A caneta do presidente do Supremo Tribunal Federal redesenhou, em um único dia, três frentes de atrito institucional: a direção da Polícia Federal, a condução do chamado Inquérito das Fake News e o alcance de investigações que miram os próprios ministros da Corte. As decisões do ministro Edson Fachin, divulgadas em setembro e repercutidas pelo portal Terra.com.br, derrubaram medida do colega André Mendonça que havia afastado o chefe da PF, Andrei Rodrigues, e o diretor de Inteligência, Leandro Almada. Pré-candidatos à Presidência se manifestaram horas depois, em tom que vai da exaltação ao elogio — e o episódio expõe o tamanho do fosso entre o STF e o eleitorado a poucos meses da votação de outubro.
O que Fachin decidiu — e por que é mais do que parece
A decisão reúne três movimentos distintos, com efeitos práticos diferentes.
- Suspensão do afastamento na PF. Mendonça havia determinado o afastamento de Rodrigues e de Almada. Fachin revogou a decisão, manteve os dois no cargo e avocou para si o controle do procedimento.
- Avocação da relatoria do Inquérito das Fake News. O inquérito, que estava sob relatoria do ministro Alexandre de Moraes, passa formalmente para as mãos do presidente do STF.
- Suspensão de "todo e qualquer procedimento" contra integrantes do STF. Trata-se da parte mais delicada: a investigação de condutas de ministros — ou que envolvam ministros — fica congelada até que o tribunal delibere sobre regras próprias.
Em conjunto, o pacote sinaliza duas coisas. A primeira é institucional: o STF, por meio de seu presidente, procura reabsorver controvérsias internas que ameaçavam virar crise aberta. A segunda é política: Fachin atua menos como juiz de um caso e mais como chefe de um poder em situação de pressão.
Os atores em conflito — quem é quem neste xadrez
Compreender a disputa exige identificar os blocos em movimento.
André Mendonça e a turma dos "indicados recentes"
André Mendonça foi indicado ao STF pelo então presidente Jair Bolsonaro e empossado em dezembro de 2021. Desde a posse, tornou-se uma das vozes mais associadas à pauta de transparência, segurança jurídica e combate à corrupção dentro do tribunal. A decisão que afastou Rodrigues e Almada partiu dele — e foi revertida por Fachin, indicando que o presidente da Corte não compactua com o uso da estrutura da PF para pressionar colegas.
Alexandre de Moraes e a condução do Inquérito das Fake News
O Inquérito 4781, aberto em 2019 por Moraes a partir do próprio tribunal, é alvo recorrente de críticas de diferentes espectros políticos. O ponto sensível é que não há autor identificado nem crime previamente delimitado: o que existe é uma apuração de ofício, conduzida por um único ministro, com poderes amplos — incluindo ordens diretas a plataformas digitais e quebras de sigilo. Críticos de centro e de direita, e mesmo vozes da academia, apontam risco de uso político da ferramenta. Defensores argumentam que ela combate desinformação e ataques ao tribunal.
Edson Fachin — o equilíbrio como estratégia
Como presidente do STF, Fachin acumula funções administrativas e processuais. Ao suspender a decisão de Mendonça e ao mesmo tempo retirar o inquérito de Moraes, ele busca recolocar a Corte numa posição de "árbitro acima da briga". A pergunta que fica é se isso resolve a tensão institucional ou apenas a empurra para dentro de um colegiado ainda mais opaco.
A Polícia Federal como prêmio
Quem controla a PF controla, na prática, o ritmo das investigações mais sensíveis do país — operações contra governadores, parlamentares, empresários e até ex-presidentes. Em ano eleitoral, com campanhas em curso e CPIs abertas, a direção-geral da polícia se torna ativo político de altíssimo valor. Foi exatamente por isso que Mendonça tentou afastar Rodrigues e Almada — e por isso Fachin devolveu os dois ao cargo.
As reações dos presidenciáveis
Segundo o portal Terra.com.br, as manifestações vieram na tarde do mesmo dia do anúncio, mostrando que o tema já entrou no centro da campanha.
Renan Santos (Missão): "show de horrores"
O pré-candidato qualificou a decisão como o coroamento de um "show de horrores" — briga de egos entre ministros, salários elevados, suspeitas de ligações com escritórios de advocacia por meio de parentes e corrupção. A crítica, típica do discurso antipolítica que ganhou tração nas últimas eleições, tenta traduzir para o eleitor um conflito técnico em linguagem moral: o Supremo como clube fechado, distante do cidadão que aguarda fila do SUS, perde o emprego e sofre assaltos.
Ronaldo Caiado (PSD): elogio com ressalvas
O governador de Goiás foi na contramão e parabenizou Fachin por tirar a relatoria de Moraes. Caiado aposta numa leitura inversa: enxerga na troca de mãos do inquérito uma correção de rumo, não uma escalada. É uma leitura defensável — desde que se aceite a premissa de que o problema era o relator, e não o próprio formato do inquérito.
Por que isso importa
O episódio não é uma novela palaciana: tem efeitos diretos sobre como o eleitor vai decidir em outubro.
- Para o STF: a Corte perde a aparência de neutralidade exatamente quando mais precisa dela. Cada decisão interna é lida como movimento político de um campo contra o outro.
- Para a PF: a direção-geral sai do episódio fragilizada — passou a ser moeda de troca entre ministros, o que afeta a percepção de autonomia técnica da polícia.
- Para o Congresso: cresce o argumento de que é preciso limitar o alcance de inquéritos abertos de ofício e o poder monocrático de ministros — tese encampada por diferentes bancadas.
- Para o eleitor: o cidadão comum se depara com mais uma rodada de uma disputa que não pediu, que não controla e da qual não vê desfecho previsível. Isso alimenta tanto a apatia quanto o voto radical.
Há também um custo de governança invisível: empresas, investidores e agentes públicos passam a conviver com maior incerteza sobre quais regras valem amanhã. Onde a segurança jurídica some, o investimento some junto.
Perguntas frequentes
O que é o Inquérito das Fake News?
É o Inquérito 4781, aberto em 2019 pelo STF, sem autor identificado, para apurar ataques à Corte e à democracia. É conduzido por um único ministro e já teve relatoria de Alexandre de Moraes, agora transferida para Edson Fachin.
Por que Fachin suspendeu o afastamento dos diretores da PF?
Porque a decisão havia sido tomada monocraticamente por André Mendonça. Como presidente do STF, Fachin tem competência para revisar atos que afetem o funcionamento de órgãos federais e para preservar a direção da polícia de mudanças unilaterais entre colegas.
A suspensão de investigações contra integrantes do STF é normal?
É controversa. Defensores argumentam que ninguém deve ser juiz em causa própria; críticos dizem que a regra abre brecha para blindar ministros de apurações legítimas — por exemplo, sobre eventuais relações com escritórios ou casos de corrupção.
O que muda para as eleições de outubro?
Muda o cenário de campanha: candidatos que se apresentam como antissistema ganham munição contra o STF, e candidatos do campo institucional são obrigados a se posicionar sobre um tribunal que eles não controlam mas não podem ignorar.
O cidadão comum tem algo a perder com isso?
Sim — e não é apenas simbólico. Quando a direção da PF e as investigações de maior repercussão viram moeda de troca entre ministros, a expectativa de que a lei será aplicada de forma uniforme se enfraquece. Isso tem efeito direto sobre segurança pública, ambiente de negócios e confiança nas instituições.
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