O centenário como espelho invertido
Cem anos após o nascimento de Fidel Castro, Cuba atravessa o aniversário do seu líder fundador tentando celebrar um legado que a realidade material da ilha se recusa a confirmar. Segundo o portal Abril.com.br, nesta quinta-feira, 13, o governo organizou exposições, conferências e cerimônias oficiais em Havana enquanto apagões superiores a 20 horas, escassez de combustível, falta de alimentos e de medicamentos e a deterioração dos serviços básicos se tornaram rotina. A data não é apenas uma efeméride: é o ponto em que propaganda e cotidiano se separam de forma irreconciliável, e é exatamente essa fratura que interessa à análise.
O que está em jogo nesta data
Comemorar um centenário é um exercício de fixação de memória. Em regimes fundados em uma narrativa — e o castrismo é, antes de tudo, um relato de si próprio —, datas redondas funcionam como âncoras ideológicas: repetem o mito fundador para que a geração seguinte não tenha tempo de compará-lo com o presente. O problema é que o presente, em Cuba, é eletricidade que não chega, comida que falta e uma diáspora que bate recorde histórico. Quando o Estado que prometeu pão, saúde e soberania não entrega nem o básico, o centenário deixa de ser homenagem e vira interrogatório.
A importância da data, portanto, não está nas solenidades em si, mas no contraste que elas produzem. O regime é obrigado a festejar enquanto a evidência contradiz a festa. Cada cerimônia oficial é também, involuntariamente, um inventário do que foi entregue e do que não foi.
Quem manda, de fato, em Cuba
O texto da Abril lembra que o reaparecimento público de Raúl Castro, aos 95 anos, no Teatro Karl Marx, foi o gesto politicamente mais carregado do dia. Raúl não ocupa cargo executivo desde 2018, quando передаu a presidência a Miguel Díaz-Canel, hoje também primeiro-secretário do Partido Comunista desde 2021. Ainda assim, a presença dele no palanque — de uniforme verde-oliva, saudado por aplausos — diz mais do que qualquer comunicado oficial: a transição geracional que Díaz-Canel deveria encarnar continua incompleta.
Isso configura um desenho institucional peculiar:
- Fidel permanece como referência simbólica e paterna do regime, mesmo após a morte em 2016.
- Raúl opera como poder moderador nos bastidores, peça-chave de qualquer decisão estratégica.
- Díaz-Canel exerce a função executiva formal, mas responde a uma estrutura partidária que não o controla apenas a ele.
Para a análise, o ponto é simples: não há, em Cuba, um governante com lastro eleitoral autônomo. Há um partido que decide e um presidente que executa. Essa arquitetura é relevante porque molda a reação do regime à crise: decisões de fôlego — abrir mercados, permitir investimento privado amplo, desvalorizar a moeda — dependem de consenso interno que, historicamente, não se forma sob pressão externa.
A crise que não é só energética
Convém separar o que é sintoma do que é causa. Os apagões narrados pela reportagem são o sintoma mais visível. A causa é estrutural: uma matriz elétrica dependente de combustível importado, uma rede de geração com décadas de manutenção postergada e uma economia que não gera divisas suficientes para comprar o petróleo que precisa. Quando o combustível some, a luz apaga; quando a luz apaga, bombas de água param, hospitais reduzem atendimento, alimentos refrigerados se perdem. A escassez de remédios e alimentos não é um problema paralelo — é a próxima peça do mesmo dominó.
Há, aqui, uma lição que interessa diretamente ao debate sobre política pública em qualquer latitude: não existe crise setorial isolada em economias altamente centralizadas. Quando o Estado controla preço, câmbio, distribuição e investimento, a falha em um nó se propaga para todos os demais. A crise cubana é, antes de tudo, uma crise de modelo — não uma crise de gestão, ainda que má gestão também exista.
Sanções versus má gestão: o debate real
Honestidade intelectual exige apresentar o argumento mais forte de cada lado antes de analisá-lo.
