair de forma desproporcional sobre quem produz, sem que o cálculo de custo-benefício seja publicizado nem auditado por órgãos de controle.
- Direito de propriedade. O princípio mínimo de qualquer política ambiental crível é que ela preserve, e não solape, os direitos de quem cumpre a lei e produz sobre a terra. Indenização, segurança jurídica e prazo claro para adaptação são inegociáveis.
- Inovação tecnológica. O Brasil tem vocação para ser provedor de soluções ambientais baseadas em ciência — da agropecuária de baixo carbono à bioeconomia. Mas soluções desse tipo dependem de segurança jurídica e de preços relativos que reflitam escassez real, não de narrativas genéricas de colapso que paralisam decisões de investimento.
Para esta análise, a palestra de Gaya Herrington em um evento brasileiro é mais um sinal de que a linguagem do "colapso" continua viva e operacional nas salas que produzem referência para políticas públicas — e de que é preciso tratá-la com a seriedade que o tema merece, sem cair no catastrofismo preguiçoso nem no negacionismo confortável. O desafio brasileiro é ouvir o alerta sem terceirizar a solução.
Perguntas frequentes
O que é biorregionalismo? É a proposta de organizar atividades econômicas, sociais e culturais em torno das características e limites dos ecossistemas de uma determinada região, em vez de uma lógica global indiferente à geografia.
O que dizia o estudo Limits to Growth de 1972? Publicado pelo Clube de Roma, modelou cenários para a interação entre população, indústria, poluição, recursos naturais e produção de alimentos. Um dos cenários, chamado "business as usual", projetava colapso no século XXI. O estudo não é unanimidade entre economistas e já foi alvo de críticas metodológicas desde a publicação.
O que concluiu a atualização de 2021 de Gaya Herrington? Segundo a própria pesquisadora, os dados recentes estariam dentro da faixa do cenário de colapso do estudo original — tese contestada por críticos que apontam melhoria em indicadores sociais e negligência do modelo quanto ao progresso tecnológico.
Qual a relação entre biorregionalismo e a política ambiental brasileira? O conceito dialoga com instrumentos já existentes, como o Zoneamento Econômico-Ecológico e o Sistema Nacional de Unidades de Conservação. Dependendo de como for aplicado, pode reforçar a gestão local ou acrescentar restrições à atividade produtiva sem participação real das comunidades afetadas.
Existe risco de o debate sobre "colapso" justificar mais intervenção estatal? Historicamente, argumentos de escassez absoluta tendem a ser capturados por propostas de planejamento central e restrição à iniciativa privada. O risco é real e exige transparência sobre critérios, custos e sobre quem paga a conta.
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