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Biorregionalismo: a proposta de Herrington para o Brasil

regionalismo proposto por pesquisadora de Harvard reacende no Brasil o debate entre limites do crescimento econômico e soberania sobre a Amazônia.

Por Beatriz Andrade Lima · · 9 min de leitura

Biorregionalismo: a proposta de Herrington para o Brasil
Biorregionalismo: a proposta de Herrington para o Brasil

A discussão sobre os limites físicos do crescimento econômico ganhou novo fôlego nesta semana com a passagem da economista Gaya Herrington pelo Encontro Futuro Vivo, evento que reúne especialistas e lideranças em desenvolvimento sustentável no Brasil. Pesquisadora e professora adjunta em Harvard, Herrington defendeu o chamado biorregionalismo como caminho para evitar um colapso ambiental — e foi além: admitiu que mesmo acadêmicos de sua área não conseguem cravar onde, no mundo, será "relativamente seguro" estar nas próximas décadas.

A fala importa por três razões. Primeiro, porque Herrington não é comentarista ocasional: ela atualizou, em 2021, o estudo Limits to Growth (Os Limites do Crescimento, em português), referência do Clube de Roma lançada originalmente em 1972. Segundo, porque o biorregionalismo não é um detalhe técnico — é uma proposta de reorganização da vida econômica em torno de ecossistemas locais, com implicações diretas sobre soberania, propriedade e liberdade produtiva. Terceiro, porque o debate chega ao Brasil em um momento em que a Amazônia voltou ao centro das pressões internacionais por restrição de uso do território.

Quem é Gaya Herrington e por que seu nome voltou ao centro do debate

Gaya Herrington é economista, pesquisadora e professora adjunta na Universidade de Harvard, com foco em sustentabilidade e modelagem de sistemas. Segundo o portal Terra.com.br, ela ganhou projeção mundial em 2021, quando publicou uma atualização do estudo Limits to Growth, originalmente lançado em 1972 pelo Clube de Roma — think tank que reúne cientistas, economistas e industriais para discutir os rumos de longo prazo da humanidade.

O estudo original é referência obrigatória em qualquer debate sobre meio ambiente e economia. Sua tese central: o modelo de crescimento exponencial da economia global, mantido nas tendências observadas nas décadas de 1970, colidiria com limites físicos do planeta em algum momento do século XXI. A atualização de Herrington comparou os dados de cinco décadas atrás com os atuais e concluiu que as tendências originais foram, em linhas gerais, reproduzidas — o que, segundo ela, mantém o cenário de colapso como plausível nas projeções de longo prazo.

É importante registrar o que essa continuidade significa — e o que ela não significa. A manutenção das tendências não equivale a uma data marcada para o colapso, e os próprios modelos originais foram alvo de críticas metodológicas sérias ao longo dos últimos 50 anos. Mas a atualização não pode ser descartada: foi conduzida por pesquisadora vinculada a Harvard, com dados públicos, e dialoga com toda a tradição de modelagem de sistemas que sustenta boa parte da política ambiental contemporânea.

O que é, afinal, o biorregionalismo

Em termos simples, o biorregionalismo propõe que comunidades organizem suas atividades econômicas — produção, troca, consumo — de acordo com os limites e características dos ecossistemas em que estão inseridas. A ideia não é nova: tem raízes no pensamento ambientalista dos anos 1970 e foi articulada por autores como Peter Berg e Raymond Dasmann. O que Herrington acrescenta, conforme relatou ao Terra.com.br, é a leitura de que, uma vez atendidas as necessidades materiais básicas, "há mais altruísmo e vontade de trabalhar em comunidade" — tese que conecta o biorregionalismo a uma certa antropologia otimista sobre o comportamento humano pós-abundância.

O conceito admite, portanto, duas leituras. A primeira, mais próxima da tradição conservadora e liberal: comunidades locais, conhecedoras de seu território, definem regras de uso compatíveis com a capacidade de regeneração dos recursos, com ênfase em autogestão, propriedade privada e responsabilidade local. A segunda, mais tecnocrática: um plano superior — conduzido por cientistas, organismos internacionais ou burocracias estatais distantes — estabelece o que cada biorregião pode ou não produzir, em nome de "limites planetários" calculados fora do território.

A diferença entre essas duas leituras é tudo. E é aí que mora o problema prático para qualquer país que dependa de produção agrícola, mineral ou energética em escala.

O argumento mais forte de Herrington — apresentação fiel

Antes de qualquer crítica, é justo registrar o melhor do argumento da pesquisadora. Há pelo menos quatro pontos que merecem ser levados a sério.

  • Os limites físicos existem. O planeta tem fronteira material. Atividades que excedem a capacidade de regeneração de solos, aquíferos, florestas e atmosfera geram, mais cedo ou mais tarde, custos expressos como escassez, desastres ou queda de produtividade. Ignorar isso não é posição liberal — é wishful thinking.
  • Modelos de longo prazo servem para evitar surpresas. Mesmo discordando das conclusões específicas, a tradição de modelagem dos limites do crescimento tem o mérito de forçar planejadores a pensarem em horizontes que o ciclo político raramente alcança.
  • Comunidades frequentemente funcionam melhor do que centrais distantes. A literatura liberal, de Hayek a Ostrom, reconhece que o conhecimento local é, em muitos casos, superior ao conhecimento centralizado. O biorregionalismo, em sua versão comunitária, dialoga com essa intuição.
  • Traços comportamentais mudam com a abundância material. A observação de Herrington sobre altruísmo e cooperação após atendidas as necessidades básicas dialoga com pesquisa empírica consolidada, embora não seja livre de contestação metodológica.

