Faltando poucas semanas para a abertura das urnas no primeiro turno das eleições presidenciais, o relatório do Bradesco BBI assinado pelos estrategistas Pedro Grimaldi e Ben Laidler traz uma conclusão contraintuitiva para o investidor brasileiro: o que de fato movimenta os ativos não é quem vence, mas o descolamento entre o que as pesquisas projetavam e o que as urnas entregam. A distinção importa — e muito — porque redefine como se lê o calendário eleitoral.
O argumento central: mercados precificam surpresa, não vencedor
Ao analisar os cinco últimos ciclos presidenciais — de 2006 a 2022 —, o banco concluiu que as maiores oscilações dos ativos brasileiros se concentraram em torno da apuração do primeiro turno, e não na definição do campeão no segundo. A justificativa é técnica: o mercado trabalha com informação, e a informação verdadeiramente nova aparece na primeira rodada.
O raciocínio é simples, mas raramente é colocado nesses termos. Até o fechamento das urnas no primeiro domingo, o investidor opera com base em cenários probabilísticos construídos sobre pesquisas, fundamentos e expectativas embutidas em preços. Quando os números oficiais rompem esse consenso — para cima ou para baixo —, surge o gatilho para realocação imediata de portfólio. O segundo turno, em geral, apenas confirma uma tendência já precificada.
Por que o Congresso importa mais do que o nome na cadeira
Há um ponto do relatório que merece leitura atenta além do que está escrito: a correlação de forças no Congresso Nacional surge como variável decisiva. Não é por acaso. Do ponto de vista do investidor, o presidente da República é importante, mas é no Legislativo que se decidem as votações sobre reforma tributária, marco regulatório, disciplina fiscal e parcerias público-privadas — exatamente o conjunto de matérias que define o retorno esperado de longo prazo sobre o capital alocado no país.
Um primeiro turno que entrega uma composição parlamentar radicalmente diferente do projetado pelas pesquisas redesenha o tabuleiro da governabilidade antes mesmo do segundo turno. O mercado, que precifica risco, ajusta posições com base nessa nova fotografia institucional. O nome do vencedor, isoladamente, é menos relevante do que o arcabouço político que ele herda para governar.
O padrão de erro das pesquisas desde 2006
O relatório destaca que em todos os pleitos presidenciais desde 2006 houve surpresas relevantes entre o que as pesquisas indicavam e o resultado das urnas. Dois exemplos citados pela InfoMoney ajudam a dimensionar:
- 2006: as sondagens chegaram a indicar a possibilidade de vitória em primeiro turno, mas a disputa foi para o segundo turno.
- 2010: uma candidatura de terceira via teve desempenho muito superior ao projetado, ajudando a forçar nova rodada de votação.
Esse histórico tem uma leitura que vai além do mercado financeiro. Pesquisas eleitorais são instrumentos imperfeitos em qualquer democracia, mas a recorrência brasileira sugere algo mais estrutural: o eleitor brasileiro combina, em momentos decisivos, voto útil, voto de protesto e voto volátil de uma forma que desafia modelos estatísticos calibrados sobre comportamento passado. Para o analista de centro-direita, há ainda uma dimensão adicional: o sistema de votação, com segundo turno obrigatório, amplifica o peso de erros de leitura no primeiro turno — é na primeira rodada que se decide, na prática, quem terá base parlamentar e quem precisará negociar desde a desvantagem.
O que isso significa para quem investe e para quem governa
Há uma consequência prática quase imediata para o investidor. Estratégias de hedge, posições defensivas e realocações de portfólio não podem se basear exclusivamente no cenário-base das pesquisas. O relatório do Bradesco BBI, nesse sentido, reforça uma regra antiga do mercado brasileiro: a volatilidade eleitoral é estrutural, não contingente. Quem opera esperando linearidade entre intenção de voto e preço de ativo opera contra a história.
Há também uma lição para o campo político. Governos que dependem de choque de previsibilidade — baseados em promessas de "normalidade institucional" — descobrem, a cada ciclo, que a única normalidade verificável é a da volatilidade. Da ótica liberal-conservadora, a saída de longo prazo passa pela redução do prêmio de risco embutido no Brasil, o que exige regras fiscais críveis, segurança jurídica estável e um marco regulatório que não seja refém de maiorias parlamentres flutuantes. Sem isso, cada ciclo eleitoral repetirá o padrão descrito pelos estrategistas do BBI: mercados tensos, alocações defensivas e, ao final, ajuste fiscal e reformas empurrados para a janela que se abre entre a posse e o primeiro ano de mandato — quando a composição do Congresso ainda está fresca.
Por que isso importa
O leitor que não opera na bolsa pode indagar por que a reação dos mercados importa para além do circuito financeiro. A resposta é direta: taxa de câmbio, curva de juros e prêmio de risco soberano afetam o custo do crédito, o preço de alimentos e combustíveis importados, o orçamento público e, em última instância, o espaço que o próximo governo terá para executar políticas.
Um primeiro turno que surpreende para um lado mais reformista tende a reduzir o custo de financiamento do Tesouro e a abrir margem para agenda liberal no Congresso. Uma surpresa na direção contrária tende a ampliar o prêmio de risco e a pressionar a curva de juros — cenário que historicamente empurra o Executivo para o expediente conhecido de pedalar gastos, atrasar desembolsos e, no limite, propor elevação de carga tributária. Para o contribuinte, a diferença entre um cenário e outro não é abstrata: aparece no boleto, no spread bancário e na inflação de serviços.
O relatório do Bradesco BBI, portanto, não é apenas um estudo técnico de mercado. É um lembrete institucional sobre como o Brasil, a cada quatro anos, decide em duas noites — a do primeiro e a do segundo turno — algo que, em países com regras fiscais mais sólidas e sistemas eleitorais distintos, leva meses de negociação transparente.
Perguntas frequentes
O mercado realmente reage mais ao primeiro turno do que ao vencedor?
Segundo o relatório do Bradesco BBI analisando 2006–2022, sim: as maiores movimentações de ativos brasileiros ocorreram em torno da apuração do primeiro turno, e não da definição do presidente. A explicação é que a primeira rodada traz informação nova, enquanto o segundo turno tende a confirmar cenário já precificado.
Por que a composição do Congresso importa mais do que o nome do presidente?
Porque é no Legislativo que se aprovam as matérias que definem o ambiente de negócios: reforma tributária, marco regulatório, disciplina fiscal e regras para concessões e parcerias. Um presidente sem base parlamentar enfrenta o mesmo custo de governabilidade independentemente de sua orientação política.
As pesquisas eleitorais brasileiras são pouco confiáveis?
O histórico recente sugere que sim, de forma recorrente. O relatório destaca surpresas relevantes em todos os pleitos presidenciais desde 2006. Erros sistemáticos não são apenas falha pontual de institutos: indicam a dificuldade de modelar um eleitor que combina voto útil, voto de protesto e movimentos tardios de última hora.
Esse padrão de volatilidade é exclusivo do Brasil?
Não. Ele é intensificado por características institucionais brasileiras: sistema presidencialista com segundo turno obrigatório, alta fragmentação partidária, regras fiscais frequentemente alteradas e ciclos curtos entre eleições. Países com regras mais estáveis tendem a apresentar menor volatilidade eleitoral nos mercados.
O investidor comum deve fazer algo com base nesse relatório?
O investidor de varejo deve evitar alocações concentradas baseadas em cenários pré-eleitorais e considerar que a volatilidade tende a aumentar nas semanas que antecedem o primeiro turno. Diversificação e horizonte de longo prazo continuam sendo a defesa mais sólida contra o padrão descrito pelos estrategistas.
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