Uma reportagem do Financial Times, divulgada no sábado (22/08) e reproduzida pelo portal BBC News, revela um movimento diplomático de alto risco do presidente Luiz Inácio Lula da Silva: tratar Donald Trump como parceiro preferencial contra o próprio secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio. Mais do que um desabafo diplomático, a estratégia expõe um cálculo eleitoral que coloca a política externa brasileira a serviço de uma disputa interna — e submete o país ao custo de se tornar variável de uma briga dentro do próprio governo americano.
O triângulo Lula, Trump e Rubio: quem briga com quem
O desenho do conflito é incomum. Não se trata de Brasil contra Estados Unidos como bloco monolítico. Trata-se de um chefe de governo sul-americano tentando separar o presidente americano de seu principal assessor de política externa.
Rubio comanda desde janeiro de 2025 a diplomacia dos EUA, com perfil público de linha dura em temas migratórios e adversário declarado do que chama de "esquerda latino-americana". Segundo a reportagem da BBC News, ele acusou Lula de colocar "o próprio ego" acima do povo brasileiro — e foi retribuído com a classificação de "latino-americano frustrado" que "odeia o Brasil".
Em vez de tratar o chefe de Rubio como interlocutor único, Lula resolveu escalar diretamente para Trump. Na sexta-feira (21/08), os dois conversaram por telefone — primeira retomada de diálogo direto após meses de deterioração nas relações bilaterais. Pela leitura do Financial Times, a manobra tem três camadas:
- Plano doméstico: forçar uma narrativa de confronto com os EUA para mobilizar o nacionalismo da base eleitoral lulista a poucos meses da campanha presidencial de outubro de 2026.
- Plano diplomático: isolar Rubio dentro do governo americano, apostando em uma relação pessoal com Trump que ignore a máquina do Departamento de Estado.
- Plano eleitoral: segundo pessoas próximas ao governo americano ouvidas pelo FT, integrantes do próprio Executivo norte-americano avaliam que Lula estaria fabricando o conflito com Rubio justamente para capitalizar politicamente contra o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
A transformação da política externa em ativo de campanha
A mobilização de um adversário externo para fins eleitorais não é artifício novo — nem exclusivo de nenhum campo ideológico. Governos de diferentes matizes já se beneficiaram de tensões internacionais convenientemente cronometradas para consumo doméstico.
O que chama a atenção no episódio é a intensidade do recurso. A crise com Rubio já produziu efeitos concretos: deterioração no atendimento consular a brasileiros nos EUA, retaliações comerciais pontuais e sinais de insegurança jurídica para empresas americanas com operações no Brasil. Tudo isso a serviço de uma polarização que, segundo o FT, pode ser intencional.
Para uma perspectiva liberal-conservadora, o ponto crítico não é o uso político da política externa — todo governante o faz —, mas a direção do cálculo. Quando o Executivo opta por alimentar uma confrontação com a maior economia do mundo em vez de buscar cooperação negociada, o ônus recai sobre o setor produtivo, sobre o consumidor brasileiro e sobre a credibilidade do país como parceiro comercial.
O custo institucional de personalizar a política externa
A tentativa de Lula de "passar por cima" de Rubio para chegar diretamente a Trump reproduz, em escala diplomática, um padrão de governança baseado em relacionamento pessoal. Esse modelo tem três problemas crônicos, do ponto de vista do interesse nacional:
- Imprevisibilidade: decisões tomadas por ligação telefônica não geram memorandos, não passam pelo Itamaraty de forma estruturada e podem ser revertidas com a mesma informalidade com que foram firmadas.
- Dependência: subordinar a política externa ao humor de um único líder estrangeiro torna o país refém de calendários eleitorais alheios — no caso, o ciclo político americano, hoje profundamente instável.
- Fragilidade institucional: o Itamaraty, uma das mais respeitadas carreiras de Estado do funcionalismo brasileiro, é sistematicamente esvaziado quando decisões relevantes são tomadas em canal direto entre presidentes.
Para o contribuinte e para o empresário, o resultado previsível é mais volatilidade no câmbio, prêmios de risco mais altos em títulos soberanos e crescente dificuldade de planejamento de longo prazo — exatamente o oposto do que uma economia aberta como a brasileira precisa.
