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Merz perde autoridade na CDU e arrisca mandato até 2029

A fragilidade política de Friedrich Merz como chanceler da Alemanha e o que a erosão de autoridade dentro da CDU antecipa para a centro-direita europeia.

Por Marina Cordovil · · 7 min de leitura

Merz perde autoridade na CDU e arrisca mandato até 2029
Merz perde autoridade na CDU e arrisca mandato até 2029

Friedrich Merz, chanceler federal da Alemanha há poucos meses, chega ao fim do primeiro semestre de governo com um cenário raro para um líder conservador europeu em exercício: a maioria dos próprios compatriotas já aposta que ele será substituído antes do fim do mandato previsto para 2029. Segundo pesquisa YouGov divulgada pelo portal Terra.com.br, 36% dos alemães creem em uma troca de comando antes da próxima eleição federal, e outros 18% projetam a saída ainda em 2025. Somados, esses dois grupos representam mais da metade dos entrevistados — um sinal de alerta que extrapola o humor momentâneo da opinião pública.

O número mais revelador, porém, não está na pergunta sobre a duração do mandato. Está na pergunta sobre quem deveria ocupar o cargo. Apenas 9% dos alemães consideram Merz o mais indicado para a cadeira que ele próprio ocupa. Seu colega de partido, Hendrik Wüst, ministro-presidente da Renânia do Norte-Vestfália, é apontado por 25%. Uma terça via sequer existe nas respostas — 66% disseram não saber. Em outras palavras, o chanceler perdeu a disputa simbólica de autoridade dentro do próprio campo antes mesmo de qualquer adversário externo entrar em campo.

O que as mudanças de julho produziram — e o que não produziram

Em julho, Merz promoveu uma reorganização no primeiro escalão e na estrutura da União Democrata Cristã (CDU). A leitura que o próprio governo tentou vender à imprensa foi a de um gesto de firmeza: quem dirige, dirige. A pesquisa, no entanto, mostra que a aposta não colou junto à opinião pública.

  • 36% dos alemães avaliam que Merz perdeu muita autoridade dentro do partido após as mudanças;
  • 31% afirmam que ele perdeu alguma autoridade;
  • Somados, 67% enxergam uma erosão — e não uma recomposição — de poder interno.

Trata-se de um dado politicamente eloquente: quando o líder troca a equipe para transmitir controle e a população lê o gesto como fragilidade, a operação perde o efeito pretendido e ainda corrói o capital político que pretendia restaurar. Para um chefe de governo recém-empossado, esse é o pior desfecho possível de uma reforma ministerial — a troca que não fortalece.

Por que um conservador experiente aparece tão fragilizado

Merz não é um novato. Ex-líder da bancada CDU/CSU no Bundestag, presidente do partido desde 2022 e figura central da centro-direita alemã por décadas, ele chegou ao posto de chanceler com a bagagem de quem já disputou — e perdeu — o comando do próprio partido para Angela Merkel em 2002. A fragilidade atual, portanto, não nasce da inexperiência, mas de um cálculo político que custou caro: governar com uma coalizição exigindo disciplina onde a base pede confronto, e buscar autoridade pessoal exatamente quando o sistema institucional oferece pouca margem para exercício unilateral de poder.

É preciso registrar, em nome da honestidade intelectual, o argumento contrário na sua versão mais forte. Pesquisas de opinião não derrubam chanceleres — a dinâmica parlamentar derruba. A CDU permanece como o maior partido do bloco conservador alemão, com bancada expressiva no Bundestag, e Merz mantém o controle formal da máquina partidária. A preferência por Wüst pode ser apenas um voto de disponibilidade, não de substituição: o eleitor muitas vezes prefere quem não está no poder justamente porque a ele não atribui os custos do governo. Em sistemas proporcionais como o alemão, Chancellor não se troca por sondagem, e a história recente registra recuperações expressivas de líderes que pareciam derrotados aos olhos do eleitorado.

A resposta a esse argumento é que, em política, a percepção pública é parte do jogo. Um chanceler que não consegue mais ser visto como alternativa por 9% dos próprios concidadãos deixa de ser fiador político do partido — vira passivo. E nas disputas internas que se anunciam (escolhas de candidatos estaduais, prévias para o Parlamento Europeu, próxima corrida pela chefia do partido), um titular com 9% de aprovação pessoal entra como alvo, não como liderança.

