Quatro candidatos, três ausências notáveis e um debate que nasce minguado
O primeiro confronto televisedo da corrida presidencial de 2026 acontece neste domingo (23), às 20h, na Band, mas o evento já chega ao ar com a principal marca de um encontro que não cumpriu sua função original: três dos nomes mais competitivos da disputa ficarão de fora. Segundo o portal Diariodocentrodomundo.com.br, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sinalizou que não pretende participar e sequer reservou espaço em sua agenda para se preparar; o senador Flávio Bolsonaro (PL) condicionou sua presença à do chefe do Executivo e, na prática, deve seguir o mesmo caminho; e Pablo Marçal (PRTB) foi impedido pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) de subir ao palco, após pressão das demais campanhas junto à emissora.
Restam, portanto, quatro candidatos confirmados: Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo), Renan Santos (Missão) e Augusto Cury (Avante). É um debate que começa sem o candidato à esquerda, sem o candidato da direita bolsonarista e sem o outsider que polarizou a disputa paulistana em 2024 — justamente os três perfis que costumam definir o tom de uma eleição presidencial.
O que está em jogo quando o favorito não vai ao debate
Debates cumprem duas funções em campanhas presidenciais: oferecem ao eleitor um momento de comparação direta entre projetos e expõem fragilidades que o discurso de campanha não revela. Quando o favorito dispensa esse encontro, a leitura mais generosa é a da confiança — o incumbente que lidera com folga tem pouco a ganhar e tudo a perder ao se expor a improvisos. Lula, afinal, é figura de altíssima知名度, com inserções diárias em rádio e TV, agenda de palácio e máquina ministerial a seu serviço. Para um adversário que precisa de palco, ele não precisa dele.
Há, porém, uma leitura menos confortável para o Palácio do Planalto. O primeiro debate é também o momento em que o presidente em exercício responde, pela primeira vez, a cobranças coletivas da oposição sobre inflação, segurança, gastos públicos e escândalos de gestão — não em entrevista controlada, mas em tempo real, sob regra de confronto. A ausência voluntária transfere essa cobrança para o segundo turno, quando o custo político de não debater será maior. Em outras palavras: o que Lula economiza agora, pagará com juros depois. Para o contribuinte-eleitor, isso significa que o exercício público de prestação de contas que um debate proporciona será adiado, não cancelado.
Flávio, a “cláusula Lula” e a estratégia do espelho
A decisão da campanha de Flávio Bolsonaro de participar apenas de debates em que o presidente estiver presente é um movimento de identidade — não de confronto. Flávio quer ser lido, antes de tudo, como o “outro Lula”: o rosto que se coloca diante do chefe do Executivo quando o embate se materializa. Debates contra Caiado, Zema ou nomes menores diluem esse atributo e podem render a Flávio a aparência de quem disputa com correligionários do campo conservador, o que interessa pouco ao seu núcleo duro.
O movimento das credenciais — buscado integralmente pela equipe do senador junto à Band — sugere, como a própria emissora interpretou, que a decisão ainda não estava 100% fechada. Auxiliares, no entanto, indicam que a ausência permanece como tendência. Trata-se, em termos pragmáticos, de uma campanha que administra visibilidade como quem administra recurso escasso: cada aparição pública deve maximizar a percepção de protagonismo.
Há aqui uma fragilidade que a análise deve registrar mesmo quando desfavorável ao campo governista: condicionar presença a adversário específico reduz o repertório de confronto do senador. Em uma campanha longa até outubro de 2026, surgirão debates em que Lula não estará — por exemplo, debates regionais, debates temáticos ou blocos de discussão na televisão em que o senador precisará se medir com pares do próprio campo. A “cláusula Lula”, se levada ao pé da letra, estreita o palanque.
