A crise em torno da Fifa deixou de ser apenas esportiva e passou a ser institucional. Dirigentes europeus articulam um boicote à Copa do Mundo de Clubes de 2029 caso Gianni Infantino permaneça na presidência da entidade. O gatilho é a tentativa do cartola ítalo-suíço de vender uma fatia dos direitos comerciais das competições da Fifa — incluindo a Copa do Mundo — para investidores privados, decisão conduzida sem o aval dos clubes que efetivamente sustentam o espetáculo. Segundo o portal Terra.com.br, o movimento é liderado por Aleksander Ceferin, presidente da Uefa, e por Nasser Al-Khelaifi, presidente do Paris Saint-Germain e da Associação Europeia de Clubes (EFC, na sigla em inglês).
Os atores e o que está em jogo
Para o consumidor brasileiro pode soar como mais uma disputa entre cartolas. Mas o que está em jogo é a estrutura de governança de um negócio que movimenta dezenas de bilhões de dólares por ano e do qual dependem clubes, federações, jogadores e, sim, o torcedor comum — inclusive no Brasil.
Os três pontos concretos que sustentam a ameaça de sabotagem, conforme reportagem do Terra.com.br baseada na emissora britânica talkSPORT, são:
- A próxima edição (2029) não tem sede definida nem modelo de financiamento;
- Não há acordo vigente entre Fifa e EFC que contemple a realização do torneio;
- A Fifa ainda não pagou US$ 250 milhões (R$ 1,275 bilhão) em "pagamentos solidários" aos clubes que não participaram da edição de 2025.
O último ponto é o mais revelador. A Fifa distribuiu cerca de US$ 1 bilhão (R$ 5,1 bilhão) em premiações aos participantes da primeira edição da Copa do Mundo de Clubes, realizada em 2025, e prometeu um mecanismo de equilíbrio financeiro aos excluídos. Prometeu e não cumpriu.
Por que Uefa e EFC reagem agora
Ceferin já se opôs à criação da Copa do Mundo de Clubes em 2018, quando o projeto começou a ganhar forma. A diferença é que agora a disputa saiu do campo teórico e entrou no campo dos números não pagos. Um eventual boicote depende da adesão dos mais de 850 membros da EFC — adesão que Ceferin considera viável justamente pela indefinição do torneio. Quanto mais opaco o processo, mais fácil justificar a ruptura.
Infantino, a venda de direitos e a questão da governança
O plano de vender participação nos direitos comerciais a investidores privados é a peça central da crise. Do ponto de vista liberal na economia, a entrada de capital privado em entidades esportivas não é, em si, um problema — pelo contrário, pode ser uma forma de profissionalizar a gestão, atrair competência de mercado e reduzir a dependência de hierarquias politiqueiras que há décadas corroem o futebol.
O problema, neste caso, é de outra natureza: quem decide, como decide e a quem responde. A Fifa é uma entidade privada, sem acionistas, sem voto universal dos clubes e sem mecanismo efetivo de recall do presidente. Quando um único cartola conduz um processo dessa magnitude — envolvendo a transformação da principal competição interclubes do planeta — sem o aval dos principais afetados, o que se tem é concentração de poder sem contraponto.
É um padrão que merece desconfiança legítima em qualquer espectro ideológico. De uma perspectiva cética em relação à expansão do poder de instâncias não eleitas — inclusive as do esporte —, a sequência de decisões recentes de Infantino levanta perguntas incómodas:
- Qual o retorno esperado pelos investidores privados e quem o garante?
- Os clubes europeus e brasileiros terão alguma ingerência sobre a operação?
- O que acontece com a Copa do Mundo tradicional caso os investidores exijam mais espaço no calendário?
- Haverá cláusula de transparência sobre os valores envolvidos e a distribuição de receitas?
Não há respostas públicas satisfatórias para nenhuma dessas perguntas, e é exatamente essa lacuna que dá musculatura à ameaça de boicote.
