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Meloni ultrapassa Berlusconi e redefine a direita europeia

Meloni atinge 1.412 dias como primeira-ministra italiana, mais longeva desde a Segunda Guerra. Como a coalizão sustenta o governo e o que revela para a direita.

Por Marina Cordovil · · 6 min de leitura

Meloni ultrapassa Berlusconi e redefine a direita europeia
Meloni ultrapassa Berlusconi e redefine a direita europeia

O marco de 1.412 dias e o que ele revela sobre a direita europeia

Na sexta-feira, a primeira-ministra italiana Giorgia Meloni completará 1.412 dias ininterruptos no cargo, ultrapassando o segundo governo de Silvio Berlusconi e se tornando a líder com o mandato mais longo na Itália desde a era Mussolini. O feito será celebrado em Bari, em um comício programado para marcar a data. Segundo o portal Observador.pt, o executivo atual já é o mais longevo desde a ditadura, e ainda falta pouco mais de um ano para o término natural do mandato, previsto para a segunda metade de 2027.

Em um país que trocou mais de 30 primeiros-ministros desde o fim da Segunda Guerra, o número não é um detalhe de almanaque. Ele encerra uma fase de quase oito décadas de fragilidade executiva crônica e expõe uma mudança de engenharia política que interessa diretamente a quem observa o Brasil: a capacidade da direita italiana de se unificar em torno de uma liderança com identidade clara, frear a fragmentação parlamentar e entregar governabilidade sem entregar a agenda.

Por que a Itália foi, por tanto tempo, sinônimo de instabilidade

Antes de medir o feito de Meloni, é preciso entender o terreno que ela pisou. A política italiana do pós-guerra combinou três fatores que se reforçavam mutuamente:

  • Sistemas eleitorais voláteis, que produziam parlamentos fragmentados e maiorias de um dia;
  • Presidentes da República com poder arbitral forte, que recorreram a governos técnicos e de unidade nacional para destravar crises;
  • Escândalos recorrentes, com destaque para os casos de corrupção associados a Berlusconi, que corroeram a confiança do eleitor nas forças tradicionais.

O resultado foi uma sucessão quase ininterrupta de crises: o estouro do Mani Pulite nos anos 1990, a ascensão do antissistema Movimento 5 Estrelas (M5S) em 2018 e, no limite, a posse do governo de unidade nacional liderado por Mario Draghi em 2021 — um ex-presidente do Banco Central Europeu convocado para administrar a pandemia e evitar o colapso fiscal. Cada etapa dessas mostrou o mesmo problema: nenhum partido sozinho conseguia sustentação, e nenhum acordo entre partidos durava o suficiente para reformar o Estado.

A virada de 2022: como Meloni capitalizou o esgotamento

Meloni soube ler esse cansaço. Ela não inventou a fadiga do eleitor com a política tradicional — encontrou-a pronta, herdada de uma década de experimentos fracassados. Nas eleições de 2022, ela se apresentou como a única voz que simultaneamente oferecia três coisas que pareciam incompatíveis: identidade ideológica firme, coalizão com partidos de matriz diferente e viabilidade institucional.

O Fratelli d'Italia, partido que lidera, ficou em primeiro lugar, mas não dispunha de maioria própria. Meloni montou então a aliança com a Lega de Matteo Salvini (direita radical, focada em imigração) e a Forza Italia, o partido fundado pelo próprio Berlusconi (centro-direita institucional, pró-União Europeia). A fórmula só funcionou porque ela ocupou o centro de gravidade da coligação — não como mediadora fraca, mas como fiel da balança com projeto próprio.

A anatomia da coalizão que quebrou o recorde

O que mantém a aliança de pé não é harmonia ideológica, mas disciplina estratégica. Os três partidos sabem que, isolados, nenhum sobrevive a um ciclo eleitoral sem ser engolido pela fragmentação. Dentro do arranjo, cada um ocupa um nicho:

  • Fratelli d'Italia: núcleo conservador identitário, defesa da família, soberanismo europeu, ceticismo com Bruxelas em matéria migratória;
  • Lega: voz mais ruidosa no tema migratório e na contestação cultural, útil para mobilizar a base do norte industrial;
  • Forza Italia: âncora institucional, ligação com o eleitorado católico moderado e com o empresariado tradicional, ponte com o establishment europeu.

