Friedrich Merz, chanceler federal da Alemanha há poucos meses, chega ao fim do primeiro semestre de governo com um cenário raro para um líder conservador europeu em exercício: a maioria dos próprios compatriotas já aposta que ele será substituído antes do fim do mandato previsto para 2029. Segundo pesquisa YouGov divulgada pelo portal Terra.com.br, 36% dos alemães creem em uma troca de comando antes da próxima eleição federal, e outros 18% projetam a saída ainda em 2025. Somados, esses dois grupos representam mais da metade dos entrevistados — um sinal de alerta que extrapola o humor momentâneo da opinião pública.
O número mais revelador, porém, não está na pergunta sobre a duração do mandato. Está na pergunta sobre quem deveria ocupar o cargo. Apenas 9% dos alemães consideram Merz o mais indicado para a cadeira que ele próprio ocupa. Seu colega de partido, Hendrik Wüst, ministro-presidente da Renânia do Norte-Vestfália, é apontado por 25%. Uma terça via sequer existe nas respostas — 66% disseram não saber. Em outras palavras, o chanceler perdeu a disputa simbólica de autoridade dentro do próprio campo antes mesmo de qualquer adversário externo entrar em campo.
O que as mudanças de julho produziram — e o que não produziram
Em julho, Merz promoveu uma reorganização no primeiro escalão e na estrutura da União Democrata Cristã (CDU). A leitura que o próprio governo tentou vender à imprensa foi a de um gesto de firmeza: quem dirige, dirige. A pesquisa, no entanto, mostra que a aposta não colou junto à opinião pública.
- 36% dos alemães avaliam que Merz perdeu muita autoridade dentro do partido após as mudanças;
- 31% afirmam que ele perdeu alguma autoridade;
- Somados, 67% enxergam uma erosão — e não uma recomposição — de poder interno.
Trata-se de um dado politicamente eloquente: quando o líder troca a equipe para transmitir controle e a população lê o gesto como fragilidade, a operação perde o efeito pretendido e ainda corrói o capital político que pretendia restaurar. Para um chefe de governo recém-empossado, esse é o pior desfecho possível de uma reforma ministerial — a troca que não fortalece.
Por que um conservador experiente aparece tão fragilizado
Merz não é um novato. Ex-líder da bancada CDU/CSU no Bundestag, presidente do partido desde 2022 e figura central da centro-direita alemã por décadas, ele chegou ao posto de chanceler com a bagagem de quem já disputou — e perdeu — o comando do próprio partido para Angela Merkel em 2002. A fragilidade atual, portanto, não nasce da inexperiência, mas de um cálculo político que custou caro: governar com uma coalizição exigindo disciplina onde a base pede confronto, e buscar autoridade pessoal exatamente quando o sistema institucional oferece pouca margem para exercício unilateral de poder.
É preciso registrar, em nome da honestidade intelectual, o argumento contrário na sua versão mais forte. Pesquisas de opinião não derrubam chanceleres — a dinâmica parlamentar derruba. A CDU permanece como o maior partido do bloco conservador alemão, com bancada expressiva no Bundestag, e Merz mantém o controle formal da máquina partidária. A preferência por Wüst pode ser apenas um voto de disponibilidade, não de substituição: o eleitor muitas vezes prefere quem não está no poder justamente porque a ele não atribui os custos do governo. Em sistemas proporcionais como o alemão, Chancellor não se troca por sondagem, e a história recente registra recuperações expressivas de líderes que pareciam derrotados aos olhos do eleitorado.
A resposta a esse argumento é que, em política, a percepção pública é parte do jogo. Um chanceler que não consegue mais ser visto como alternativa por 9% dos próprios concidadãos deixa de ser fiador político do partido — vira passivo. E nas disputas internas que se anunciam (escolhas de candidatos estaduais, prévias para o Parlamento Europeu, próxima corrida pela chefia do partido), um titular com 9% de aprovação pessoal entra como alvo, não como liderança.
O que está em jogo para a centro-direita europeia
A CDU não é um partido qualquer. É o pilar histórico do conservadorismo europeu continental: aquele que moldou o projeto de integração econômica europeia na ordem liberal do pós-guerra, conduziu a reunificação alemã em 1990 e serviu de referência para dezenas de partidos do mesmo campo ideológico em todo o continente. Uma crise de autoridade em Berlim é uma crise de referência em Varsóvia, Viena, Madri e Roma — e, por extensão, para todos os movimentos conservadores que se orientam pelo exemplo germânico.