O Brasil dentro da crise
Pode parecer distante, mas o futebol brasileiro é parte interessada direta. Clubes como Botafogo, Flamengo, Palmeiras e Atlético-MG disputaram a edição inaugural de 2025 nos Estados Unidos e receberam fatia relevante da premiação de US$ 1 bilhão. Para agremiações que vivem aperto financeiro crônico, esses recursos não são acessório — são estrutura.
Há três consequências práticas para o Brasil:
- Incerteza de receita: se a edição de 2029 não acontecer ou acontecer sem a presença dos grandes clubes europeus, o torneio perde valor comercial e, com isso, perde valor de premiação para todos os participantes, inclusive os brasileiros.
- Empoderamento relativo de ligas periféricas: paradoxalmente, um eventual enfraquecimento da Fifa pode abrir espaço para que a Conmebol e os clubes sul-americanos ganhem mais voz na governança global — desde que estejam organizados para isso.
- Risco de cópia de modelo: a tentativa de monetizar direitos esportivos com capital privado pode servir de inspiração — boa ou má — para a relação entre clubes e investidores no futebol nacional, em meio às discussões sobre Sociedade Anônima do Futebol e entrada de fundos.
Por que isso importa
A Bússola Nacional cobre política brasileira, mas política não se resume a Brasília. A crise da Fifa expõe um problema recorrente da vida institucional contemporânea: entidades que detêm monopólio sobre determinado setor — seja o futebol, seja o sistema financeiro, seja a regulação de tecnologia — operam com baixa accountability, e quando tentam se modernizar via capital privado, frequentemente o fazem de forma unilateral, ignorando quem carrega o negócio no dia a dia.
O caso serve ainda como lembrete de duas lições caras ao liberalismo responsável:
- Contrato é contrato: os US$ 250 milhões não pagos aos clubes excluídos da edição de 2025 são uma obrigação assumida e não cumprida. Em qualquer economia de mercado minimamente funcional, isso seria inadmissível e geraria consequência jurídica.
- Capital privado não é remédio automático: atrair investidores pode melhorar a gestão, mas só houver governança, transparência e contratos claros. Sem isso, troca-se um problema (gestão politiqueira) por outro (gestão capturada por investidores sem freios).
Para o torcedor brasileiro, a tradução prática é simples: o que se decide nos bastidores da Fifa define quanto dinheiro entra — ou deixa de entrar — nos cofres dos clubes que ele acompanha. E quanto mais opaco o processo, pior para todos, exceto para quem está no centro dele.
Perguntas frequentes
Quem é Gianni Infantino e por que ele é tão contestado?
É o presidente da Fifa desde 2016, quando substituiu Joseph Blatter após o escândalo de corrupção que abalou a entidade. Reeleito em 2019 e em 2023, é acusado por adversários europeus de centralizar decisões e expandir o calendário de jogos sem diálogo com os clubes e federações nacionais.
O que são os "pagamentos solidários" não pagos?
São US$ 250 milhões prometidos pela Fifa aos clubes que não disputaram a Copa do Mundo de Clubes de 2025, como forma de compensar financeiramente os que ficaram de fora. Segundo o portal Terra.com.br, o compromisso não foi honrado até agora.
Um boicote europeu é viável na prática?
Depende da adesão dos mais de 850 membros da EFC, o que é politicamente difícil. Historicamente, a Uefa já ameaçou boicotes em outras ocasiais — como no episódio da Superliga de 2021 — e recuou. Mas a presente crise combina insatisfação comercial concreta com ausência de contrato firmado, o que dá mais peso à ameaça.
O que o Brasil tem a ver com isso?
Clubes brasileiros participaram da Copa do Mundo de Clubes de 2025 e dependem das premiações. A instabilidade no calendário e no formato da competição afeta diretamente o fluxo de receita dessas agremiações e, em última instância, a qualidade dos elencos que o torcedor acompanha.
Qual a relação entre esse caso e o debate sobre capital privado no esporte?
O conflito expõe o dilema central: capital privado pode profissionalizar a gestão, mas, sem governança, apenas substitui um centro de poder por outro. O caso da Fifa é um teste prático dessa equação e tem repercussão direta sobre o debate da SAF e da entrada de investidores no futebol brasileiro.
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