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Putin discute guerra na Ucrânia com enviados dos EUA

Putin recebe Witkoff e Kushner no Kremlin para discutir fim da guerra na Ucrânia, mas Moscou negocia de cima e ataca no mesmo dia. Impacto chega ao Brasil.

Por Beatriz Andrade Lima · · 7 min de leitura

Putin discute guerra na Ucrânia com enviados dos EUA
Putin discute guerra na Ucrânia com enviados dos EUA

O encontro, em uma frase

Vladimir Putin recebeu neste sábado (5), no Kremlin, os enviados pessoais de Donald Trump — Steve Witkoff e Jared Kushner — para discutir um eventual plano de encerramento da guerra na Ucrânia, que se arrasta há mais de quatro anos. As conversas duraram mais de três horas e foram descritas por assessores do Kremlin como "extremamente francas". No mesmo dia, ataques russos mataram ao menos dez civis na Ucrânia, incluindo dois nos arredores de Kiev, segundo o portal Abril.com.br.

Para entender o que esse encontro significa, é preciso olhar menos para a foto do aperto de mão e mais para três coisas: quem Trump mandou, o que Putin está disposto a ceder e em que momento a guerra realmente está.

Quem está à mesa — e por que isso importa

Witkoff e Kushner não são diplomatas de carreira. São homens de confiança pessoal do presidente americano: o primeiro é um investidor imobiliário com trânsito crescente em política externa; o segundo é genro de Trump e foi figura central do primeiro mandato, quando conduziu, entre outros processos, os Acordos de Abraão entre Israel e países árabes.

A escolha não é acidental. Sinaliza o estilo Trump de fazer política externa: tratá-la como transação de negócios, com enviados que respondem diretamente ao dono do negócio, não à máquina burocrática do Departamento de Estado. Para quem defende o modelo, é agilidade e desemperramento. Para quem critica, é a despolitização da diplomacia — decisões de guerra e paz tomadas em circuito fechado, sem o contraditório institucional que existe, por exemplo, no Senado americano ou nas comissões de relações exteriores.

A visita dos dois a Kiev neste domingo, com voo em espaço aéreo fechado desde 2022, será a primeira desde o início do segundo mandato de Trump. O simbolismo reforça outro ponto: a mediação americana na Ucrânia tem rosto familiar, não rosto institucional.

Putin negocia de cima — e isso muda tudo

O assessor do Kremlin disse mais do que provavelmente pretendia. Ao afirmar que Moscou está convicta de que poderá alcançar seus objetivos militares de assumir o controle do restante do leste da Ucrânia, conforme registrado pelo portal Abril.com.br, ele expôs a assimetria real da mesa. Putin não está negociando para sair da Ucrânia; está negociando para formalizar uma conquista obtida no campo de batalha.

Tres consequências práticas decorrem disso.

  • O cessar-fogo será tático, não estrutural. O compromisso de "não atacar as capitais adversárias por três dias" durante as negociações é gesto simbólico, não arquitetura de paz. É o tipo de trégua que se oferece para comprar tempo, mudar narrativa e testar a intenção do outro lado.
  • O relógio corre contra Kiev, não contra Moscou. Quanto mais a guerra avança, mais território a Rússia consolida. Cada mês de negociação é, do ponto de vista russo, um mês a mais de conquista territorial lenta — útil para entrar em qualquer acordo com mais fatos consumados.
  • A contradição entre mesa e campo é a regra, não a exceção. Dez civis mortos no mesmo dia da reunião é, lamentavelmente, o padrão da diplomacia de guerra russa: negociar e bombardear em paralelo. Não há, em Moscou, separação visível entre conversa e pressão militar.

O que está em jogo de verdade

Tirada a camada de imagens, três pontos concretos estão sobre a mesa, segundo o que se depreende do texto da Abril.com.br e do contexto conhecido das rodadas anteriores.

  1. O destino do Donbas e das regiões ocupadas. Putin quer reconhecimento de facto da anexação de territórios que controla. Zelensky só admite discussão sob a condição de integridade territorial e garantias robustas de segurança.
  2. Garantias de segurança para a Ucrânia. O modelo de "não adesão à OTAN em troca de proteção coletiva" tem sido a moeda preferida dos mediadores. A dúvida é quem paga a conta dessas garantias e quem fiscaliza o seu cumprimento.
  3. Sanções e reconstrução. Alívio das sanções ocidentais é a carta econômica russa; recursos para reconstrução é a carta europeia. O ponto de equilíbrio está longe.

