A ligação de uma hora e vinte minutos entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na sexta-feira (21/8), tirou do zero um canal bilateral que estava mudo havia três meses. O telefonema, segundo o portal BBC News, partiu de iniciativa do lado brasileiro, foi confirmado pela Casa Branca, mas não recebeu comentários públicos de Trump em suas redes. Para o Palácio do Planalto, a conversa foi "cordial e amistosa". Para a equipe do presidente brasileiro, ainda está longe de significar normalização — e a cautela não é protocolo: é cálculo.
O rasto de destruição deixado pela crise
Para dimensionar o que essa ligação representa, é preciso lembrar o que aconteceu entre os dois governos nos últimos meses. Segundo a reportagem da BBC News Brasil, a deterioração incluiu dois movimentos concretos: de um lado, a aplicação de uma nova rodada do tarifaço norte-americano contra produtos brasileiros; de outro, a revogação de vistos de diplomatas dos dois países. Não se trata de retórica inflamada nem de troca de tuítes: houve sanção comercial real e houve punição a funcionários de Estado em razão direta da relação bilateral.
É importante registrar aqui o argumento contrário em sua versão mais forte, porque a leitura comum — inclusive no Itamaraty — atribui a escalada a uma suposta intromissão pessoal de Trump em assuntos internos do Brasil, especialmente em torno do ex-presidente Jair Bolsonaro e do STF. Pela leitura adversária, portanto, o tarifaço seria instrumento de pressão política e a crise seria, em essência, "culpa de Trump".
Feita a ressalva, é preciso dizer o que essa narrativa omite. Tarifas não são gratuitas para quem as aplica, mas são particularmente punitivas para quem as recebe. Quem pagou a conta dos últimos meses não foi o Itamaraty, não foi o Planalto nem o discurso presidencial: foi o exportador brasileiro que perdeu margem, foi o consumidor americano de suco de laranja, café e carnes que viu preço subir, foi a cadeia produtiva que teve acesso a financiamento encarecido. A crise tem custo mensurável, em dólares, em empregos e em contratos — e esse custo foi assumido pelo setor privado brasileiro, não pelo governo que provocou o atrito. É razoável, portanto, que o governo tente desfazer o estrago. É também razoável perguntar por que ele o provocou.
O que a conversa muda — e o que não muda
Pelo que se depreende das informações apuradas pela BBC News Brasil, três efeitos práticos já podem ser esperados do telefonema.
Primeiro, o canal diplomático voltou a funcionar. Três meses de silêncio direto entre presidentes são tempo suficiente para escaladas automáticas, mal-entendidos técnicos e decisões tomadas no escuro por agências regulatórias e gabinetes paralelos. A mera reabertura da linha telefônica reduz o risco de incidentes por falha de comunicação — e isso tem valor, mesmo que não seja glamour diplomático.
Segundo, o caminho para reversão de tarifas está aberto, mas não garantido. Conversa cordial não suspende ato executivo. O tarifaço só será revertido se houver decisão política específica da Casa Branca, e a história comercial recente entre os dois países mostra que Trump trata tarifas como instrumento transacional, não como sanção moral permanente. Em outras palavras: há preço, há contrapartida exigida, e o ônus de definir o que o Brasil está disposto a oferecer recai sobre o Planalto.
Terceiro, a relação foi reclassificada como "em gestão", não como "normalizada". A própria fala de assessores ao portal BBC News explicita isso: foi positiva, mas "longe de significar uma normalização". A diferença importa. Normalização envolveria trâmites formais — agenda de comitiva, data para visita de Estado, calendário para revisão tarifária. Reabertura de diálogo é apenas o primeiro degrau, e há muitos abaixo da superfície da conversa que continuam deteriorados.
A sombra da eleição e o problema da interferência
O ponto politicamente mais delicado da conversa não foi comercial. Foi eleitoral. Segundo a reportagem, assessores de Lula avaliam que o diálogo entre os presidentes pode tornar "mais difícil" a hipótese de uma manifestação direta de Trump durante as eleições presidenciais brasileiras, nas quais Lula tenta um quarto mandato. Ao mesmo tempo, reconhecem que outros membros da administração norte-americana poderiam tentar interferir.
