O dinheiro público no centro da investigação — e não o filme em si
O ministro do Supremo Tribunal Federal Flávio Dino autorizou nesta quarta-feira (26) o compartilhamento com a Polícia Federal de informações coletadas pela Polícia Civil de São Paulo na Operação Wi-Fi, que tem como alvo a ONG Instituto Conhecer Brasil (ICB) e sua dona, Karina Gama, sócia da produtora Go UP, responsável pelo filme Dark Horse sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. A decisão, segundo o portal Terra.com.br, transfere para a PF o acesso a computadores, celulares, documentos contábeis, notas fiscais e registros financeiros apreendidos no instituto.
Embora a ligação com o documentário atraia a atenção midiática — trata-se de obra de viés declaradamente crítico a Bolsonaro —, o núcleo duro da apuração é financeiro. A Polícia Civil paulista investiga suspeita de fraude em contrato firmado entre a Go UP e a Prefeitura de São Paulo, no valor de R$ 108 milhões por ano. Em paralelo, o STF conduz inquérito para apurar se emendas parlamentares podem ter sido usadas para financiar a produção do filme.
São duas frentes distintas, com objetos diferentes, mas que se cruzam no mesmo endereço: o instituto e a produtora de Karina Gama. É esse cruzamento — não a obra cinematográfica em si — que justifica a mobilização simultânea de Polícia Civil, Polícia Federal e Supremo.
Quem faz o quê nesta história
- Instituto Conhecer Brasil (ICB): ONG administrada por Karina Gama. Foi alvo de busca e apreensão no âmbito da Operação Wi-Fi.
- Go UP: produtora responsável pelo filme Dark Horse, da qual Karina Gama também é sócia. Figura como contraparte do contrato de R$ 108 milhões/ano com a Prefeitura de São Paulo.
- Operação Wi-Fi: investigação da Polícia Civil de São Paulo focada no contrato com a gestão municipal paulistana.
- Inquérito no STF: apuração sobre o eventual uso de emendas parlamentares para financiar a produção cinematográfica.
- Flávio Dino: ministro do STF, responsável por determinar o compartilhamento dos dados com a PF.
O contrato com a Prefeitura de São Paulo: o ponto de partida real
É preciso separar, com nitidez, os dois eixos. O primeiro é contratual: a Polícia Civil suspeita de fraude em um acordo firmado entre a Go UP e a Prefeitura de São Paulo, no valor de R$ 108 milhões anuais. Para uma produtora, mesmo uma com ambições editoriais relevantes, trata-se de montante expressivo, capaz de sustentar toda uma estrutura institucional e de produção.
Para esta análise, três perguntas precisam de resposta antes que se fale em abuso: qual foi o objeto do contrato, qual foi a contraprestação efetivamente entregue e houve ou não licitação competitiva? O texto do Terra.com.br não traz esses detalhes — e a ausência, neste momento, não é necessariamente omissão da fonte, mas reflexo do estágio inicial da investigação. Registrar essa lacuna é parte do rigor analítico: sem o objeto contratual claro, qualquer conclusão sobre o uso do dinheiro público seria prematura.
De todo modo, da perspectiva de quem se preocupa com o uso do dinheiro do contribuinte, o valor já justifica atenção. Não se trata, aqui, de presumir culpa; trata-se de cobrar transparência sobre um contrato de oito dígitos anuais envolvendo empresa privada e poder público municipal.
Emendas parlamentares e filme: o outro fio
O segundo eixo é o que torna o caso politicamente sensível: a suspeita de que emendas parlamentares — recursos do Orçamento da União indicados por deputados e senadores — possam ter sido direcionadas à produção de Dark Horse.
Este ponto merece ser tratado com cuidado. O argumento mais forte em defesa da investigação é simples: verba de emenda é verba pública. Se ela foi empregada para financiar uma obra cinematográfica com viés editorial declarado — no caso, crítico ao ex-presidente Bolsonaro —, há pelo menos duas ordens de questão a discutir.
A primeira é de princípio: é legítimo usar dinheiro público para sustentar narrativas políticas específicas? A segunda, mais técnica, é procedimental: houve indicação formal de emenda, houve empenho, houve liquidação, houve prestação de contas? O dinheiro seguiu o rito ou foi redirecionado por caminhos paralelos?
