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Marco dos minerais críticos: o que vai além da geopolítica

Marco dos minerais críticos aprovado no Senado soma R$ 5 bi em renúncia fiscal e conselho com poder de veto sobre capital estrangeiro, sem critérios claros.

Por Heitor Vasconcelos · · 6 min de leitura

Marco dos minerais críticos: o que vai além da geopolítica
Marco dos minerais críticos: o que vai além da geopolítica
2>Senado aprova marco dos minerais críticos: o que está em jogo e por que isso vai além da geopolítica

O Senado Federal aprovou nesta quarta-feira (2) o projeto de lei que cria o marco legal para a exploração de minerais críticos e terras raras no Brasil. A votação, segundo o portal Olhardigital.com.br, foi simbólica, sem contagem nominal, e o texto segue agora para sanção presidencial. À primeira vista, parece mais uma votação técnica sobre mineração. Não é. O projeto mexe em três eixos sensíveis ao mesmo tempo: política fiscal, segurança nacional e soberania econômica sobre um recurso que, como o próprio texto reconhece, está no centro de uma disputa global.

Os três ingredientes do projeto

Para entender o tamanho da decisão, é preciso separar o que o projeto efetivamente cria:

  • Incentivos fiscais de R$ 5 bilhões para a cadeia de minerais críticos e terras raras, por meio de renúncias tributárias ainda a serem regulamentadas.
  • Um fundo garantidor, com função de reduzir risco de crédito e dar lastro a financiamentos do setor produtivo.
  • Um conselho governamental com poder de autorizar, fiscalizar e, ponto central, vetar parcerias e operações envolvendo empresas estrangeiras no setor.

O tripé combina dinheiro do contribuinte, instrumento de Estado e poder de veto político sobre transações privadas. Cada um desses elementos merece análise separada.

O contexto: Trump, terras raras e a guinada americana

A votação não acontece no vácuo. O tema entra na agenda brasileira empurrado por uma mudança externa relevante: os Estados Unidos, sob a administração Donald Trump, passaram a tratar terras raras e minerais críticos como questão de segurança nacional e a buscar ativamente acesso a reservas fora de sua fronteira. O Brasil, dono de uma das maiores reservas do mundo, virou alvo declarado desse interesse.

Em outra frente, a China consolidou nas últimas décadas um quase-monopólio sobre o refino e a separação de terras raras, e usa esse controle como instrumento de pressão geopolítica. Para qualquer país ocidental, depender exclusivamente da cadeia chinesa passou a ser visto como vulnerabilidade estratégica.

Esse pano de fundo explica por que o governo Lula tratou o projeto como prioridade e por que o Palácio do Planalto pressionou pela votação antes do recesso parlamentar.

A barganha política por trás da aprovação

Segundo a reportagem, a votação só foi destravada após a reaproximação entre o presidente Lula e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil/AP). O acordo não se limitou a minerais: abriu caminho para outras pautas do governo, entre elas benefícios fiscais para data centers e o fim da escala 6x1.

O ponto merece leitura fria. Não é "vitória do governo" no sentido ideológico puro: é o resultado de uma negociação de agenda entre o Executivo e um comando do Senado que tem interesses próprios, inclusive eleitorais no Amapá, Estado com forte presença de mineração. Aprovação simbólica, sem contagem de votos, costuma ser a marca registrada de um acordo costurado antes do plenário.

Para o governo, o saldo é positivo: três pautas estratégicas desbloqueadas em uma única semana. Para o Congresso, o custo político é a percepção de que vota por conveniência, e não por convicção sobre mérito.

Os pontos que merecem escrutínio

O que está em R$ 5 bilhões de renúncia fiscal

Renúncia fiscal é gasto público sem a rubrica "gasto público". Os R$ 5 bilhões previstos em incentivos precisam de três respostas antes de virar política consolidada:

  1. Qual é o retorno estimado? O projeto deveria vir acompanhado de estudo de custo-benefício mostrando o que o Brasil ganha em empregos, arrecadação futura e desenvolvimento tecnológico para cada real renunciado.
  2. Quem captura o benefício? Sem desenho claro, incentivos a cadeias estratégicas tendem a ser apropriados por grandes players já consolidados — estrangeiros inclusive — em vez de induzir a entrada de novos investidores nacionais.
  3. Onde está a fonte de compensação? O texto não indica corte equivalente em outra despesa. Em um país com resultado primário apertado, renúncia sem compensação pressiona a dívida.

