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Indústria química: Dow defende política industrial duradoura

Política industrial: Dow defende competitividade duradoura, mas tarifas não substituem energia barata; escolhas afetam empresas, consumidores e contribuinte.

Por Marina Cordovil · · 7 min de leitura

Indústria química: Dow defende política industrial duradoura
Indústria química: Dow defende política industrial duradoura

A Dow defende uma política industrial de longo prazo para enfrentar custos altos e a concorrência de importados — e reconhece avanços do atual governo no diálogo com o setor e em iniciativas para baratear o gás. O debate importa porque envolve escolhas do Executivo sobre energia, comércio e apoio à indústria, com efeitos sobre empresas, consumidores e, dependendo dos instrumentos adotados, o contribuinte.

Segundo o portal Terra.com.br, Mariana Orsini, líder da multinacional química no Brasil, afirma que tarifas podem responder a crises agudas, mas não substituem condições permanentes de competitividade. A avaliação expõe uma tensão conhecida: como preservar capacidade produtiva nacional sem transformar proteção em custo duradouro para quem compra e para quem paga a conta pública.

O problema não se resume à concorrência externa

O diagnóstico apresentado por Orsini começa pelos custos de produção. Na indústria química, segundo ela, energia representa 70% dos custos de uma operação, e gás e energia são fatores decisivos para competir. A executiva compara o barateamento do gás nos Estados Unidos após a expansão do shale gas com os custos enfrentados no Brasil.

Ela também aponta um déficit superior a US$ 50 bilhões na indústria química brasileira no ano passado e atribui parte relevante desse resultado às importações chinesas. O dado, conforme relatado na entrevista, indica uma diferença de competitividade; por si só, porém, não demonstra que tarifas ou subsídios sejam a melhor resposta. Para isso, seria necessário avaliar as causas, os custos e os resultados de cada medida.

A própria escala do setor dá peso ao debate: Orsini afirma que o Brasil tem a sexta maior indústria química do mundo, com produção diversificada. Uma política que afete esse ramo pode repercutir em várias cadeias produtivas. Mas tamanho e relevância econômica não dispensam a pergunta central: que condições permitiriam produzir mais de forma eficiente, sem transferir custos aos consumidores ou ao erário?

O que o governo fez — e o que ainda não está demonstrado

Orsini reconhece avanços do governo atual no diálogo com a indústria e em iniciativas voltadas a reduzir o custo do gás. É um reconhecimento relevante, inclusive porque contraria a ideia de que a interlocução entre governo e empresas teria sido inteiramente improdutiva. A entrevista, contudo, não detalha quais iniciativas foram adotadas, quanto custaram nem quanto reduziram os preços para os produtores.

Essa lacuna importa. Diálogo é um meio, não um resultado. Para avaliar uma política, é preciso saber se houve melhora mensurável no acesso à energia e se ela se sustentou sem criar obrigações fiscais excessivas, favorecimentos ou distorções de mercado. O texto não oferece esses dados; portanto, não permite concluir que os avanços mencionados já tenham resolvido o problema de competitividade.

Também não há, na entrevista, indicação de uma proposta legislativa específica ou de uma nova decisão do Congresso. O tema está sobretudo no campo da política econômica e industrial conduzida pelo Executivo, embora medidas que envolvam leis, orçamento, tributos ou regras comerciais possam passar pelo Legislativo. Sem uma iniciativa concreta descrita, atribuir ao Congresso um papel imediato seria ir além das informações disponíveis.

Política industrial não é sinônimo de proteção permanente

O argumento mais forte a favor de uma política industrial é que determinados obstáculos não se resolvem apenas com a decisão individual de cada empresa. Infraestrutura, energia, financiamento e regras previsíveis podem afetar a capacidade de investimento de cadeias inteiras. Quando há uma desvantagem de custo persistente, pode ser legítimo discutir se o poder público consegue removê-la de modo eficiente.

Mas reconhecer o problema não prova que qualquer intervenção funcione. Tarifas podem aliviar a pressão de importações em situações específicas, como a medida antidumping mencionada na entrevista para poliuretanos. A executiva relata que produtos chegavam ao país a preços equivalentes a 70% do custo de produção local. A defesa comercial pode, nesse cenário, responder a uma concorrência que a empresa considera inviável — mas não substitui energia competitiva, produtividade ou investimento.