A tese de Havana sustenta que o endurecimento das sanções americanas — em especial as medidas que restringem o fornecimento de petróleo à ilha — é o fator explicativo central da crise atual. Trata-se de um argumento parcialmente verdadeiro: embargos prolongados comprimem a capacidade de importar insumos críticos, encarecem o que entra e desencorajam investidores terceiros por medo de retaliação secundária. Sanções reais provocam danos reais em populações civis, e esse efeito está documentado em diferentes contextos históricos.
A tese de Washington aponta para décadas de má gestão econômica, subinvestimento em infraestrutura energética e ausência de reformas estruturais. Também é verdadeira: a rede elétrica cubana opera com usinas termoelétricas que, em vários casos, datam dos anos 1980 e foram alvo de manutenção corretiva, não preventiva, por décadas.
A análise correta não escolhe um lado da caricatura — aceita que ambos os fatores operam simultaneamente, mas atribui pesos diferentes. Sanções agravam; não causam. O sistema cubano produz escassez com ou sem embargo, como demonstram décadas anteriores ao recrudescimento das medidas americanas. A prova está na linha do tempo: apagões, filas e desabastecimento são crônicos na ilha desde pelo menos os anos 1990, quando o país perdeu seus principais parceiros comerciais do bloco soviético. O que mudou agora é a intensidade, não a natureza do problema.
Por que isso importa
Para o leitor brasileiro, o centenário cubano não é apenas uma nota de política internacional. Ele funciona como estudo de caso em tempo real de três temas que atravessam o debate doméstico: o custo de longo prazo de modelos de desenvolvimento baseados na centralização de decisões no Estado; a diferença entre capacidade estatal de verdade e aparato estatal de fachada; e o efeito de sanções externas sobre populações que não escolheram o regime que as provoca.
A primeira lição é direta: Estados que concentram poder econômico e político em um partido, uma pessoa ou uma burocracia fechada tendem a acumular ineficiência até o ponto de ruptura. O ponto de ruptura cubano chegou — e está sendo televisionado em cerimônia oficial.
A segunda lição é sobre diagnóstico. Crises prolongadas quase nunca têm causa única. Reconhecer isso não exime ninguém: obriga, isto sim, a pesar cada fator com rigor, sem transformar adversários em demônios nem problemas em fatalidades.
A terceira lição diz respeito ao instrumento da sanção. Sanções funcionam como pressão diplomática; não substituem reforma interna. Quando o regime sancionado já não tem margem para reformar — porque a reforma implica abrir mão de controle —, a sanção aperta o torniquete sobre a população, não sobre quem decide. É um debate que vai retornar toda vez que Washington revisar sua política para a ilha, como já sinalizou em relação ao endurecimento do bloqueio.
Perguntas frequentes
Cuba é uma ditadura? O texto da Abril descreve um sistema de partido único, sem competição eleitoral, com poder real concentrado na direção do Partido Comunista e poder moderador exercido por Raúl Castro nos bastidores. Não há, no desenho institucional atual, mecanismo de alternância de poder por voto.
Por que Raúl Castro ainda aparece como figura central se não é presidente? Porque a transição de 2018 foi formal, não real. Raúl manteve influência sobre Forças Armadas, serviços de inteligência e núcleo duro do partido, e a estrutura cubana opera por consenso entre elites, não por mando presidencial isolado.
As sanções dos EUA são responsáveis pela crise? São um fator agravante, não a causa. Crises energéticas e de abastecimento em Cuba são crônicas há décadas, independentemente do nível das sanções. O endurecimento recente ampliou a intensidade, mas o problema estrutural antecede.
O que diferencia esta crise de momentos anteriores, como o "Período Especial" dos anos 1990? A gravidade atual combina três fatores simultâneos: crise energética prolongada, escassez de divisas e deterioração do tecido social com emigração em massa. O Período Especial foi severo, mas ocorreu em contexto de coesão ideológica maior e população mais jovem.
Há risco de colapso do regime? O texto não permite afirmar nem descartar. Regimes centralizados costumam mostrar rigidez justamente quando a crise se aprofunda — e a celebração do centenário, com toda a sua carga simbólica, sugere que Havana aposta em manutenção da narrativa, não em abertura.
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