A política tradicional perdeu a primazia — e o debate sobre os "antissistema" é, na verdade, o debate sobre o que sobra
A leitura do cientista político Marco Antonio Teixeira, professor da FGV, no programa Ponto de Vista de VEJA, divulgada pelo portal Abril.com.br, inverte a causalidade habitual no debate sobre as eleições brasileiras. Não é que candidatos como Pablo Marçal (PRTB), Renan Santos (Missão) e Augusto Cury (Avante) provoquem cansaço no eleitor. Eles são, ao mesmo tempo, sintoma e consequência do cansaço que o eleitor já carrega diante de uma classe política tradicional que produz pouco e se protege muito. O que está em jogo não é uma curiosidade sociológica — é o desenho da próxima rodada eleitoral e a viabilidade de agendas reformistas que dependem de quadros comprometidos com resultados verificáveis.
O terreno: descrédito acumulado, candidato a candidato
Para avaliar a tese com seriedade, é preciso separar com nitidez o que é fato consolidado do que é avaliação editorial.
São fatos consolidados: o brasileiro convive há décadas com crescimento medíocre, carga tributária entre as mais altas do mundo, expansão contínua da máquina estatal e uma sucessão de escândalos de corrupção que começou, na memória recente, com o Mensalão (2005), passou pela Operação Lava Jato (2014–2019) e se ramificou em centenas de desdobramentos. O resultado é uma taxa de confiança no Congresso, nos partidos e no governo que aparece sistematicamente entre as mais baixas em surveys internacionais — fenômeno, e não exceção brasileira.
Avaliação d'A Bússola Nacional: esse estoque de frustração é, em boa medida, merecido. Parte substantiva do sistema partidário — em especial, mas não apenas, o campo que governou o país entre 2003 e 2016 — operou na direção oposta ao que uma agenda liberal-conservadora preconiza: mais Estado, mais gasto, mais regulação, mais tolerância com o patrimonialismo. Não há motivo racional para que o eleitor confiasse em seus artífices. Por isso, o espaço vazio existe — e tende a ser preenchido.
Quem são, de fato, os "antissistema"
Teixeira agrupa sob a mesma etiqueta perfis bastante distintos. A unidade do grupo não está em uma plataforma comum — está no que rejeitam e na origem predominantemente extra-política de suas trajetórias.
- Pablo Marçal (PRTB): empresário do setor de coaching que migrou para a política. Foi candidato à Presidência em 2022 e à Prefeitura de São Paulo em 2024. Teixeira cita, como elementos de sua trajetória, o episódio do resgate pelo Corpo de Bombeiros após subida à Serra da Mantiqueira e denúncias relacionadas a negócios em Goiás. O perfil é o do empreendedor que se apresenta como outsider frente a uma classe política que, no diagnóstico do próprio Marçal, vive "da política e não para a política".
- Augusto Cury (Avante): psiquiatra e escritor best-seller, com capital simbólico no campo da saúde mental, da família e da educação. Entrou na política carregando pautas de costumes e críticas à máquina pública — uma das pontas mais legítimas do discurso antissistema, quando bem articulado.
- Renan Santos (Missão): vinculado ao partido Missão, com presença no campo da direita cristã e em pautas conservadoras de costumes. Representa uma fração do fenômeno conectada a igrejas e a pautas identitárias que mobilizam parcelas específicas do eleitorado.
O ponto em comum é a ausência de carreira partidária prévia — e, com ela, da necessidade de prestar contas a qualquer base organizada que não seja o próprio eleitorado nas redes sociais.
O argumento contrário, em sua versão mais forte
Antes de avançar na avaliação, vale registrar a leitura otimista do fenômeno, em sua formulação mais sólida. Defensores da renovação antissistema argumentam que democracias saudáveis precisam de válvula de escape contra a profissionalização da política. Candidatos como Marçal trariam, nesse diagnóstico, três qualidades reais:
- Linguagem direta, que conecta com um eleitor saturado de tecnocracia, jargão partidário e promessas genéricas.
- Origem em outros campos da vida produtiva — negócios, ciência, pastoral — o que, em tese, os blinda contra a captura pelo fisiologismo partidário.
- Capacidade de mobilização de parcelas do eleitorado que os partidos tradicionais já não conseguem alcançar, em particular jovens e segmentos religiosos.
