O sinal que o mercado deu no primeiro semestre
O mercado brasileiro de fusões e aquisições anunciou 610 operações no primeiro semestre de 2026, recuo de 35% em relação ao mesmo período do ano anterior, segundo levantamento trimestral da KPMG divulgado pelo portal Terra.com.br. O número, por si só, não é a notícia mais relevante. O que importa é o que ele sinaliza: investidores institucionais e empresas estão travando o gatilho das grandes decisões de capital até entenderem o que vem pela frente — em juros, em política comercial e, sobretudo, nas urnas.
A retração coincide com três variáveis que pesam simultaneamente sobre o caixa e o humor de quem opera no Brasil: a Selic em patamar elevado, a volatilidade do comércio internacional e a proximidade do calendário eleitoral. A combinação é típica de momentos em que o setor produtivo prefere preservar liquidez a pagar caro para crescer.
O que os juros altos têm a ver com a decisão de comprar ou vender uma empresa
Em M&A, o custo de capital é a variável silenciosa que decide quase tudo. Quando a taxa básica de juros está em dois dígitos, financiar uma aquisição com dívida fica proibitivo para muitos grupos; quando o vendedor projeta o múltiplo do seu negócio com base em fluxo de caixa descontado, a taxa de desconto engole valor presente. O resultado prático é o que a KPMG registrou: menos operações anunciadas, mais tempo dedicado a due diligence, modelagem financeira e blindagem contratual contra riscos de execução.
Para esta análise, esse comportamento é a resposta racional de um setor privado que, ao contrário do Estado, não imprime moeda nem empurra a conta para a próxima década. O empresário que posterga uma venda ou uma compra em ambiente de juros altos não está "paralisado" — está precificando o risco corretamente. Cabe ao governo, em especial ao Executivo e ao Congresso, refletir sobre por que a curva de juros continua nesse patamar. Historicamente, no Brasil, juros estruturalmente altos andam de mãos dadas com gasto público acima da capacidade de financiamento do Estado e comcredibilidade fiscal em degradação.
Por que o middle market sustenta o mercado mesmo na retração
Dos 610 negócios identificados no semestre, 267 tiveram valor divulgado. Desses, 100 — aproximadamente 37% — ficaram na faixa entre R$ 51 milhões e R$ 500 milhões, o que a própria KPMG associa ao middle market, conforme reportado pelo Terra.com.br. O dado merece leitura própria.
- Sucessão familiar. Empresários que tocaram o negócio por décadas e não têm herdeiros dispostos a assumir o controle colocam a empresa à venda como alternativa à liquidação silenciosa.
- Profissionalização da gestão. Empresas que cresceram com gestão familiar sentem, em algum momento, a necessidade de entrar no radar de fundos, governança e reporte mais sofisticado.
- Necessidade de capital. Setores com demanda represada por crédito recorrem ao mercado de M&A como via indireta de funding, vendendo participação ou incorporando concorrentes.
- Diversificação patrimonial. O dono que colocou toda a poupança em um único CNPJ busca, em ciclos de instabilidade, equilibrar risco e realizar ganhos.
Esse movimento é estrutural, não conjuntural. A fala de Pedro Seidenthal, sócio da JK Capital, capturada pelo Terra.com.br, traduz bem o ponto: "o mercado de M&A é cíclico e responde às condições de juros, crédito e confiança. Ao mesmo tempo, existe um movimento estrutural de empresários que avaliam alternativas para obter liquidez, diversificar o patrimônio ou preparar a empresa para um novo ciclo de crescimento". Em outras palavras, o estoque de empresas que precisam se reorganizar societariamente não diminuiu — só está esperando a poeira baixar.
O que o Cade mostra e o que o governo prefere não comentar
O Radar do Cade, levantamento da JK Capital a partir dos registros públicos do Conselho Administrativo de Defesa Econômica, contabilizou 486 protocolos entre janeiro e julho de 2026, ante 454 no mesmo período de 2025 — crescimento de aproximadamente 7%, segundo o Terra.com.br. Os dois recortes, portanto, contam histórias diferentes, e vale entender por quê.
