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Mercado: primeiro turno e Congresso pesam mais que vencedor

Bradesco BBI: mercado reage ao desvio entre pesquisa e urna no primeiro turno, não ao vencedor final. Composição do Congresso pesa mais que o presidente.

Por Otávio Salgado · · 6 min de leitura

Mercado: primeiro turno e Congresso pesam mais que vencedor
Mercado: primeiro turno e Congresso pesam mais que vencedor

Faltando poucas semanas para o primeiro turno das eleições presidenciais, o Bradesco BBI publicou um relatório que inverte a lógica mais comum sobre o impacto do calendário eleitoral nos mercados. Segundo os estrategistas Pedro Grimaldi e Ben Laidler, o que dita a reação dos investidores não é necessariamente quem vence a disputa, mas o tamanho do desvio entre o resultado das urnas e o que as pesquisas projetavam nas vésperas da votação. É o primeiro turno — com a nova fotografia do Congresso Nacional — o momento de maior estresse e, portanto, de maior potencial de oscilação nos ativos brasileiros.

O argumento central do Bradesco BBI

Ao examinar os cinco últimos ciclos presidenciais — de 2006 a 2022 — o banco concluiu que as maiores movimentações dos ativos brasileiros se concentraram em torno da apuração do primeiro turno, e não da definição final do presidente no segundo turno. A justificativa é direta: a votação inicial revela informação nova sobre a correlação de forças no Congresso, dimensão decisiva para quem analisa o que efetivamente poderá ser aprovado ou bloqueado nos próximos quatro anos.

Para qualquer investidor — nacional ou estrangeiro — o cálculo de risco no Brasil depende menos da retórica de campanha e mais de variáveis concretas: qual será o tamanho da base governista na Câmara e no Senado, quais blocos terão poder de agenda, e que tipo de reforma fiscal, tributária ou regulatória conseguirá avançar. A identidade do presidente importa, mas só ganha tração prática quando traduzida em maioria legislativa.

Por que as pesquisas erram — e por que isso importa

O relatório destaca um ponto que merece atenção: em todos os pleitos presidenciais desde 2006 houve surpresas relevantes entre as projeções das sondagens e o resultado efetivo das urnas. Em 2006, pesquisas indicavam possibilidade de vitória em primeiro turno, mas a disputa acabou seguindo para o segundo turno. Em 2010, uma candidatura considerada de terceira via obteve desempenho muito superior ao projetado, ajudando a forçar nova rodada de votação.

Esse padrão de desvio sistemático entre pesquisa e resultado tem implicações práticas. Investidor que precifica ativos com base no cenário mais provável das pesquisas está, simultaneamente, exposto a um risco subestimado de cenário alternativo. Quando a urna contradiz a sondagem, a reprecificação costuma ser brusca — e é nesse momento que se formam os maiores movimentos de mercado.

O exemplo de 2018 e 2022

O texto de referência não detalha esses dois ciclos, mas a memória institucional do mercado os registra bem. Em 2018, a polarização entre os dois candidatos que lideraram as pesquisas se materializou com força maior do que o previsto. Em 2022, o resultado do primeiro turno surpreendeu pela força de uma das candidaturas, redesenhando o cenário de risco fiscal e regulatório que os operadores tinham precificado. Em ambos os casos, a volatilidade concentrou-se nas primeiras horas após a apuração — não na definição final do vencedor.

O Congresso como variável decisiva

A insistência dos analistas do Bradesco BBI na composição do Legislativo não é acaso. No Brasil, o sistema presidencialista é, na prática, um sistema semipresidencialista do ponto de vista decisório: o Executivo propõe, mas o Congresso dispõe. Propostas de reforma tributária, ajuste fiscal, regulação setorial e mesmo mudanças administrativas dependem de articulação parlamentar que começa a se desenhar logo após o primeiro turno, quando partidos elegem suas bancadas e iniciam a disputa por comissões, relatorias e presidência das Casas.

Para o investidor estrangeiro, que aloca capital com horizonte de médio e longo prazo, o indicador mais confiável de risco-país não é o nome do futuro presidente, mas a viabilidade do programa econômico que ele precisará negociar. Uma vitória presidencial com Congresso refratário a reformas pró-mercado costuma ser recebida com ceticismo maior do que uma vitória de candidato menos alinhado ao liberalismo econômico, porém com base parlamentar mais colaborativa.

Por que isso importa

Três consequências práticas se desenham a partir da leitura do relatório.

  • Volatilidade é o preço da incerteza democrática, mas pode ser administrada. Reconhecer que o primeiro turno é o ponto de maior stress ajuda gestores a posicionar hedges e ajustar exposição com antecedência, sem precisar esperar a definição final.
  • O debate público sobre pesquisa precisa de mais ceticismo. Tratar sondagens como fotografia do futuro, e não como retrato probabilístico do presente, empurra o mercado a se expor a surpresas evitáveis. Cabe ao investidor — e ao leitor atento — descontar a margem de erro histórica dos levantamentos.
  • O programa econômico do próximo governo depende muito mais do que do Palácio do Planalto. Quem se preocupa com inflação, câmbio, juros e crescimento deve olhar com atenção equivalente ao resultado em Brasília e ao tamanho da coalizão que sustentará o próximo mandato.

Do ponto de vista desta análise, há ainda uma leitura adicional. A insistência do mercado em reagir mais à configuração do Congresso do que ao nome do presidente reflete algo que o debate eleitoral brasileiro nem sempre reconhece: reformas sustentáveis são obra coletiva, não projeto pessoal de um governante. Governos que chegaram ao poder com promessas de abertura econômica só entregaram resultados quando construíram maioria parlamentar para tanto. Os que negligenciaram essa engenharia política ficaram reféns do fisiologismo ou da paralisia decisória — com efeitos diretos sobre câmbio, juros e prêmio de risco.

É legítimo, portanto, que o investidor olhe para outubro com duas perguntas simultâneas: quem governará, e com quem governará.

Perguntas frequentes

O mercado brasileiro realmente só reage no primeiro turno?

Não de forma exclusiva. O segundo turno e o período pós-eleição também geram volatilidade, mas, segundo o Bradesco BBI, a maior concentração de movimentações ocorre na apuração inicial — quando surgem as informações novas sobre o cenário congressional e sobre o desempenho real dos candidatos em relação às projeções.

As pesquisas erram com frequência no Brasil?

O relatório registra que houve surpresas relevantes em todos os pleitos presidenciais desde 2006. Isso não significa que as pesquisas sejam inúteis — elas capturam tendências e consolidam cenários prováveis —, mas que a diferença entre projeção e resultado costuma ser grande o suficiente para alterar a precificação dos ativos.

Por que o Congresso importa mais do que o presidente para os mercados?

Porque no presidencialismo brasileiro a aprovação de reformas tributárias, fiscais e regulatórias depende de maioria parlamentar. O presidente propõe, mas são os deputados e senadores que dispõem. A composição do Legislativo define o que será possível aprovar nos próximos quatro anos.

Esse comportamento é exclusivo do Brasil?

Não. Mercados emergentes em geral apresentam volatilidade elevada em ciclos eleitorais. O diferencial brasileiro está na fragmentação partidária do Congresso, que torna o cálculo de risco legislativo mais complexo do que em sistemas bipartidários.

O que o investidor pode fazer diante desse padrão?

Posicionar hedges antes do primeiro turno, evitar movimentações bruscas baseadas exclusivamente em projeções de sondagem e diversificar a leitura de risco entre cenário presidencial e cenário parlamentar. Também vale acompanhar com atenção os sinais de composição das bancadas partidárias nas primeiras horas após a apuração.

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