A conclusão dessa corrente é que nenhum desses candidatos precisaria comprovar alinhamento com uma base oligárquica para se manter viável. O sistema seria, assim, autorregulado pela liturgia do voto — exatamente como deve ser.
Por que isso importa: nem todo "antissistema" é reforma
Reconhecer legitimidade ao diagnóstico adversário não significa concordar com ele em sua conclusão. Há, no mínimo, três problemas sérios com a equiparação simplista entre "antissistema" e "reformismo".
Primeiro — rompimento com o establishment não é sinônimo de agenda liberal-conservadora. Marçal, o mais visível do grupo, já demonstrou plasticidade programática suficiente para acomodar discursos estatistas em momentos de conveniência. Para esta análise, isso é sintoma de personalismo, não de reformismo. Reforma exige coerência ao longo do tempo, não performance calibrada ao ciclo eleitoral.
Segundo — parte do discurso antissistema é, na prática, anti-institucional. Combater decisões específicas do STF é legítimo. Combater a existência do STF é outra coisa. A fronteira, no discurso de parte desses outsiders, é frequentemente borrada — o que tem efeitos concretos sobre a previsibilidade jurídica de que economia e sociedade dependem.
Terceiro — o custo da instabilidade recai sobre quem cumpre a lei e investe. Empresas, empreendedores e famílias que planejam, contratam e pagam sofrem mais com ciclos de radicalização do que com a má política tradicional — porque, contra a má política tradicional, há repertório institucional consolidado. Contra rupturas abruptas, há muito menos.
A leitura d'A Bússola Nacional é esta: o vácuo deixado pela política tradicional é real e precisa ser preenchido. Mas a substituição deveria ser feita por quadros comprometidos com agendas verificáveis — segurança jurídica, responsabilidade fiscal, Estado que respeite a iniciativa privada, costumes que respeitem a tradição. O "antissistema" legítimo é o reformista; o demagogo apenas desloca o eixo da captura, mantendo a estrutura.
Por que isso importa agora
Porque a próxima rodada eleitoral não será decidida em laboratório. O eleitor fadigado já está decidindo, no campo, entre as alternativas disponíveis — e nem todas as alternativas são equivalentes em termos de políticas públicas concretas. A escolha entre "mais do mesmo" e "qualquer um diferente" é, na prática, uma escolha pela qualidade do gasto público, pela previsibilidade das regras, pela segurança nas ruas e pela autonomia da família frente ao Estado. Cada uma dessas variáveis responde a decisões concretas de Executivo e Congresso.
Para o campo liberal-conservador, o erro estratégico seria tratar o fenômeno como simples patologia a ser denunciada. O diagnóstico correto é mais trabalhoso: separar, entre os outsiders, quem de fato defende redução do Estado, proteção da propriedade privada, fortalecimento das instituições e segurança pública — e quem apenas descobriu que rejeitar tudo paga bem em engajamento.
Perguntas frequentes
O que é um candidato "antissistema"?
É a designação aplicada a políticos que se apresentam como outsiders em relação à classe política tradicional, sem carreira partidária prévia e com discurso de ruptura com práticas estabelecidas. A categoria é usada por analistas como Teixeira para descrever o grupo heterogêneo que inclui nomes como Marçal, Cury e Renan Santos.
Por que tantos candidatos "antissistema" aparecem agora?
Para Teixeira, a explicação central é o descrédito acumulado da política convencional — alimentado por escândalos de corrupção, baixo crescimento e expansão contínua do Estado. O eleitor cansado abre espaço para quem se apresenta como alternativa a essa classe política.
"Antissistema" significa ser de direita?
Não necessariamente. A categoria é descritiva do posicionamento frente ao establishment, não do conteúdo programático. Há outsiders com pautas liberais, conservadoras e também populistas de esquerda.
Pablo Marçal é o caso mais emblemático do fenômeno?
É, no recorte feito por Teixeira, o nome mais visível pela combinação de base de mídia própria, trajetória empresarial pré-política e controvérsias reiteradas — incluindo as denúncias mencionadas no programa.
O fenômeno é novo na história brasileira?
Não. Ondas antissistema recorreram em ciclos anteriores — Fernando Collor, em 1989, é o caso clássico. A novidade é a combinação entre redes sociais, micropartidos e um estoque de descrédito institucional particularmente elevado.
Gostou desta análise? Compartilhe com quem quer entender a política brasileira além da manchete e assine a newsletter d'A Bússola Nacional.