Três frentes concretas merecem acompanhamento.
- Política migratória e de segurança. Merz foi eleito em 2025 com plataforma dura em imigração e segurança, áreas que polarizam a Europa e nas quais a Alemanha historicamente hesitava. Um enfraquecimento precoce do chanceler tende a paralisar decisões que dependem de capital político pesado, como repatriação de irregulares e revisão de acordos europeus de Dublin.
- Disciplina fiscal e regra do freio à dívida. A CDU é o partido da ortodoxia orçamentária alemã. Qualquer sinal de descontrole interno costuma preceder afrouxamento do regime fiscal — o que afeta diretamente o custo de financiamento da maior economia do continente e a política monetária do Banco Central Europeu.
- Relação transatlântica e defesa europeia. Em um momento de tensão com Washington e de pressão por maior gasto de defesa europeu, a Alemanha é o ator que não pode hesitar. Uma liderança alemã em decomposição interna abre espaço para França e Itália determinarem o ritmo da reação europeia — o que, para o campo conservador, significa um perigoso desvio estatista.
Por que isso importa para o leitor brasileiro
O paralelo com o Brasil não é ornamental. A centro-direita brasileira, quando observa o que acontece na CDU, está olhando para o próprio espelho futuro — ou para o manual de erros a evitar. Três lições saltam da leitura fria do cenário alemão.
Primeiro: vitória eleitoral não é governo. Merz ganhou a eleição federal, mas não consolidou maioria parlamentar nem narrativa de estabilidade. A fase entre posse e consolidação é a mais perigosa de qualquer mandato, e é nela que se ganha ou se perde o resto do governo.
Segundo: reforma ministerial só funciona como sinal de força quando há força por trás. Trocar equipe para recompor autoridade sem lastro político suficiente transforma o gesto em confissão. Para uma coalizão de centro-direita no Brasil, o alerta é direto: mudanças de ministérios precisam vir acompanhadas de agenda clara e maioria parlamentar — não de improviso reativo.
Terceiro: a opinião pública é precursora, não consequente, de crises internas. A leitura mais defensável do dado da YouGov é que Merz já chegou ao limite do que pode entregar com o arranjo atual. Em partidos disciplinados, esse é o ponto em que a pressão para troca começa — não quando cai o último ponto de aprovação, mas quando ela se estabiliza em patamares incompatíveis com a função.
Perguntas frequentes
Friedrich Merz foi eleito chanceler em 2025?
Sim. Merz assumiu a chefia do governo federal alemão após a vitória da CDU/CSU nas eleições federais de fevereiro de 2025, em coalizão parlamentar que lhe deu a maioria no Bundestag necessária para a eleição no Parlamento.
Hendrik Wüst é o principal rival interno de Merz na CDU?
A pesquisa YouGov indica que, entre os alemães consultados, Wüst é visto como alternativa mais adequada que o próprio Merz. Politicamente, Wüst comanda o estado mais populoso da Alemanha (Renânia do Norte-Vestfália) e é figura de peso dentro da CDU, o que lhe dá plataforma natural para uma disputa interna.
A pesquisa YouGov tem peso institucional na Alemanha?
YouGov é um dos institutos de pesquisa britânicos com operação global e frequente presença na cobertura política alemã. Seus levantamentos não têm valor eleitoral direto, mas são lidos pela imprensa e pelos partidos como termômetro de tendência — exatamente o tipo de dado que antecipa movimentos internos antes que se tornem visíveis nas urnas.
Uma queda de Merz afetaria a política brasileira?
Direta e imediatamente, não. Indiretamente, sim: a Alemanha é a maior economia da Europa e parceia comercial relevante do Brasil; uma mudança de liderança em Berlim costuma reposicionar o eixo europeu em temas como acordo Mercosul-União Europeia, financiamento climático e cooperação industrial, áreas com impacto direto em decisões que afetam empresas e exportadores brasileiros.
O que pode tirar Merz do cargo antes de 2029?
No sistema parlamentar alemão, o caminho é a perda de maioria no Bundestag — por quebra de coalizão ou derrota em votação de confiança. Alternativamente, uma renúncia do próprio chanceler ou uma decisão interna da CDU de substituí-lo antes do fim do mandato, o que no arranjo atual exige negociação com o parceiro de coalizão.
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