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Coligação das Vontades mede até onde a Europa sustenta Kiev

Ucrânia: 22º pacote de sanções à Rússia e escassez de interceptores revelam os limites do apoio europeu e os riscos para o Brasil e a América Latina.

Por Heitor Vasconcelos · · 7 min de leitura

Coligação das Vontades mede até onde a Europa sustenta Kiev
Coligação das Vontades mede até onde a Europa sustenta Kiev

A Coligação das Vontades se reúne com uma equação cada vez mais desconfortável

A próxima segunda-feira reúne em torno da mesma mesa o grupo de países europeus que sustenta a resistência ucraniana. Em pauta, dois temas tecnicamente distintos, mas politicamente inseparáveis: o desenho do 22º pacote de sanções contra a Rússia e a escassez crescente de interceptores que protegem o céu da Ucrânia. Segundo análise do professor de Relações Internacionais da Universidade de Lisboa, Bernardo Valente, no Gabinete de Guerra da Rádio Observador, é desta combinação — pressão econômica somada a um gargalo militar crônico — que sai o termômetro real do que a Europa ainda pode fazer pela Ucrânia sem se expor a um custo que não está disposta a pagar.

O cenário é o pior possível para um encontro com essas ambições. Os ataques russos desta semana foram em larga escala. Do lado de Kiev, a coesão política interna rachou. Do lado de Moscou, a economia mostra sinais de fadiga, mas também de adaptação forçada — incluindo o rebaixamento deliberado da qualidade de combustíveis para sustentar o consumo interno.

O 22º pacote e o que ele revela sobre a fadiga europea

Já são 21 pacotes sancionando a Rússia, e os efeitos começam a aparecer onde doem: refinarias atingidas pelos drones ucranianos, redução da oferta de gasolina e gasóleo, e o paradoxo russo de exportar petróleo para, em seguida, recomprá-lo a preços mais altos. Mas o analista é explícito ao lembrar que esses resultados não vieram só do esforço militar de Kiev — vieram também da "normatividade e da burocracia europeia", isto é, do trabalho paciente, e politicamente custoso, dos 21 pacotes anteriores.

O 22º enfrentará os mesmos obstáculos de sempre, com uma diferença reveladora. Se durante anos o bloqueio foi praticamente um monopólio de Hungria e Eslováquia, no 21º pacote os países que seguraram as decisões foram outros — Alemanha, Grécia e até Portugal —, no caso das exportações de bens alimentícios. A leitura é clara para quem acompanha o tema: a fadiga não é geográfica, é cumulativa. Cada rodada de sanções exige que cada capital renove um cálculo de custo doméstico que, em democracias, tem prazo de validade eleitoral.

Por dentro da crise política em Kiev

Há um fator que costuma ficar de fora das análises sobre a Ucrânia e que, neste momento, é central: a crise de legitimidade interna do governo Zelensky. O antigo ministro da Defesa, Fedorov, em uma única semana, deu três sinais inequívocos de que se posiciona como alternativa. Entrevistou-se à CBS — escolhendo um canal norte-americano, não europeu, para sinalizar a quem fala. Publicou um vídeo com estética de campanha e música agressiva, criticando a reconfiguração do governo. E há rumores de viagem a Washington para contatos diplomáticos diretos.

O pano de fundo é conhecido. Zelensky reorganizou o gabinete há cerca de um ano, aproximando-o de Washington, com Yulia Swiridenko à frente. A administração caiu por denúncias de corrupção. Fedorov saiu como dano colateral. O novo ministro da Defesa, Yevhen Nikmara, tomou posse ontem, e o diretor de compras do ministério pediu demissão no mesmo dia — movimento raro, que costuma significar mais do que transição burocrática.

Para uma análise de centro-direita, este trecho é particularmente revelador. A Ucrânia que a Europa apoia é uma democracia em guerra, e democracias em guerra têm uma obrigação maior, não menor, com transparência e com a rot正常的 do poder. Protestos nas ruas pedindo o retorno de Fedorov indicam que parte da sociedade lê a queda do gabinete menos como combate à corrupção e mais como disputa interna por poder. Esse ruído não é neutro — Moscou o explorará, e já está explorando.

A questão das eleições

Fedorov, segundo o Observador, apontou prazo para novas eleições na Ucrânia. O tema é tabu: Zelensky suspendeu o calendário eleitoral sob argumento de lei marcial, decisão legal mas politicamente custosa. Qualquer debate público sobre o tema, numa sociedade em guerra, abre fissuras que o adversário sabe explorar. Por isso o gesto de Fedorov — se confirmado — tem leitura dupla:诉求 de normalidade democrática, sim, mas também movimento tático de quem entende que a fragilidade de Zelensky é sua maior moeda.