O que está em jogo para a centro-direita europeia

A CDU não é um partido qualquer. É o pilar histórico do conservadorismo europeu continental: aquele que moldou o projeto de integração econômica europeia na ordem liberal do pós-guerra, conduziu a reunificação alemã em 1990 e serviu de referência para dezenas de partidos do mesmo campo ideológico em todo o continente. Uma crise de autoridade em Berlim é uma crise de referência em Varsóvia, Viena, Madri e Roma — e, por extensão, para todos os movimentos conservadores que se orientam pelo exemplo germânico.

Três frentes concretas merecem acompanhamento.

  1. Política migratória e de segurança. Merz foi eleito em 2025 com plataforma dura em imigração e segurança, áreas que polarizam a Europa e nas quais a Alemanha historicamente hesitava. Um enfraquecimento precoce do chanceler tende a paralisar decisões que dependem de capital político pesado, como repatriação de irregulares e revisão de acordos europeus de Dublin.
  2. Disciplina fiscal e regra do freio à dívida. A CDU é o partido da ortodoxia orçamentária alemã. Qualquer sinal de descontrole interno costuma preceder afrouxamento do regime fiscal — o que afeta diretamente o custo de financiamento da maior economia do continente e a política monetária do Banco Central Europeu.
  3. Relação transatlântica e defesa europeia. Em um momento de tensão com Washington e de pressão por maior gasto de defesa europeu, a Alemanha é o ator que não pode hesitar. Uma liderança alemã em decomposição interna abre espaço para França e Itália determinarem o ritmo da reação europeia — o que, para o campo conservador, significa um perigoso desvio estatista.

Por que isso importa para o leitor brasileiro

O paralelo com o Brasil não é ornamental. A centro-direita brasileira, quando observa o que acontece na CDU, está olhando para o próprio espelho futuro — ou para o manual de erros a evitar. Três lições saltam da leitura fria do cenário alemão.

Primeiro: vitória eleitoral não é governo. Merz ganhou a eleição federal, mas não consolidou maioria parlamentar nem narrativa de estabilidade. A fase entre posse e consolidação é a mais perigosa de qualquer mandato, e é nela que se ganha ou se perde o resto do governo.

Segundo: reforma ministerial só funciona como sinal de força quando há força por trás. Trocar equipe para recompor autoridade sem lastro político suficiente transforma o gesto em confissão. Para uma coalizão de centro-direita no Brasil, o alerta é direto: mudanças de ministérios precisam vir acompanhadas de agenda clara e maioria parlamentar — não de improviso reativo.

Terceiro: a opinião pública é precursora, não consequente, de crises internas. A leitura mais defensável do dado da YouGov é que Merz já chegou ao limite do que pode entregar com o arranjo atual. Em partidos disciplinados, esse é o ponto em que a pressão para troca começa — não quando cai o último ponto de aprovação, mas quando ela se estabiliza em patamares incompatíveis com a função.

Perguntas frequentes

Friedrich Merz foi eleito chanceler em 2025?
Sim. Merz assumiu a chefia do governo federal alemão após a vitória da CDU/CSU nas eleições federais de fevereiro de 2025, em coalizão parlamentar que lhe deu a maioria no Bundestag necessária para a eleição no Parlamento.

Hendrik Wüst é o principal rival interno de Merz na CDU?
A pesquisa YouGov indica que, entre os alemães consultados, Wüst é visto como alternativa mais adequada que o próprio Merz. Politicamente, Wüst comanda o estado mais populoso da Alemanha (Renânia do Norte-Vestfália) e é figura de peso dentro da CDU, o que lhe dá plataforma natural para uma disputa interna.

A pesquisa YouGov tem peso institucional na Alemanha?
YouGov é um dos institutos de pesquisa britânicos com operação global e frequente presença na cobertura política alemã. Seus levantamentos não têm valor eleitoral direto, mas são lidos pela imprensa e pelos partidos como termômetro de tendência — exatamente o tipo de dado que antecipa movimentos internos antes que se tornem visíveis nas urnas.

Uma queda de Merz afetaria a política brasileira?
Direta e imediatamente, não. Indiretamente, sim: a Alemanha é a maior economia da Europa e parceia comercial relevante do Brasil; uma mudança de liderança em Berlim costuma reposicionar o eixo europeu em temas como acordo Mercosul-União Europeia, financiamento climático e cooperação industrial, áreas com impacto direto em decisões que afetam empresas e exportadores brasileiros.

O que pode tirar Merz do cargo antes de 2029?
No sistema parlamentar alemão, o caminho é a perda de maioria no Bundestag — por quebra de coalizão ou derrota em votação de confiança. Alternativamente, uma renúncia do próprio chanceler ou uma decisão interna da CDU de substituí-lo antes do fim do mandato, o que no arranjo atual exige negociação com o parceiro de coalizão.

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