O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) fez nesta terça-feira (4), em sabatina conduzida por O Antagonista e G4, o que raramente se vê em uma pré-campanha presidencial: reconheceu publicamente que errou na formulação de uma proposta e a reescreveu diante dos entrevistadores. A substituição — da distribuição gratuita de milhões de celulares a mulheres e idosos por um programa de cashback operado pela Caixa Econômica Federal — não é um ajuste cosmético. Ela revela o estágio ainda prematuro do programa de governo do pré-candidato do PL à Presidência em 2026 e expõe o dilema central que a centro-direita brasileira terá no próximo ciclo: como falar de inclusão social sem reproduzir o Estado assistencialista que se propôs a combater.
O que Flávio efetivamente propôs — e o que mudou
Segundo o portal Oantagonista.com.br, em entrevista anterior o senador havia prometido entregar aparelhos celulares de graça a todas as mulheres do país. Na sabatina desta terça, ele substituiu a ideia por um modelo de devolução parcial de valores (cashback) — semelhante ao que já existe em cartões de crédito e em programas como a Nota Fiscal Paulista — acumulado em uma conta na Caixa, que, nas palavras dele, funcionaria como "Bradesco ou Itaú das favelas".
O objetivo declarado é permitir que a população de baixa renda troque o saldo acumulado por produtos, incluindo acesso à internet e dispositivos móveis. Para dar densidade ao anúncio, Flávio recorreu ao programa Wifi Brasil, da gestão Jair Bolsonaro, e afirmou que foram instalados mais de 21,3 mil pontos de internet pelo país, com prioridade em áreas escolares e indígenas.
Por que a "correção" é o fato político relevante
Do ponto de vista estritamente comunicacional, admitir o erro é uma decisão arriscada: abre flanco para a oposição e para a imprensa lembrarem a proposta original cada vez que Flávio precisar fazer outro ajuste. Mas é também uma demonstração de plasticidade — exatamente o tipo de capacidade de reação que uma campanha presidencial exige.
Do ponto de vista programático, a troca revela três coisas sobre o momento da pré-campanha do PL:
- O plano de governo ainda não está fechado. Propostas com esse grau de impacto fiscal — custo de aquisição, logística, universalização de acesso à internet — precisam ser precedidas de estimativas de despesa, fonte de financiamento e cronograma. A admissão de que ainda há tempo para "estudar" o que será incluído no plano é, por si, uma informação relevante.
- A primeira versão era indefensável. Distribuir gratuitamente milhões de celulares a todas as mulheres é uma promessa de custo bilionário, sem mecanismo de focalização claro e sem justificativa à luz de qualquer indicador de eficiência. Era inevitável que fosse revista.
- O conceito de "banco das favelas" é o nó conceitual. A ideia de usar a Caixa como uma espécie de banco social das periferias desloca o eixo da proposta do cashback em si para a expansão do banco estatal — movimento que precisa ser discutido com clareza, porque tem implicações diretas sobre concorrência com o setor privado e sobre o tamanho da máquina pública.
O que o modelo de cashback tem de melhor — e de pior
Em tese, programas de cashback são mais compatíveis com uma agenda liberal do que a transferência direta. Eles exigem alguma contrapartida de consumo, funcionam como incentivo à formalização e podem usar infraestrutura já existente — sem criar uma nova camada burocrática do zero. O Brasil já testou esse formato em escala subnacional, e a Nota Fiscal Paulista é o caso mais conhecido: resultados modestos, porém positivos na medida em que reduzem a informalidade e aumentam a arrecadação.
O problema surge quando o desenho perde a conexão com mérito e formalização e passa a operar como um voucher disfarçado. Pelo que Flávio descreveu na sabatina, a proposta tem três pontos que merecem escrutínio:
- Custo não estimado. Não foi apresentado nenhum cálculo de quanto o programa custaria ao Tesouro nem de como seria financiado — se por dotação orçamentária, se por receitas vinculadas, se por fundos já existentes.
- Quem paga a conta. Se o cashback funcionar como devolução de tributos indiretos, o financiamento será, em boa medida, de toda a sociedade — incluindo os mais pobres que não consomem o suficiente para acumular saldo relevante.
- O papel da Caixa. Usar o maior banco público do país como operador de um programa social dessa magnitude é, na prática, uma decisão de política industrial: tira espaço do sistema financeiro privado e coloca o Estado na ponta do varejo bancário. Não há, na fala de Flávio, nenhuma sinalização de que se trataria de uma expansão temporária, de um projeto-piloto ou de uma operação limitada.