A Rússia sob pressão, mas com margem de manobra

A imagem do lado russo é de economia sob estresse, não em colapso. Os indícios estão nos indicadores, não na política: aumento do crédito malparado nos bancos russos, relatos de ativistas — que o Kremlin consegue silenciar com eficiência — sobre crescimento do alistamento forçado, redução da qualidade de gasolina e gasóleo como ajuste administrativo, e a destruição de armazéns da Wildberries, gigante privada do varejo online russo, mostrando que a guerra já atinge infraestruturas civis relevantes.

Mas há um dado institucional que merece destaque pela sua simbologia autoritária: o partido Yabloko, única agremiação declaradamente antiguerra na Rússia, foi impedido de disputar as eleições parlamentares em dois meses. O motivo alegado foi o uso de uma canção em campanha sem pagamento de direitos autorais. Como observa Valente, é uma eliminação por tecnicidade, daquelas que só regimes seguros de sua própria arbitrariedade conseguem executar sem custo. Para o observador de centro-direita, o episódio é a ilustração mais clara possível do que se ganha quando se troca uma ordem liberal por uma ordem pessoal.

O gargalo dos interceptores e o que ele custa

A discussão sobre defesa aérea é onde a Europa se mostra mais vulnerável. A produção global de baterias antiaéreas Patriot é de cerca de duas por dia, ou setecentas por ano — volume que tem que ser dividido entre teatros de operação simultâneos. E o teatro se multiplicou: o conflito entre Estados Unidos e Irã fez com que as monarquias do Golfo consumissem, em seis meses, mais Patriots do que a Ucrânia utilizou em mais de quatro anos.

O resultado é matemático, não ideológico: faltam interceptores onde há mais necessidade. As baterias europeias existentes no mercado, lamenta Valente, têm "fraca taxa de interceção" contra mísseis balísticos. Por isso a Coligação das Voughtades discute o projeto Freya, que pretende dotar a Europa de capacidade própria de produção. É o debate clássico de autonomia estratégica, que para uma perspectiva liberal-conservadora precisa ser pesado com rigor fiscal: cada euro gasto em defesa europeia é um euro que não vai para outra prioridade pública, e o retorno é sempre hipotético até o primeiro teste em combate real.

Por que isso importa para o Brasil

O Brasil não está na Coligação das Vontades, e o Itamaraty tem sido ativo na tentativa de se posicionar como mediador, não como parte. Ainda assim, as decisões de segunda-feira produzem efeitos indiretos que tocam o bolso e a política externa brasileira.

  • Energia e commodities. Cada rodada de sanções redesenha o fluxo global de petróleo. O Brasil é produtor e exportador; qualquer rearranjo no comércio Rússia–China–Índia altera preços relativos que chegam ao nosso mercado interno.
  • BRICS e a indecisão brasileira. O conflito expõe a tensão entre dois princípios que o Itamaraty tenta equilibrar: a defesa da não intervenção, que pede neutralidade, e a condenação de violações territoriais, que pede posicionamento. Continuar equidistante indefinidamente cobra um custo de credibilidade.
  • Defesa e indústria. O debate europeu sobre autonomia militar é um espelho para a América do Sul, onde o brasileiro comum financia Forças Armadas mal equipadas enquanto discute prioridades que vão do combate ao crime organizado à Amazônia.
  • Princípio democrático. Apoiar Kiev sem cobrar transparência interna é repetir o erro que o Ocidente já cometeu em outras geografias. Para uma análise liberal-conservadora, não há razão para tratar Kiev como exceção ao padrão que se aplicaria a qualquer democracia sob pressão.

Perguntas frequentes

O que é a Coligação das Vontades?
É a coalizão informal de países europeus — majoritariamente Reino Unido, França, Alemanha e países nórdicos e bálticos — que coordena apoio militar, financeiro e diplomático à Ucrânia após 2022.

Por que os Patriots estão em falta?
Porque a produção é limitada (cerca de 700 sistemas por ano, ou dois por dia) e a demanda cresceu simultaneamente: Ucrânia, Irã, Golfo e Israel competem pelo mesmo estoque reduzido.

Quem é Fedorov e por que importa?
Fedorov foi ministro da Defesa e ministro da Transformação Digital da Ucrânia. Saiu do gabinete, mantém influência política e externa, e neste momento se posiciona como alternativa interna a Zelensky.

O 22º pacote de sanções vai ser aprovado?
A análise de Valente indica tendência de aprovação, mas com atrito maior do que em pacotes anteriores e novos países assumindo papel de retardadores — não apenas Hungria e Eslováquia.

O Brasil é afetado diretamente?
Indiretamente: por preços de energia, fluxos comerciais e pela credibilidade da diplomacia brasileira em fóruns multilaterais que precisam escolher lados em algum momento.

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