O conselho com poder de veto: cuidado com a politização

O novo conselho governamental com capacidade de vetar parcerias internacionais é, no papel, justificável: algum grau de controle estatal sobre ativos estratégicos é prática comum em países que levam o tema a sério, dos Estados Unidos à Austrália. A pergunta incômoda é outra: quem nomeia, quem fiscaliza, e com quais critérios objetivos?

Sem critérios técnicos publicados, sem transparência sobre as decisões e sem revisão judicial robusta, um conselho desse tipo pode se transformar em instrumento de favorecimento político, de retaliação ideológica ou, pior, de obstáculo burocrático para investimentos que o Brasil precisa atrair.

O argumento contrário — e ele precisa ser apresentado em sua versão mais forte — é que, sem algum tipo de controle, empresas estrangeiras, em particular estatais chinesas, podem adquirir participação relevante em depósitos sensíveis sem que o Estado brasileiro tenha instrumentos de reação. Trata-se de uma preocupação legítima, especialmente após a experiência de países que viram sua infraestrutura crítica passar para mãos de adversários geopolíticos.

Reconhecida essa legitimidade, a resposta do projeto precisa ser calibrada: controle sim, politização não.

Direito de propriedade e segurança jurídica

Não há, no texto resumido pela reportagem, indicação clara sobre como o novo regime se sobrepõe a direitos minerários já outorgados, a contratos de concessão vigentes e a obrigações assumidas com investidores atuais. Para uma atividade de capital intensivo, prazos longos e risco regulatório elevado como mineração, qualquer ambiguidade sobre direitos preexistentes é um convite à judicialização.

Por que isso importa

O leitor que não acompanha o noticiário minerário pode perguntar: por que isso deveria aparecer na minha agenda? Três razões:

1. Orçamento público. R$ 5 bilhões em incentivos é um número relevante dentro de um orçamento federal apertado. Cada real não arrecadado precisa ser justificado por um resultado concreto e mensurável.

2. Soberania de decisão. Minerais críticos estão no centro da próxima revolução industrial: semicondutores, baterias, defesa, energia limpa. Quem controla a cadeia controla parte do futuro econômico. Decidir mal aqui compromete a próxima década.

3. Sinalização internacional. O Brasil está enviando um sinal ao mercado global: tem um marco legal para terras raras. A forma como esse marco for implementado definirá se o país atrai capital de longo prazo ou se afugenta investidores com regras instáveis e poder discricionário demais nas mãos do Executivo.

Perguntas frequentes

O que são minerais críticos e terras raras?

São insumos essenciais para tecnologias estratégicas — desde imãs de alta performance usados em turbinas eólicas e veículos elétricos até componentes de defesa e semicondutores. O Brasil tem uma das maiores reservas do mundo, mas participação ainda pequena no refino.

Por que a disputa com Trump importa para o projeto?

Porque o interesse explícito dos Estados Unidos em acessar reservas brasileiras criou urgência política para que o governo federal tivesse um instrumento legal próprio antes de qualquer negociação bilateral — evitando ser visto apenas como fornecedor de matéria-prima bruta.

Quais os próximos passos?

O texto aprovado pelo Senado segue para sanção presidencial. Lula tem prazo para sancionar, vetar parcial ou totalmente. Depois, dependem da sanção presidencial a regulamentação do fundo garantidor, dos incentivos e das regras de funcionamento do conselho — etapa em que muita coisa boa ou ruim pode acontecer.

Existe risco de o conselho travar investimentos?

Existe, se os critérios de veto não forem técnicos, objetivos e públicos. Sem isso, o instrumento pode se tornar um gargalo político em vez de uma salvaguarda estratégica.

O projeto traz algum benefício claro ao consumidor brasileiro?

Indiretamente, se a cadeia produtiva se desenvolver e gerar empregos e impostos, há ganho. Diretamente, porém, não há mecanismo visível de repasse de benefícios ao consumidor final nem de proteção contra eventual repasse de custos do fundo garantidor para preços.

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