O número do Cade é de protocolos, ou seja, pedidos de análise prévia de atos de concentração. Pode-se protocolar uma operação com o regulador antes de anunciá-la publicamente, ou pode-se anunciar a operação antes da aprovação antitruste — em qualquer caso, o número de protocolos mede mais a temperatura regulatória do que a temperatura de mercado. Ainda assim, ele tem uma leitura política relevante: o Estado brasileiro, mesmo em meio a uma queda expressiva da atividade privada, mantém a máquina de análise de concorrência operando a todo vapor. Para quem defende um Estado enxuto e regulação inteligente, o dado é ambíguo — o Cade precisa existir e cumprir sua função, mas cada protocolo aprovado a mais é também uma empresa que precisou pedir licença ao Estado para reorganizar-se.
Por que isso importa agora
Há três consequências práticas que se desenham a partir dos números da KPMG e do Cade, todas relevantes para o leitor que acompanha política econômica:
- Juro alto custa investimento, emprego e produtividade. A queda de 35% nos anúncios de M&A não é só um dado de jornal de negócios — é menos capital mudando de mãos, menos empresas sendo reestruturadas, menos fundos entrando em companhias médias com aporte de governança. Em um país com baixíssima produtividade, isso cobra um preço silencioso no crescimento potencial.
- A distância entre o discurso oficial e o termômetro privado está enorme. Quando o Executivo fala em "boom de investimentos" e o boletim privado da KPMG mostra recuo de 35%, o problema não é de método — é de credibilidade. Investidor que não confia em narrativa confia em planilha.
- A retração chega antes da definição eleitoral e se aprofunda com ela. Compradores institucionais, fundos de private equity e grupos estrangeiros tipicamente travam operações grandes em ano de eleição indefinida. A continuar o padrão histórico, o segundo semestre tende a registrar volume ainda menor, com reabertura gradual somente após a definição do quadro político e, sobretudo, fiscal.
O leitor atento notará que não há aqui uma crítica moral ao investidor que posterga — há o reconhecimento de que ele está reagindo a incentivos. A Selic é decisão do Comitê de Política Monetária, mas a Selic alta é, em larga medida, reflexo de uma política fiscal que não fecha a conta. O custo recai sobre quem produz, quem emprega e quem investe — exatamente o contingente que a atual agenda econômica deveria proteger.
Perguntas frequentes
O que é o middle market em fusões e aquisições? É a faixa de empresas com valor de transação geralmente entre R$ 50 milhões e R$ 500 milhões, onde atuam compradores estratégicos de menor porte, family offices e fundos de private equity de middle market. Costuma representar o "filé mignon" do empresariado familiar brasileiro em processo de transição.
Por que a queda foi de 35% e não maior? Porque existe uma camada de demanda estrutural — sucessão, profissionalização, necessidade de capital — que independe do ciclo. O recuo foi puxado principalmente pelas operações de maior valor, mais sensíveis ao financiamento de dívida.
O que o aumento de protocolos no Cade significa? Que mesmo em mercado mais frio, a máquina regulatória segue recebendo pedidos. Não indica necessariamente mais concorrência, e sim mais gente submetendo fusões e aquisições à análise da autarquia antes de concluí-las.
Eleições de fato travam M&A no Brasil? A experiência histórica mostra que sim, sobretudo no segundo semestre do ano eleitoral. Compradores estrangeiros e fundos institucionais costumam esperar a definição do quadro fiscal e regulatório para fechar operações grandes, o que concentra a retomada no ano seguinte ao pleito.
O que destravaria o mercado? Em primeiro lugar, queda da percepção de risco fiscal — o que passa por superávit primário crível, regra de gastos respeitada e sinalização clara sobre o tamanho do Estado. Em segundo, ambiente regulatório estável e previsível. Em terceiro, taxa de juros compatível com o custo de capital de longo prazo da indústria.
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