O mercado brasileiro de fusões e aquisições registrou 610 transações no primeiro semestre de 2026, conforme a pesquisa trimestral da KPMG. O número representa uma queda de 35% frente ao mesmo período do ano anterior e confirma o que executivos do setor já vinham relatando nas mesas de negociação: a combinação de juros elevados, incertezas sobre o comércio internacional e a proximidade do calendário eleitoral tornou o investidor mais criterioso. A retração é real, mas não traduz paralisia. Apenas redesenha quem compra, quem vende e por qual preço.
O que os números revelam — e o que escondem
Comparações brutas de volume sem considerar o cenário tendem a produzir manchetes incompletas. Uma queda de 35% em meio a uma taxa Selic em patamar restritivo não é surpresa, é consequência direta. Quando o custo de capital sobe, a equação que sustenta uma oferta de aquisição muda da noite para o dia: o múltiplo que parecia aceitável em 2024 deixa de sê-lo, o prêmio pelo risco exigido pelo vendedor aumenta, e a janela de fechamento — aquele intervalo entre sinalizar interesse e assinar contrato — se comprime.
Vale registrar o que os dados dizem em detalhe, porque o recorte importa:
- 267 operações das 610 tiveram valor divulgado — o restante opera sob cláusula de confidencialidade, prática corrente no mercado brasileiro.
- 100 operações ficaram na faixa entre R$ 51 milhões e R$ 500 milhões, equivalente a aproximadamente 37% das transações com valor conhecido.
- Trata-se da faixa conhecida como middle market — o estrato intermediário onde estão empresas familiares em processo de sucessão, negócios em fase de profissionalização e grupos que buscam escala sem o holofote das grandes operações.
O dado sugere que o motor do mercado continua funcionando nas pontas em que a decisão de vender ou comprar não depende tanto de fluxo internacional de capital, e mais de questões estruturais internas — sucessão societária, necessidade de capital de giro, expansão regional, diversificação patrimonial. Esse é um mercado menos afetado pelo humor dos grandes fundos e mais pelo relógio biológico do empresário.
Por que o mercado está seletivo — o tripé da cautela
Três vetores explicam a desaceleração, e eles se reforçam mutuamente.
1. Política monetária restritiva. Com a Selic em patamar elevado, o custo de financiar uma aquisição — seja via dívida bancária, seja via mercado de capitais — encarece. Compradores que poderiam pagar 10 vezes o EBITDA em 2022 agora só fecham a 6 ou 7 vezes. É aritmética, não ideologia.
2. Incerteza comercial internacional. Tensões geopolíticas, guerra comercial e a reorganização de cadeias produtivas alteram o preço de empresas exportadoras e daquelas expostas a insumos importados. O investidor precifica cenários; quando há muitos cenários possíveis, o preço cai.
3. Eleições. Comprador institucional não gosta de comprar logo antes de mudar de governo. É prudência — não é golpe. O histórico recente mostra que plataformas de governo diferentes alteram tributação, regulação setorial e acesso a crédito. Esperar três meses para confirmar o cenário regulatório pode economizar dezenas de milhões no preço de entrada.
"O mercado de M&A é cíclico e responde às condições de juros, crédito e confiança. Ao mesmo tempo, existe um movimento estrutural de empresários que avaliam alternativas para obter liquidez, diversificar o patrimônio ou preparar a empresa para um novo ciclo de crescimento. Como os compradores se tornaram mais rigorosos, as operações exigem análises mais profundas e maior planejamento", afirma Pedro Seidenthal, sócio da JK Capital.
O que o Cade está vendo que o investidor não viu
Um dado complementar escapa ao radar de quem lê apenas o headline da KPMG: o Radar do Cade, elaborado pela JK Capital a partir dos registros públicos da autarquia, contabilizou 486 protocolos de atos de concentração entre janeiro e julho de 2026, contra 454 no mesmo período de 2025 — um crescimento de aproximadamente 7%.
A divergência entre queda de anúncios e alta de protocolos não é paradoxo. Ela mostra duas coisas distintas:
- O anúncio é o "sim" entre as partes; o protocolo no Cade é a formalização do que chegou à mesa. Protocolos podem se transformar em operações, em desistências ou em exigência de nova apresentação — todos fazem parte do funil.