Esse trecho merece leitura cuidadosa, porque toca em um tema sobre o qual existe, no Brasil, um acordo retórico frágil e seletivo. A frase "interferência estrangeira em eleição" é imediatamente lida, em parte do debate público, como tema de "esquerda democrática" — coisa que preocupa quem defende o sistema eleitoral contra Trump. Mas o fato bruto, despido de moldura ideológica, é mais antigo e mais grave: qualquer governo estrangeiro que se manifeste sobre uma disputa interna, por canais oficiais ou oficiosos, viola a soberania popular do país afetado. Isso vale quando Trump falou sobre o STF; vale quando Moscou patrocinou desinformação em 2018; vale quando Havana emite opinião sobre o processo brasileiro; e valeria se um líder europeu encampasse um lado da corrida daqui.
O centro-direita brasileiro tem, ali, uma posição historicamente incómoda: tendeu a relativizar o tema quando o objeto foi Bolsonaro, e a amplificá-lo quando o objeto foi Lula. Ambas as reações foram parciais. Pela lógica da soberania do voto, a postura correta é uma só: nenhum chefe de Estado estrangeiro deve entrar na campanha, e quem o faz presta um desserviço à democracia do país que o acolhe temporariamente como hóspede. A prudência que o Planalto agora demonstra em relação a Trump deveria ser a mesma que se cobraria em relação a qualquer outro ator externo.
Por que isso importa
Três consequências práticas estão em jogo.
- Para o exportador brasileiro: cada semana em que o tarifaço permanece em vigor é semana em que contratos se perdem e cadeias se realocam. Reabrir o diálogo é condição necessária para desfazer o dano, mas não suficiente.
- Para o investidor: o mercado mede risco institucional pela previsibilidade das relações exteriores. Três meses de silêncio somados a tarifa e revogação de vistos não foram lidos como ruído — foram lidos como mudança de regime bilateral. A estabilização, se vier, reconstrói parte desse sinal.
- Para o eleitor: o telefonema reduz a probabilidade de um endosso público explícito de Trump a um candidato brasileiro, mas, como a própria equipe do Planalto admite, não elimina ações indiretas vindas de outros membros da administração norte-americana. O risco de interferência permanece, deslocado para canais menos visíveis.
Há ainda uma lição de método que a sequência dos fatos oferece. O Planalto promoveu uma escalada com o maior parceiro comercial hemisférico do país, arcou com seus custos no setor privado e, três meses depois, iniciou pessoalmente a desescalada. A conta, em empregos e em receita, ficou para trás. O custo de uma política externa conduzida como continuação da polarização interna, e não como gestão de interesses nacionais, costuma ser pago por quem não participou da decisão.
Perguntas frequentes
A ligação significa que as relações Brasil-EUA estão normalizadas?
Não. Segundo assessores ouvidos pela BBC News Brasil, a conversa foi positiva, mas está longe de significar normalização. Normalização exigiria trâmites formais, agenda comum e, principalmente, a reversão das medidas que provocaram a crise.
Trump pode voltar a criticar o Brasil publicamente?
Pode. A conversa foi "cordial e amistosa", mas o presidente norte-americano não comentou o diálogo em suas redes sociais, e a Casa Branca não detalhou o conteúdo. A porta para novas manifestações públicas continua aberta.
O tarifaço sobre produtos brasileiros pode ser revertido?
É possível, mas depende de decisão específica da Casa Branca. Tarifas, na lógica comercial de Trump, funcionam como instrumento de negociação, e não há sinal público de contrapartida oferecida pelo lado brasileiro.
A conversa reduz o risco de interferência dos EUA na eleição brasileira?
Reduz parcialmente, segundo a avaliação da equipe de Lula. A probabilidade de uma manifestação direta de Trump tende a diminuir com o diálogo reestabelecido, mas assessores admitem que outros membros da administração norte-americana podem buscar caminhos indiretos.
Quem mais perdeu com a crise além do governo?
O setor privado exportador, que absorveu o impacto das tarifas em margem e em contratos, e a imagem de previsibilidade institucional do Brasil junto a investidores estrangeiros, sensível à estabilidade das relações com os Estados Unidos.
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