É bom lembrar: um acordo de verdade pressupõe que ambas as partes aceitem perder algo. Até aqui, nada na postura russa pública sugere disposição de devolver o que tomou. E nada na postura ucraniana pública sugere disposição de legalizar o que perdeu.

Por que isso importa para o Brasil

O tema parece distante, mas toca diretamente em variáveis que afetam o bolso do brasileiro e o espaço diplomático que o governo federal pretende ocupar.

  • Preços de alimentos e fertilizantes. Rússia e Ucrânia somadas respondem por fatia relevante do mercado global de trigo, milho, óleo de girassol e fertilizantes. Qualquer escalada, ou ao contrário um acordo firme, move cotações na bolsa de Chicago — e, com defasagem, o preço do pão, do combustível e do insumo agrícola no interior do Brasil.
  • Posição do Brasil no tabuleiro. O Itamaraty tem oscilado entre a condenação à invasão em 2022 e a tentativa de manter ponte com Moscou — posição com custo reputacional junto à União Europeia e parte do G7. Uma eventual saída negociada forçaria o governo brasileiro a recalibrar discurso e voto em fóruns multilaterais, inclusive em eventual discussão no Conselho de Segurança da ONU.
  • BRICS e arquitetura financeira. Discussões sobre pagamentos em moeda local e alternativas ao dólar entre parceiros da Russia ganham impulso se houver alívio de sanções. Esse desenho interessa e preocupa ao mesmo tempo, dependendo do ângulo.
  • Segurança jurídica internacional. Para um país que preza por regras — ou que diz prezar —, o precedente de uma invasão territorial recompensada por negociação tem leitura desfavorável à estabilidade de longo prazo das relações entre Estados.

O estilo Trump de negociar: força ou fragilidade?

A grande pergunta que sobra é se o modelo "homens de confiança + pressão direta + prazo curto" produz resultado ou apenas performance. Os Acordos de Abraão, vitrine do método, foram possíveis porque havia ativo diplomático construído antes. Na Ucrânia, não há ativo construído — há quatro anos de guerra, sanções frayedas e um Kremlin que se sente vencedor.

Para esta análise, três sinais vão indicar, nas próximas semanas, se o movimento é sério ou apenas encenação.

  • Se as próximas conversas incluírem europeus e ucranianos com poder real de veto. Sem isso, o acordo pode ser um desenho americano-russo com Kiev convocada a assinar.
  • Se os ataques russos a infraestruturas civis diminuírem de fato. Não basta trégua sobre as capitais; é preciso trégua sobre a rede elétrica e as cidades do interior.
  • Se Moscou abrir mão de algum objetivo maximalista declarado. Se "alcançar os objetivos militares" continua sendo a bússola do Kremlin, não há acordo possível que não seja rendição parcial da Ucrânia.

Há ainda um ponto que esta análise registra semResolver: a própria lógica do modelo Trump, que combina elogio público ao líder russo, prazo curto para resultados e enviados sem lastro institucional, tende a produzir dois cenários igualmente ruins. O primeiro é o fracasso visível, com Trump creditando o fracasso a Kiev e a Europa. O segundo é um acordo cosmético, anunciado com pompa, mas sem mecanismo de enforcement — e que, portanto, dura até a próxima escalada.

Perguntas frequentes

Quem são Steve Witkoff e Jared Kushner? São enviados pessoais do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Witkoff é investidor com atuação crescente como mediador informal no conflito; Kushner é genro de Trump e foi figura central dos Acordos de Abraão no primeiro mandato. Nenhum dos dois é diplomata de carreira.

A trégua de três dias é real ou simbólica? Simbólica, segundo a leitura deste texto. É um gesto para viabilizar a ida dos enviados a Kiev, não uma arquitetura de cessar-fogo. Não há monitoramento independente, não há compromisso sobre infraestruturas críticas além das capitais e não há reciprocidade verificável além da promessa política.

O que a Rússia quer de fato? Pelo que disse o assessor do Kremlin nesta reunião, Moscou quer reconhecimento de sua presença no leste da Ucrânia e, em última instância, um acordo que congele a situação em linha favorável. Não há sinal público de disposição a devolver territórios ocupados.

O que isso muda para o Brasil? Potencialmente, preços de trigo, milho e fertilizantes; o custo de reconstruir o discurso diplomático em fóruns multilaterais; e a credibilidade do país como eventual mediador se a guerra terminar sem participação brasileira no processo.

Existe chance real de acordo? Existe chance de anúncio, que é diferente. Existe chance baixa, mas não nula, de acordo estruturado se houver pressão americana sustentada sobre Moscou e garantias firmes à Ucrânia. O que não existe, pelos fatos disponíveis, é acordo sem custo real para o Kremlin.

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