- A retração nos anúncios sugere que menos operações estão concluindo; o aumento nos protocolos sugere que o pipeline de análise está cheio.
Para o regulador antitruste, é um momento de trabalho acumulado. Para o investidor, é um indicador antecedente relevante: o estoque de operações em análise antecipa o volume que pode voltar a se anunciar quando as condições melhorarem.
O que essa fotografia diz sobre o Brasil
A leitura desapaixonada deste retrato é que o mercado de M&A funciona como um termômetro fino da economia. Ele mede três coisas em um único movimento — confiança empresarial, custo de capital e expectativa sobre regras do jogo.
Para o contribuinte e o trabalhador, há uma consequência prática que merece atenção. Fusões e aquisições são, em muitos casos, o mecanismo pelo qual empresas estagnadas passam a mãos de gestores mais competentes, em que grupos sem sucessão familiar encontram continuidade, e em que capital novo entra em setores produtivos. Quando esse mercado trava, a rotação empresarial desacelera — e com ela, parte da produtividade da economia.
O lado menos visível, e que esta análise considera positivo, é que a seletividade tende a melhorar a qualidade das operações realizadas. Comprador mais exigente, due diligence mais longa, maior atenção a cláusulas e garantias — em mercados maduros, isso é regra, não exceção. O Brasil está se aproximando desse padrão, ainda que por circunstância adversa.
A outra face é o que a desaceleração revela sobre a política econômica. Juros altos não caem do céu. Eles refletem, entre outros fatores, pressão fiscal e risco soberano. Para esta análise, o caminho de volta a um mercado de M&A vibrante passa por previsibilidade tributária, disciplina de gasto público e regras claras para investimento produtivo — não por estímulos pontuais nem por maquiagem contábil.
Por que isso importa
Para o governo: o termômetro das fusões e aquisições mostra que a política econômica vigente não está criando ambiente favorável a investimento privado. Decisões sobre gasto, tributação e regulação têm consequência mensurável no mercado de capitais.
Para o Congresso: pautas que afetam segurança jurídica — como marcos regulatórios estáveis, regras claras de sucessão empresarial e previsibilidade tributária — costumam ter retorno maior do que estímulos pontuais. É matéria-prima legislativa de longo prazo.
Para o investidor: o momento favorece disciplina de alocação e paciência. O middle market brasileiro continua ativo e representa a fatia menos especulativa do mercado — onde a análise fundamental importa mais que o múltiplo do setor.
Para o empresário em posição de vender ou comprar: é hora de preparar a casa. Profissionalização de governança, demonstrações financeiras auditadas, contratos atualizados e planejamento sucessório são variáveis que destravam negociação mesmo em ambiente adverso.
Perguntas frequentes
1. Queda de 35% no volume de M&A é motivo de alarme?
É motivo de atenção, não de alarme. Quedas expressivas em ambiente de juros altos e ano eleitoral são historicamente revertidas quando as condições se normalizam. O dado que importa é a qualidade das operações restantes.
2. O que é o middle market e por que ele segue ativo?
São empresas com valor de operação entre R$ 51 milhões e R$ 500 milhões. Esse segmento depende menos de capital estrangeiro e mais de decisões empresariais internas — sucessão, expansão, diversificação —, o que o torna mais resiliente a ciclos externos.
3. O que é o Radar do Cade e por que ele subiu enquanto o número de operações caiu?
O Radar do Cade, elaborado pela JK Capital, mede protocolos de atos de concentração na autarquia. A alta indica que há mais operações em análise do que em fase de anúncio — um pipeline acumulado que pode se traduzir em volume futuro.
4. Política monetária e eleições sempre derrubam o M&A?
Não há regra determinística, mas há padrão empírico. Juros elevam custo de capital; eleições elevam incerteza regulatória. A combinação dos dois fatores é a pior equação possível para fusões e aquisições.
5. Quando o mercado deve voltar a aquecer?
Não há data certa. A literatura do setor sugere que a inflexão costuma vir com a combinação de queda da taxa básica, definição do cenário político pós-eleição e estabilização do comércio internacional.
Dados e citações desta análise foram extraídos do portal Terra.com.br, com base na pesquisa trimestral de fusões e aquisições da KPMG e no Radar do Cade elaborado pela JK Capital.
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