Marçal, o TSE e a questão das regras
A exclusão de Pablo Marçal é o ponto em que a política encontra o Direito — e onde a análise precisa ser mais cuidadosa. Segundo o portal Diariodocentrodomundo.com.br, o ex-coach foi impedido pelo TSE de participar do confronto, e as campanhas dos candidatos confirmados pressionaram a Band para que ele não fosse incluído. Os argumentos usados foram dois: seu partido não participou das discussões sobre as regras do encontro e sua “situação eleitoral é incerta”.
O argumento mais sólido contra a inclusão de Marçal é o da regra pactuada. Um debate presidencial não é uma arena aberta: é um acordo entre campanhas e emissora sobre formato, tempo, direito de resposta e critérios de elegibilidade. Quem não sentou à mesa das negociações não pode, depois, exigir cadeira no palco. Sob essa ótica, a exclusão não é autoritarismo — é coerência contratual.
O argumento mais frágil é o da “situação eleitoral incerta”. Formulações abertas como essa podem servir para excluir legítimamente qualquer pré-candidato com pendências judiciais, mas também podem virar critério discricionário se aplicadas de modo desigual. A Bússola parte da premissa de que o TSE e a Justiça Eleitoral devem ter suas decisões respeitadas — o tribunal é a instância competente para definir inelegibilidade —, mas também de que regras de exclusão em debates precisam ser públicas, iguais para todos e comunicadas antes, não depois, da definição do palco.
O debate que sobra e o que ele revela
Com três ausências, o que resta é um encontro entre dois governadores com base eleitoral consolidada (Caiado em Goiás, Zema em Minas Gerais) e dois nomes de projeção nacional menor (Renan Santos e Augusto Cury). O encontro será útil para testar performance, mensurar capacidade de improviso e acumular material de campanha — mas não definirá a corrida. A função de “definir a corrida” ficou reservada para o debate em que Lula e Flávio, inevitavelmente, estarão frente a frente.
Para o eleitor, a lição prática é simples: o debate de domingo importa menos pelo que será dito no palco e mais pelo que cada ausência comunica sobre estratégia e sobre o estado real da disputa. Ausências em debates são falas — apenas mudam de mídia.
Por que isso importa
O domingo (23) inaugura a temporada de debates, mas não a corrida. Os três nomes que de fato decidirão 2026 — Lula, Flávio e Marçal, cada um a seu modo — optaram por não se expor. Isso desloca o peso do confronto para os próximos compromissos: debates em que o presidente não poderá se recusar sem custo, debates em que Flávio precisará enfrentar pares do campo conservador e o caminho judicial de Marçal no TSE. Para o contribuinte-eleitor, o efeito prático imediato é a redução do poder de comparação entre os principais candidatos neste momento do calendário — um custo informacional que a campanha terá de recuperar adiante.
Perguntas frequentes
Quem participa do primeiro debate presidencial de 2026?
Quatro candidatos confirmados: Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo), Renan Santos (Missão) e Augusto Cury (Avante). O debate será na Band, neste domingo (23), às 20h.
Por que Lula não estará no debate?
Segundo o portal Diariodocentrodomundo.com.br, o presidente sinalizou à direção da emissora que não pretende participar e não reservou espaço em sua agenda de campanha para se preparar.
Flávio Bolsonaro vai ao debate?
A tendência, segundo auxiliares, é de ausência. A campanha condicionou a presença à presença de Lula. Mesmo assim, a equipe buscou todas as credenciais disponíveis, o que a Band interpretou como possibilidade — ainda não confirmada — de comparecimento.
Por que Pablo Marçal foi excluído?
De acordo com a publicação, ele foi impedido pelo TSE e teve a exclusão reforçada por pressão das demais campanhas, sob o argumento de que seu partido não participou das negociações sobre as regras do encontro e de que sua situação eleitoral é incerta.
Esse debate define alguma coisa na corrida?
Pouco. É um teste de performance para Caiado, Zema, Renan Santos e Cury, mas o peso decisório da temporada de debates virá dos confrontos diretos entre os três nomes mais competitivos — que, neste domingo, não estarão no palco.
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