Flávio Bolsonaro e a disputa de outubro de 2026
O nome citado pelo Financial Times como adversário a ser derrotado não é acidental. Flávio Bolsonaro é pré-candidato declarado do PL à sucessão presidencial e já opera como polo organizador da oposição ao lulismo. A leitura do FT — de que Lula fabricaria o confronto com Rubio para derrotá-lo — precisa ser tomada a sério, ainda que seja uma avaliação editorial, não um fato confirmado.
O que se sabe com segurança, a partir da reportagem, é que a equação política passou a envolver três variáveis simultâneas: a campanha brasileira de 2026, a disputa interna na Casa Branca entre diferentes visões sobre a América Latina, e a tentativa de Lula de reescrever a narrativa do conflito diplomático a seu favor.
Para o eleitor, o teste será distinguir entre patriotismo genuíno e nacionalismo fabricado — categorias diferentes que, em períodos eleitorais, costumam se apresentar com a mesma embalagem.
Por que isso importa
O episódio não é um duelo isolado de egos entre líderes distantes. Ele mexe com três planos que interessam diretamente ao cidadão comum:
- Plano econômico: cada rodada de tensão com os EUA tem custo mensurável sobre exportações brasileiras, investimentos estrangeiros e cotação do real. Setores como agronegócio, energia, serviços digitais e turismo dependem diretamente da estabilidade do relacionamento bilateral.
- Plano institucional: a captura da política externa pelo cálculo eleitoral doméstico enfraquece o Itamaraty e, com ele, a capacidade do Brasil de negociar com igual peso em fóruns multilaterais como OCDE, G20 e negociações comerciais.
- Plano cívico: o eleitor brasileiro é convocado a reagir emocionalmente a uma crise cuja autoria, segundo a própria reportagem do FT, é posta em dúvida por integrantes do governo americano.
Da perspectiva liberal-conservadora que orienta esta análise, o saldo da operação tende a ser negativo mesmo para o governo que a promove. Governos que apostam em mobilizar o nacionalismo contra potências externas costumam colher, no médio prazo, isolamento diplomático e deterioração de sua base econômica — não ganho eleitoral sustentável.
Perguntas frequentes
Quem é Marco Rubio e por que ele tem peso na relação Brasil-EUA?
Rubio é senador americano pela Flórida, de origem cubana, e atual secretário de Estado dos EUA. Historicamente crítico de governos de esquerda na América Latina, comanda a máquina diplomática americana e tem agenda própria dentro do governo Trump, especialmente sobre Venezuela, Cuba, imigração e política regional.
Por que Lula busca Trump em vez de uma via diplomática tradicional?
A leitura do Financial Times indica que o objetivo é isolar Rubio dentro do próprio governo americano, apostando que o vínculo direto com o presidente prevalece sobre a cadeia institucional. É uma escolha de alto risco: depende inteiramente de disposição pessoal de Trump, não de mecanismos de Estado ou de acordos formalizados.
Isso tem precedente na história diplomática brasileira?
Personalismo na relação com grandes potências é recorrente na história brasileira, de Vargas ao Itamaraty contemporâneo. O diferencial aqui é a intensidade da quebra de protocolo e o fato de o confronto estar sendo instrumentalizado dentro de um calendário eleitoral interno, segundo a avaliação do próprio FT.
Quais os efeitos práticos para o cidadão comum?
Potencialmente: mais volatilidade cambial, mais dificuldade para empresas brasileiras nos EUA, insegurança jurídica em contratos internacionais, e deterioração da imagem do Brasil como parceiro confiável em negociações comerciais e financeiras.
O que pode mudar a partir de agora?
Tudo depende da próxima rodada de tratativas. Se Lula conseguir uma reaproximação aparente com Trump sem concessões relevantes, a estratégia será declarada vencedora por seus aliados. Se a aproximação exigir recuos em política comercial, energética ou migratória, o custo começará a aparecer — e o nacionalismo convocado como ativo eleitoral poderá se voltar contra o próprio governo que o mobilizou.
Gostou desta análise? Compartilhe com quem quer entender a política brasileira além da manchete e assine a newsletter d'A Bússola Nacional.



