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Equatorial assume topo do setor elétrico com gestão privada

Equatorial chega ao topo do setor elétrico em 2025 e comprova que distribuidoras deterioradas podem ser recuperadas sob gestão privada e regulação firme.

Por Marina Cordovil · · 7 min de leitura

Equatorial assume topo do setor elétrico com gestão privada
Equatorial assume topo do setor elétrico com gestão privada

Equatorial chega ao topo do setor elétrico: o que a ascensão de uma concessionária privada diz sobre o modelo de gestão de serviços públicos no Brasil

A Equatorial Energia atingiu, em 2025, o primeiro lugar do ranking TOP30 do setor elétrico brasileiro, ultrapassando concorrentes que historicamente dominaram o ranking pela escala herdada do Estado. Não é um movimento de fusão ou ganho regulatório: é resultado de um modelo de negócio pouco comum no país — comprar distribuidoras deterioradas, capitalizá-las e reduzir perdas. Segundo o portal Abril.com.br, a empresa atende hoje 13% dos consumidores brasileiros em área equivalente a 31% do território nacional, após incorporar operações no Maranhão, Pará, Goiás, Amapá e Rio Grande do Sul.

O modelo em uma frase: comprar o que o Estado não soube operar

A trajetória da Equatorial começa em 2004, com a aquisição da Cemar, no Maranhão — estatal que refletia um padrão conhecido: distribuidoras-regionais entregues a governos estaduais sem capital, sem gestão técnica e com indicadores operacionais entre os piores do país. O grupo aplicou desde então uma fórmula descrita pelo próprio CEO, Augusto Miranda: "ver valor onde outros não viram". A tradução prática é simples: comprar ativos depreciados, recompor a base de capital, combater perdas técnicas e comerciais e reconstruir a receita.

O caso mais emblemático é o do Pará. Quando a concessionária foi privatizada, em 2012, mais de 40% da energia que entrava na rede se perdia antes de chegar ao consumidor — combinação de furtos, fraudes ("gatos") e infraestrutura obsoleta. Em 2025, o índice de perdas havia caído para 28%, e a duração das interrupções diminuiu. Não é o número ideal — bons distribuidores no Brasil operam abaixo de 10% — mas a trajetória é o que importa para o investidor e, sobretudo, para o consumidor.

O que está em jogo: o debate sobre serviços públicos sob gestão privada

O setor elétrico brasileiro é uma das poucas áreas em que convivem, lado a lado, modelos muito distintos de propriedade e gestão. De um lado, distribuidoras privadas — algumas herdeiras da privatização dos anos 1990, outras adquiridas em processos mais recentes. De outro, distribuidoras ainda controladas por estados, frequentemente deficitárias, com perdas elevadas e tarifas subsidiadas de forma pouco transparente.

A Eletrobras, privatizada em 2022, é o caso mais visível da transição do modelo estatizante para o de capital privado competitivo. Mas nas distribuidoras estaduais — especialmente nas regiões Norte e Nordeste —, a presença do capital privado é frequentemente contestada por partidos e governadores que tratam a energia como instrumento político, com tarifas subsidiadas e nomeações para cargos de direção. A Equatorial opera, com frequência, nesse ambiente hostil à lógica comercial.

É por isso que o resultado da empresa importa além do desempenho corporativo. Quando uma concessionária privada reduz perdas, moderniza redes e entrega indicadores melhores, ela oferece um argumento empírico a favor da gestão privada sob regulação — e contra a tese de que serviços essenciais funcionam melhor sob controle estatal direto.

O analista e a fórmula: técnica, oportunidade e execução

A análise de Vitor Sousa, da Genial Investimentos, capturou em três palavras o diferencial da empresa: "boa técnica, oportunidade e execução". A primeira é engenharia e regulação — entender o sistema tarifário, os indicadores da ANEEL e onde estão os gargalos. A segunda é financeira — comprar ativos com desconto porque ninguém mais quis assumir o risco político e operacional de melhorá-los. A terceira é disciplina de execução — manter custos sob controle enquanto se faz o investimento necessário.

Os números de 2026 confirmam a tese. No primeiro trimestre, a receita líquida consolidada atingiu R$ 12,8 bilhões (alta de 12%), com Ebitda de cerca de R$ 3 bilhões (+11%). O segmento de distribuição gerou R$ 9,2 bilhões no período — alta de 12% sobre o ano anterior. Em 2025, os aportes nas distribuidoras somaram cerca de R$ 8 bilhões, com o Pará recebendo R$ 3,5 bilhões (33% acima do ano anterior).