Apresentados assim, os pontos são defensáveis. A questão começa quando se passa da descrição para a prescrição — ou seja, quando se define quem, como e com que poder se delimita uma biorregião.

As questões que ficam do lado de cá da cerca

Os "limites" de 1972 e o que aconteceu desde então

O modelo original do Clube de Roma previu, em suas variantes mais citadas, que o colapso das tendências industriais ocorreria nas primeiras décadas do século XXI. Estamos, em 2026, mais ricos, mais populosos e mais produtivos do que em 1972, em termos absolutos. Os mecanismos pelos quais isso aconteceu — inovação tecnológica, substituição de recursos, abertura comercial, preços como sinalizadores de escassez — são exatamente os que os modelos originais subestimavam. Registrar isso não é negar a possibilidade de limites futuros; é apenas recusar a leitura segundo a qual a história dos últimos 50 anos seria confirmação linear da tragédia prevista. Para esta análise, isso significa que qualquer política pública desenhada a partir do Limits to Growth precisa ser avaliada pelos resultados, não pela autoridade intelectual de quem a invoca.

Quem define os limites de uma biorregião?

A pergunta é prática, não filosófica. Se o conceito for aplicado por comunidades livres, com propriedade clara, regras locais e accountability política, ele se assemelha a muito do que a tradição conservadora e liberal já defende: gestão local, responsabilidade, respeito ao que se conhece. Se for aplicado por agências multilaterais, ONGs transnacionais ou burocracias estatais distantes, o que se tem é uma camada adicional de comando sobre a economia — com o agravante de que os "limites" serão definidos por quem não mora no território, não arca com o custo de suas decisões e não responde ao voto local. Para uma corrente liberal-conservadora, é esta segunda versão que deve ser tratada com desconfiança estrutural.

O Brasil no mapa: soberania, Amazônia e propriedade

O debate não cai no Brasil por acaso. A Amazônia, que cobre cerca de metade do território brasileiro, é sistematicamente apresentada, em fóruns internacionais, como "patrimônio da humanidade" — categoria estranha ao direito constitucional brasileiro, que define a floresta como patrimônio nacional a ser gerido pela União. Propostas de reorganização da economia por biorregiões, quando aplicadas a território brasileiro, tendem a desembocar em algum grau de tutela externa sobre o uso da terra, da água e da biomassa. Isso atinge desde o produtor rural que desmata para plantar, muitas vezes dentro da legalidade, até a exploração mineral e a infraestrutura logística. Para uma análise de centro-direita, o ponto é claro: ninguém conhece a floresta melhor do que quem vive e produz nela, e o princípio da soberania sobre o próprio território não é negociável em nome de modelos preditivos.

Por que isso importa

O que Herrington trouxe ao Encontro Futuro Vivo não é uma proposta isolada — é uma peça do vocabulário que organiza boa parte da agenda ambiental global: limites planetários, economias regenerativas, transição justa, biorregiões. Cada um desses termos carrega, em maior ou menor grau, uma resposta implícita à pergunta "como produzir". Quando essa resposta começa a ser tratada como tecnicamente incontestável, abre-se caminho para restrições de uso, novos tributos, moratórias e licenciamentos que encarecem a produção e empurram decisões para instâncias não eleitas. Para o contribuinte brasileiro, isso tende a significar menos crescimento, menos emprego e mais dependência de quem decide em Genebra, Bruxelas ou Nova York o que pode ou não ser feito em seu próprio quintal.

A lição prática para o leitor brasileiro é menos sobre concordar ou discordar de Herrington — e mais sobre perceber que o debate sobre os limites do crescimento é também um debate sobre quem manda. E essa pergunta não pode ser respondida por especialistas que não respondem ao voto de ninguém.

Perguntas frequentes

O que é o estudo "Limites do Crescimento"?

É um relatório publicado em 1972 pelo Clube de Roma que modelou as tendências de longo prazo da economia global e concluiu que o crescimento exponencial entraria em choque com limites físicos do planeta. Gaya Herrington publicou, em 2021, uma atualização que compara os dados originais com os atuais.

O que é biorregionalismo?

Proposta segundo a qual comunidades devem organizar suas atividades econômicas de acordo com os limites e características dos ecossistemas locais. Pode assumir uma forma comunitária e descentralizada ou uma forma tecnocrática e centralizada, dependendo de quem define e aplica as regras.

A pesquisa de Herrington confirma um colapso iminente?

Não. A pesquisadora sustenta que as tendências originais foram em grande parte reproduzidas e que o cenário de colapso segue plausível nas projeções. Não há, no entanto, data confirmada nem mecanismo único previsto — trata-se de modelagem de longo prazo, com todas as limitações que esse tipo de exercício carrega.

O que isso tem a ver com o Brasil?

O Brasil abriga a maior floresta tropical do planeta e é alvo recorrente de pressões internacionais por restrição de uso do território. Propostas de reorganização econômica por biorregiões tendem a intensificar essa pressão e a levantar questões de soberania sobre a Amazônia e sobre o direito de propriedade no campo.

O biorregionalismo é incompatível com a economia de mercado?

Em sua versão comunitária e local, não necessariamente. Em sua versão tecnocrática, com "limites" definidos por instâncias centrais e aplicados de cima para baixo, é difícil compatibilizá-lo com liberdade econômica, segurança jurídica e direito de propriedade sem colocar o Estado acima do cidadão.

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