O argumento mais forte a favor da proposta
Antes de descartar a ideia, é preciso reconhecer o que há de legítimo nela. A inclusão digital é, de fato, uma das deficiências mais graves do Brasil. O custo de acesso à internet de qualidade segue proibitivo para milhões de famílias, e a pandemia de covid-19 escancarou o estrago educacional provocado por essa exclusão. Um programa que reduza o custo efetivo do consumo digital para famílias de baixa renda tem, em princípio, retorno social positivo.
Além disso, programas que premiam o consumo formalizado tendem a ampliar a base tributária e a reduzir a informalidade — dois objetivos que estão no centro de qualquer agenda de centro-direita voltada para o crescimento. O formato cashback, quando bem desenhado, é preferível a um subsídio direto. E o uso de um banco público já existente pode, em tese, ser mais eficiente do que a criação de uma estrutura paralela.
Onde a proposta derrapa é na ausência de desenho, na opção por um operador estatal único e na falta de comparação honesta com alternativas privadas ou público-privadas que já existem no mercado — incluindo planos de celular sociais, programas de conectividade em escolas e bibliotecas e modelos de cashback operados por fintechs.
O que ainda precisa ser esclarecido
Para que a proposta saia do terreno do anúncio e entre no terreno da política pública viável, Flávio precisa responder a um conjunto mínimo de perguntas técnicas:
- Qual é o custo estimado anual do programa?
- Como será financiado sem comprometer o arcabouço fiscal?
- A Caixa terá papel apenas operacional ou passará a atuar como banco de varejo nas periferias?
- O cashback incidirá sobre o consumo de serviços digitais especificamente, ou sobre o consumo geral?
- Qual é a métrica de sucesso — número de pessoas conectadas, aumento de uso de serviços digitais, redução de custo médio de acesso?
Sem essas respostas, o que se tem é um slogan. E slogans não substituem programas de governo.
Por que isso importa
O episódio importa por três razões que vão além do tamanho da proposta em si. Primeiro, sinaliza o ritmo de maturação da candidatura de Flávio ao Palácio do Planalto em 2026: ele está em fase de formulação, não de execução, e a maneira como ajusta o discurso vai definir a percepção de preparo. Segundo, expõe o limite do repertório da centro-direita para falar de inclusão social — o campo gravitacional entre o liberalismo clássico, que vê com desconfiança qualquer intervenção estatal na vida econômica, e o populismo distributivista, que trata gasto público como solução default. Terceiro, abre espaço para que adversários — começando pela esquerda e pelos próprios pré-candidatos da centro-direita — qualifiquem o nível de seriedade da proposta antes que ela se consolide.
Em resumo: a "correção" de Flávio é menor do que parece em conteúdo, mas maior do que parece em simbolismo. Ela mostra um candidato que ainda procura a fórmula — e uma centro-direita que ainda procura a narrativa de inclusão que não soe como repetição do lulismo.
Perguntas frequentes
O que Flávio Bolsonaro havia proposto originalmente? Distribuir gratuitamente aparelhos celulares para mulheres e idosos em todo o país — promessa feita em entrevista anterior à sabatina desta terça-feira.
O que mudou na nova versão? O senador substituiu a entrega direta de celulares por um programa de cashback operado pela Caixa Econômica Federal, no qual os participantes acumulariam saldo a partir de compras e poderiam usá-lo para adquirir bens e serviços, incluindo acesso à internet.
Quanto custaria o programa? A proposta apresentada na sabatina não incluiu estimativa de custo nem fonte de financiamento. Sem essa informação, é impossível avaliar sua viabilidade fiscal.
O programa "Wifi Brasil" existiu mesmo? Segundo o que Flávio declarou na entrevista, o programa teria instalado mais de 21,3 mil pontos de internet pelo país durante a gestão Jair Bolsonaro. É preciso aguardar a divulgação do plano oficial para avaliar a analogia entre os dois programas.
Por que essa proposta é criticada do ponto de vista liberal? Porque transfere para a Caixa Econômica Federal o papel de operador de varejo bancário nas periferias, expandindo a presença do Estado no setor financeiro, e porque o cashback sobre consumo, sem desenho cuidadoso, pode funcionar como subsídio regressivo financiado por toda a sociedade.
Gostou desta análise? Compartilhe com quem quer entender a política brasileira além da manchete e assine a newsletter d'A Bússola Nacional.