O teste que vem pela frente

O crescimento, porém, cria o seu próprio risco. A empresa passou de uma operação regional a um portfólio distribuído por cinco estados, cada um com ambiente regulatório, perfil de inadimplência e cultura institucional próprios. Integrar operações sem diluir a eficiência que sustentou os resultados é a próxima prova de fogo. A própria companhia sinalizou o ponto em comunicado: foram R$ 10 bilhões investidos em 2025, com previsão de novos aportes em distribuição e transmissão.

Há também uma dimensão regulatória. A Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) define a tarifa, audita indicadores e pode abrir processos administrativos para punir descumprimento de metas. Quanto maior a empresa, maior o escrutínio — e maior o risco de que decisões regulatórias adversas comprimam a rentabilidade. O modelo da Equatorial sobreviveu em ciclos tarifários anteriores; o teste agora é se sobrevive em um portfólio nacional.

O que o governo e o Congresso podem aprender com isso

Para o debate público, a ascensão da Equatorial recoloca uma questão que o país evita há décadas: o que fazer com as distribuidoras estaduais que continuam deficitárias. Em vários estados, tarifas artificialmente baixas financiam perdas operacionais — o ônus recai sobre toda a cadeia via encargos setoriais, encarecendo o custo Brasil. A experiência da Equatorial sugere que existe alternativa: capital privado, regulação firme e metas claras.

Para o Congresso, o dado também é relevante no debate sobre o novo marco regulatório do setor elétrico, em discussão há anos. A experiência concreta de uma empresa que compra ativos deteriorados e os entrega indicadores melhores funciona como prova de conceito de que a regulação por incentivos — e não a propriedade estatal — é o caminho para melhorar serviços.

Por que isso importa

  • Para o consumidor: a redução de perdas e de interrupções se traduz, em tese, em tarifas mais estáveis e em menos tempo sem luz. A relação não é automática — tarifas são definidas pela ANEEL —, mas a tendência é positiva quando a empresa opera com eficiência.
  • Para o investidor: o modelo Equatorial funciona como referência para outros grupos do setor, e como sinal de que ativos "problemáticos" podem gerar valor sob gestão competente — desde que o regulador não capture o prêmio de eficiência via revisão tarifária.
  • Para o debate político: é mais um capítulo da discussão sobre qual deve ser o papel do Estado na prestação de serviços essenciais. Os dados não provam que toda estatal é ineficiente, mas mostram consistentemente que gestão privada sob regulação produz resultados mensuráveis.
  • Para a segurança jurídica: a continuidade do modelo depende de regras estáveis. Mudanças abruptas no marco regulatório ou ingerência política sobre contratos de concessão podem inviabilizar justamente o tipo de capital de longo prazo que a Equatorial mobiliza.

Perguntas frequentes

1. A Equatorial é uma empresa estatal?

Não. É uma sociedade de capital aberto, com controle privado, listada na B3. Atua sob contrato de concessão regulado pela ANEEL.

2. O que significam "perdas de energia" no setor elétrico?

São a energia que entra na rede de distribuição mas não é faturada — seja por furto e fraude ("gatos"), seja por ineficiência técnica da rede. No Brasil, distribuidoras bem operadas têm perdas abaixo de 10%; índices acima de 20% indicam problemas graves de gestão e infraestrutura.

3. Por que o caso do Pará é citado como exemplo?

Porque, segundo o portal Abril.com.br, as perdas caíram de mais de 40% para 28% em pouco mais de uma década, após investimentos bilionários em modernização de rede e combate a ligações irregulares. É o maior projeto de turnaround do grupo.

4. A redução de perdas barateia a tarifa?

Em tese, sim: distribuidoras eficientes precisam comprar menos energia para entregar a mesma quantidade ao consumidor final. Na prática, o efeito depende de como a ANEEL reconhece essa eficiência nas revisões tarifárias.

5. O modelo da Equatorial pode ser replicado por concorrentes?

Em princípio, sim — desde que haja capital disponível, competência técnica e ambiente regulatório que recompense a eficiência. O diferencial da empresa tem sido executar simultaneamente as três condições, o que é raro no setor.

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