Há ainda um risco que uma análise liberal não pode ignorar: uma proteção que reduz a pressão competitiva pode encarecer insumos para outras empresas e produtos para consumidores, além de se prolongar sem contrapartida clara. Se o Estado apoiar um setor, o critério deveria ser transparente: prazo, custo, objetivo verificável e avaliação dos efeitos. Sem isso, a política corre o risco de proteger produtores específicos, não a capacidade produtiva do país.

O episódio do poliuretano mostra a diferença entre alívio e vantagem estrutural

O caso relatado pela Dow ilustra como o cenário internacional pode alterar a disputa. Segundo Orsini, o propeno, matéria-prima ligada à cadeia do petróleo, ficou mais caro para produtores chineses em razão de um conflito. A empresa afirma que voltou a conversar com clientes que haviam optado por produtos importados e que eles passaram a valorizar a produção local.

Isso é um sinal de que a origem e a segurança do fornecimento podem pesar nas decisões comerciais, além do preço imediato. Mas a mudança descrita ocorreu em meio a uma alteração de custos externos. Não prova, por si só, que a produção brasileira tenha superado sua desvantagem estrutural. Se os preços internacionais mudarem novamente, a preferência dos compradores também pode mudar.

O caso recomenda cautela tanto com a defesa automática de importações baratas quanto com a promessa de que proteção comercial reconstruirá a indústria. O objetivo deveria ser ampliar a capacidade de competir mesmo quando as condições externas deixam de favorecer o produtor local.

Por que isso importa

O debate coloca o governo diante de uma escolha prática: concentrar esforços em reduzir entraves gerais — como custos de energia e incerteza regulatória — ou ampliar intervenções que favoreçam setores e produtos específicos. A primeira abordagem tende a beneficiar um conjunto maior de empresas, embora também exija decisões e recursos bem administrados. A segunda pode ser justificável em casos delimitados, mas precisa demonstrar que o benefício supera o custo imposto aos demais.

Para o contribuinte, a pergunta é se as iniciativas para reduzir custos dependem de subsídios, renúncias ou despesas públicas e, se dependerem, qual retorno justificaria esse gasto. A fonte não informa os instrumentos nem seus custos, então não é possível afirmar que esse seja o caso das medidas citadas. É justamente por isso que transparência e avaliação de resultados devem acompanhar qualquer política industrial.

Para o consumidor e para as empresas que usam produtos químicos como insumos, a consequência também é concreta: uma política que sustente produção doméstica pode fortalecer fornecedores locais, mas uma barreira que encareça produtos pode elevar custos ao longo da cadeia. O balanço depende do desenho e dos resultados, não apenas da intenção de proteger empregos ou produção.

A posição da Dow merece ser ouvida, mas deve ser lida considerando que a empresa atua no setor sobre o qual fala e tem interesse comercial legítimo nas condições de concorrência e de custo. Isso não invalida seus argumentos; torna ainda mais importante confrontá-los com indicadores independentes de preços, investimento, produtividade e impacto fiscal.

Perguntas frequentes

O governo atual foi criticado pela Dow?

Não apenas. Mariana Orsini reconheceu avanços no diálogo com o setor e em iniciativas para reduzir o custo do gás, mas disse que ainda é necessário avançar. A entrevista não detalha o alcance nem os resultados dessas iniciativas.

Por que o gás e a energia são centrais para a indústria química?

Segundo Orsini, energia representa 70% dos custos de uma operação química, e o gás é uma matéria-prima relevante. Custos altos podem reduzir a competitividade diante de produtores que têm insumos mais baratos.

A medida antidumping resolveu o problema dos poliuretanos?

A entrevista informa que houve uma medida antidumping no ano passado e relata uma retomada de conversas com clientes após mudanças nos custos dos produtores chineses. Não apresenta dados suficientes para afirmar que o problema foi resolvido de forma duradoura.

Política industrial significa necessariamente tarifas ou subsídios?

Não. Pode envolver medidas distintas, mas cada instrumento precisa ser avaliado por seu custo e resultado. A entrevista não identifica um pacote específico de políticas nem detalha seus instrumentos.

O déficit citado prova que o Brasil deve proteger a indústria?

Não sozinho. O déficit superior a US$ 50 bilhões, atribuído por Orsini à indústria química no ano passado, é um sinal relevante, mas não determina qual política será eficaz. É preciso identificar causas e comparar benefícios com custos para empresas, consumidores e contribuinte.

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