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Israel recua sobre desarmamento do Hezbollah em Roma

Israel recua no desarmamento do Hezbollah em Roma; mediação americana prevalece e o alinhamento crítico do Itamaraty sob Lula esgota o Brasil como mediador.

Por Heitor Vasconcelos · · 6 min de leitura

Israel recua sobre desarmamento do Hezbollah em Roma
Israel recua sobre desarmamento do Hezbollah em Roma

O ponto que não pode sair da mesa

As negociações entre Israel e Líbano avançaram em Roma esta semana com um detalhe que, do ponto de vista desta análise, é o único que importa: pela primeira vez, a delegação israelense recuou da exigência de que o desarmamento do Hezbollah ficasse definido antes de qualquer outro ponto da conversa, segundo fontes ouvidas pela imprensa italiana e reproduzidas pelo portal Terra.com.br.

A leitura fria do movimento é a seguinte. Israel trocou uma posição maximalista por uma posição realista — o que abre caminho para um acordo negociado em três eixos (político, militar e fronteiriço), mas também adia sine die a única pergunta que define se toda essa engenharia servirá para alguma coisa: o Hezbollah entrega ou não entrega as armas.

Esse é o teste. Tudo o mais — zonas-piloto, transição gradual para o Exército libanês, cronograma de retirada israelense — é logística. Logística sem desarmamento é só um intervalo entre guerras.

Como funciona (e como não funciona) o cessar-fogo

O acordo de cessar-fogo está em vigor desde 27 de junho de 2025. Foi festejado como o fim da guerra aberta que começou em outubro de 2023 entre Israel e o Hezbollah, com os danos humanos e materiais já conhecidos. Desde então, o acordo vem sendo violado pelos dois lados — Israel com ofensivas pontuais no sul do Líbano (como a desta semana, que obrigou a evacuação de moradores de Mansouri), o Hezbollah com tentativas de recomposição no terreno.

Negociação diplomática sobre um acordo violado costuma produzir dois resultados típicos: ou restabelece a confiança mútua e o acordo passa a funcionar; ou vira câmara de compensação para uma nova rodada de conflito. O formato atual se enquadra no segundo, e por isso mesmo não pode ser confundido com paz.

Roma, mas na embaixada americana — leia com atenção

As primeiras cinco rodadas aconteceram nos Estados Unidos. Esta é a segunda vez que as conversas se realizam na Itália. Detalhe institucional relevante: as reuniões acontecem dentro da Embaixada dos Estados Unidos em Roma, não num prédio italiano ou da ONU. Washington continua sendo o mediador.

O que isso diz, sem precisar de teoria da conspiração:

  • Quem entrega garantias de segurança nessa região ainda é Washington, não a França, não a ONU, não a União Europeia.
  • Os demais atores — Itália incluída — entram como anfitriões logísticos, não como decisores.
  • A mediação é conduzida por uma potência que trata o Hezbollah como organização terroristaDesignada como tal pelos EUA, Reino Unido, Alemanha e parte da UE; o Brasil, sob o governo Lula, não inclui o Hezbollah em sua lista nacional de organizações terroristas., não como parceiro político.

Para quem acompanha política externa brasileira, a fotografia é instrutiva. O Brasil gosta de se projetar como mediador de conflitos internacionais — e de fato tem tradição nisso, do papel no acordo nuclear com o Irã em 2015 (governo Dilma) à presença na MINUSTAH no Haiti. Mas mediação real exige credibilidade com todos os lados da mesa. Quando o país se alinha previamente com uma das partes, abre mão dessa prerrogativa.

O Brasil nessa história — e o que está em jogo

Há cerca de 10 milhões de brasileiros com ascendência libanesa — a maior diáspora libanesa do mundo. Para esse contingente, o que acontece no sul do Líbano não é política externa abstrata: toca identidade, família, patrimônio e, em alguns casos, luto concreto. Merece uma posição diplomática séria, não instrumentalização ideológica.

É justamente aí que a política externa do governo Lula tem cobrado um preço. Em 2024, o Brasil retirou seu embaixador de Israel após declarações do então chanceler Mauro Vieira e adotou uma linha pública que, na prática, equiparava a resposta militar israelense ao ataque iniciado pelo Hamas em 7 de outubro. Esse posicionamento teve custo diplomático mensurável: redução de interlocução com Israel, desconforto com potências europeias, e nenhum benefício prático trazido ao Líbano, aos libaneses ou à diáspora.

Reconheça-se, em favor do argumento contrário, que parte da esquerda diplomaticamente ativa no Brasil defende exatamente o oposto: que o alinhamento crítico a Israel aumenta a influência do país no Sul Global e abre portas em fóruns multilaterais. É uma posição coerente. Só que os resultados não confirmam a tese — e é sobre resultados, não sobre intenções, que política externa precisa ser avaliada.

Por que isso importa

Três consequências concretas para o leitor brasileiro, mesmo que o noticiário pareça distante.

1. O precedente internacional pesa. Cada rodada de negociação em que o desarmamento do Hezbollah fica em segundo plano gera um efeito demonstração para outras milícias e movimentos armados na região — e não só no Oriente Médio. O princípio que se consagra nesse caso (negociar com organização armada sem exigir entrega das armas como pré-condição) tende a ser invocado por outros atores, em outras mesas.

2. A credibilidade brasileira como mediador se esgota. Ao se posicionar de um lado antes da negociação começar, o Itamaraty sob Lula reduz sua utilidade como mediador futuro. Isso não é abstrato: é capacidade diplomática concreta que se perde e leva décadas para reconstruir.

3. O custo para a diáspora é duplo. Brasileiros de origem libanesa pagam duas vezes: pela instabilidade real do Líbano, que atinge seus familiares, e pela politização interna do tema, que frequentemente sequestra a pauta humanitária em nome de batalha ideológica no Brasil.

Perguntas frequentes

O cessar-fogo entre Israel e Hezbollah está funcionando?

Não. Está em vigor desde 27 de junho, mas é violado pelos dois lados — Israel com ofensivas pontuais no sul do Líbano, e o Hezbollah com tentativas de recomposição no terreno, segundo o relato do Terra.com.br.

O Hezbollah vai ser desarmado?

É o ponto central e o principal impasse. Israel considera o desarmamento condição essencial, mas, pela primeira vez, aceitou discuti-lo sem que estivesse resolvido antes dos demais pontos. Nada indica, por ora, que o Hezbollah aceite se desarmar.

Qual é o papel do Brasil nessas negociações?

Nenhum direto. As conversas são mediadas pelos Estados Unidos, acontecem na embaixada americana em Roma e contam com presença israelense e libanesa. O Itamaraty, sob o governo Lula, adotou nos últimos anos uma postura crítica a Israel que reduziu sua margem de mediação.

Por que as conversas acontecem em Roma e não em Washington?

É a segunda vez que o encontro sai dos Estados Unidos. O local é logístico: as reuniões usam a embaixada americana em Roma como sede. O mediador segue sendo Washington, que é quem efetivamente entrega ou recusa garantias de segurança.

O que isso muda para o brasileiro comum?

Diretamente, pouco. Indiretamente, define precedente internacional sobre como se negocia com organizações armadas, afeta a vida de cerca de 10 milhões de brasileiros de ascendência libanesa e mede a credibilidade do Brasil como mediador em conflitos externos.

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