Há, é claro, a versão em defesa dos investigados, que precisa ser apresentada em sua forma mais forte antes de qualquer avaliação: emendas parlamentares são instrumentos legais de execução orçamentária e, em tese, podem ser destinadas a finalidades culturais, educativas e de comunicação, desde que observados os trâmites legais. Filmes, documentários e produtos audiovisuais já foram objeto de fomento público em diferentes momentos da história brasileira. A crítica, portanto, não pode ser genérica ao fomento cultural — precisa recair sobre indícios concretos de irregularidade ou de direcionamento ideológico fora do rito.
Por que o compartilhamento para a PF é relevante
Até aqui, a Operação Wi-Fi corre na esfera estadual — Polícia Civil de São Paulo, com competência sobre crimes praticados no estado. O inquérito sobre emendas parlamentares, por sua vez, está no STF, provavelmente por conexão com parlamentares federais com foro ou por entendimento de que a apuração envolve interesse federal direto.
A decisão de Dino de repassar à PF o material apreendido pela Civil paulista cria uma ponte institucional. Isso tem consequências práticas: a PF, por sua estrutura e alcance, pode aprofundar diligências que a Civil paulista não conseguiria — acesso a sistemas federais, bancos, registros de emendas, contratos com a União.
Há, inevitavelmente, uma dimensão política a observar. O ministro Flávio Dino acumula decisões de grande repercussão desde sua chegada ao STF, e a gestão de inquéritos sensíveis passou a ser parte do debate público sobre o papel da Corte. Para esta análise, o ponto relevante é outro: o compartilhamento de provas entre polícias é prática rotineira quando há interesse federativo convergente, e a leitura de que se trata de "politização" só se sustenta se houver, concretamente, desvio de finalidade. Até o momento, a reportagem do Terra.com.br não indica isso.
Por que isso importa
Três consequências práticas podem ser acompanhadas a partir de agora:
- Para a Prefeitura de São Paulo: se confirmadas as suspeitas sobre o contrato de R$ 108 milhões, abre-se um flanco político e administrativo relevante para a gestão municipal, independentemente de sua coloração partidária. Contratos vultosos com entidades privadas pedem auditoria e prestação pública de contas.
- Para o Congresso: o eventual uso de emendas para produção cinematográfica reabre a discussão sobre a transparência da execução orçamentária e o controle das indicações individuais de parlamentares. É um tema que tende a retornar ao debate sobre o orçamento impositivo e a governança das emendas.
- Para a opinião pública: a cobertura midiática tende a girar em torno do filme e da polarização política, mas o cerne da apuração é financeiro. Quem se limita a discutir o conteúdo da obra ou a biografia de Bolsonaro perde de vista o que está realmente em jogo — e quem paga a conta é o contribuinte.
Perguntas frequentes
A operação mira o filme em si?
Não diretamente. O que está sob investigação é o contrato da produtora Go UP com a Prefeitura de São Paulo e o eventual uso de emendas parlamentares na produção. O filme é o contexto, não o objeto principal da apuração.
Quem é Karina Gama?
Conforme o Terra.com.br, ela é dona do Instituto Conhecer Brasil e sócia da Go UP, a produtora de Dark Horse. É a pessoa que conecta a ONG investigada e a empresa contratada pela prefeitura.
Por que o STF está envolvido se a Polícia Civil de SP já atua?
Há um inquérito específico no Supremo sobre emendas parlamentares, foro e competência federal. O ministro Flávio Dino autorizou que dados colhidos pela Polícia Civil paulista sejam compartilhados com a PF, que conduz a apuração sob coordenação da Corte.
O valor de R$ 108 milhões é anual?
Sim, segundo a reportagem. É o valor anual do contrato entre a Go UP e a Prefeitura de São Paulo sob suspeita da Polícia Civil.
O que ainda não se sabe?
O objeto exato do contrato, a existência de licitação, o eventual destino de emendas e o conteúdo completo do material apreendido. A reportagem registra que o Terra tentou contato com Karina Gama, sem retorno até o fechamento.
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