Há fissuras reais entre essas alas. A Lega mantém retórica mais radical, sobretudo em imigração. A Forza Italia prefere tom institucional. Meloni administra essa tensão assumindo posições que sinalizam para cada grupo, sem jamais permitir que a divergência vire ruptura parlamentar.

Interno x externo: a gestão das duas frentes

O eixo de sustentação mais sofisticado do governo Meloni é a separação entre discurso doméstico e postura internacional. Internamente, ela se aproxima de Salvini nas políticas migratórias, defende agenda social conservadora, manifesta ressalvas ao aborto e se opõe ao casamento homoafetivo. Externamente, mantém relacionamento funcional com a União Europeia, apoia a Ucrânia de forma explícita e não embarca em aventuras de ruptura com o euro ou com a OTAN.

Essa é a peça-chave do sucesso, e merece atenção de observadores brasileiros acostumados a ver partidos de direita europeus romperem com a ordem liberal-institucional assim que chegam ao poder. Meloni compreendeu algo que custou caro a seus predecessores: rupturas simbólicas rendem manchete, mas custam mercado, crédito e tempo de governo. A estabilidade atual é, em parte, o preço pago por uma direita italiana que aceitou moderar o estilo para preservar o mandato.

O que está em jogo: por que isso importa além de Roma

O significado do 1.412º dia de Meloni não se esgota em Roma. Três consequências práticas merecem destaque:

  1. Precedente para a direita europeia. Pela primeira vez em décadas, uma líder conservadora de identidade forte demonstrou que é possível governar com prazo longo sem se render ao centro progressista nem capitular à radicalização. Isso redesenha o tabuleiro para França, Alemanha e para os próprios partidos de direita da América Latina que observam o modelo.
  2. Pressão reformista concentrada. Governos longos acumulam capital político — e cobrança. Se Meloni quiser usar a estabilidade para entregar reformas estruturais (previdência, mercado de trabalho, desburocratização), o terreno estará preparado; do contrário, os parceiros da coalizão começarão a cobrar resultados materiais.
  3. Risco de personalização. O recorde se confunde com a figura de Meloni. Se ela for a única peça a manter a aliança coesa, a sucessão em 2027 pode recolocar a Itália no ponto de partida da instabilidade. O teste de maturidade do arranjo será construir institucionalidade interna no partido, e não depender exclusivamente da líder.

Perguntas frequentes

Meloni é a primeira-ministra mais longeva da história italiana? Não. Ela é a mais longeva desde o fim da Segunda Guerra. O recorde absoluto pertence ao próprio Benito Mussolini, no período ditatorial (1922-1943). A comparação é temporal, não política.

Qual é a base partidária do governo? Uma coalizão de três partidos: Fratelli d'Italia (centro-direita identitário, de Meloni), Lega (direita radical, de Salvini) e Forza Italia (centro-direita liberal-conservador, herdeiro de Berlusconi).

Quais são as principais tensões dentro da aliança? A Lega adota postura mais radical em imigração e questões identitárias; a Forza Italia prefere tom institucional e pró-europeu. Meloni atua como mediadora, assumindo internamente pautas conservadoras e externamente uma linha moderada.

Quando termina o atual mandato? O mandato vigente se estende até a segunda metade de 2027, salvo dissolução antecipada da coalizão.

O que explica a estabilidade em comparação com governos anteriores? A combinação de um sistema eleitoral menos fragmentário, fadiga do eleitor com partidos tradicionais e a habilidade pessoal de Meloni em centralizar decisões dentro da coalizão. O governo Draghi (2021-2022) preparou o terreno institucional, mas não tinha projeto político próprio.

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