O Supremo Tribunal Federal, por meio do ministro Flávio Dino, autorizou o compartilhamento com a Polícia Federal dos materiais apreendidos na Operação Wi-Fi — inquérito da Polícia Civil de São Paulo que mira a ONG Instituto Conhecer Brasil (ICB) e a produtora Go Up, responsáveis pelo filme "Dark Horse", produção que narra a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro. Em tese, trata-se de um ato processual rotineiro: dois inquéritos, instâncias distintas, provas que se cruzam. Na prática, o caso reúne ingredientes que o centro-direita brasileiro costuma (com razão) considerar preocupantes — dinheiro público em volume relevante, uso potencial de emendas parlamentares e um produto cultural de conteúdo explicitamente político. Por isso a análise, e não a manchete, é o que interessa aqui.
Os atores e o desenho institucional
Três instituições convergem sobre o mesmo material, e convém distingui-las antes de qualquer juízo de valor:
- Polícia Civil de São Paulo — conduz a Operação Wi-Fi, apura indícios de fraude em contrato firmado entre a Go Up e a Prefeitura de São Paulo, no valor declarado de R$ 108 milhões por ano, conforme o portal Terra.com.br.
- STF — gabinete do ministro Flávio Dino — comanda um inquérito que investiga a origem do financiamento do longa "Dark Horse", em particular se emendas parlamentares teriam sido usadas para alimentar a produção.
- Polícia Federal — agora destinatária do compartilhamento, com capacidade de investigação que vai além das fronteiras estaduais.
Flávio Dino é nome conhecido da política nacional: ex-governador do Maranhão pelo PCdoB, ex-ministro da Justiça no início do governo Lula e ministro do STF desde 2023, indicado pelo presidente da República. Esse perfil não é, por si, prova de nada — mas é parte do contexto que qualquer observador atento registra ao ler a decisão. O fato de o magistrado responsável por um inquérito ligado à figura de Bolsonaro ser um nome historicamente identificado com a esquerda partidária é, no mínimo, informação relevante para avaliar o peso político do processo.
Os dois eixos da apuração
O contrato com a Prefeitura de São Paulo
O objeto mais sensível está na ponta municipal. Segundo a reportagem do Terra, a Polícia Civil investiga suspeita de fraude em contrato da produtora Go Up — da qual Karina Gama é sócia e, simultaneamente, proprietária da ONG Instituto Conhecer Brasil — com a Prefeitura de São Paulo. O valor anual declarado, R$ 108 milhões, é expressivo o suficiente para justificar, por si só, uma apuração cuidadosa, independentemente do lado político de quem assina o cheque. Não existe, em um regime republicano, contrato dessa magnitude que não mereça controle.
Ainda que as circunstâncias exatas do contrato (objeto, vigência, contraprestações) não tenham sido detalhadas na fonte, o que se sabe já basta para colocar a lupa sobre a operação: uma ONG e uma produtora cinematográfica vinculadas à mesma pessoa jurídica recebendo recursos vultosos do Poder Público municipal.
As emendas parlamentares e o filme
O segundo eixo é federal e talvez o mais politicamente carregado. O inquérito no STF apura se emendas parlamentares — recursos do Orçamento da União indicados por deputados e senadores — podem ter abastecido a produção do longa sobre Bolsonaro. Emendas parlamentares, vale recordar, são dinheiro do contribuinte: saem dos cofres públicos, são carimbadas por parlamentares e, em geral, executadas por estados e municípios. Nos últimos anos, o instrumento foi alvo de críticas crescentes por opacidade, fragmentação e baixo controle de destino.
Se emendas parlamentares foram direcionadas, ainda que indiretamente, para a produção de um filme de viés partidário, há aí um problema de natureza diferente do fraude contratual. Trata-se do uso de recursos públicos para financiamento de conteúdo político — exatamente o tipo de crossover entre máquina estatal e mensagem ideológica que a tradição liberal-conservadora brasileira tem boas razões para vigiar.
Por que isso importa agora
Três consequências práticas já podem ser desenhadas, todas a partir do fato e do contexto institucional — não de especulação:
- Para o controle do gasto público. O caso oferece uma oportunidade concreta de testar a efetividade do aparato de fiscalização brasileiro sobre contratos milionários firmados por prefeituras com entidades do terceiro setor. Se a investigação confirmar irregularidade, o efeito prático — responsabilização administrativa, ressarcimento, eventual rescisão — é o que interessa ao contribuinte, mais do que o aspecto simbólico.
- Para a discussão sobre emendas parlamentares. Oitivas e perícias resultantes desse compartilhamento podem reabrir o debate sobre rastreabilidade de emendas. Parlamentares de diferentes partidos costumam defender publicamente a "destinação livre" de emendas; investigações como essa pressionam o Congresso a se posicionar sobre limites efetivos.
- Para a credibilidade institucional. Há risco político nos dois sentidos. Se o caso for usado como pretexto para criminalizar produção cultural crítica ao establishment, será um problema. Se for tratado como mera perseguição a adversários, também. O caminho civilizado é o da apuração técnica, com transparência ativa sobre o que foi encontrado — algo que depende mais da Polícia Federal e do Ministério Público do que do próprio STF.
Vale registrar, em nome da honestidade intelectual, a versão mais forte da tese contrária: a de que a operação mira, na prática, a narrativa sobre Bolsonaro, e que o uso conjunto de Polícia Civil estadual, STF e Polícia Federal configura uma reação desproporcional do aparato estatal a um filme. Trata-se de uma leitura possível, e este texto não a descarta. Mas ela precisa ser confrontada com um fato simples: contratos de R$ 108 milhões anuais e financiamentos milionários a produções comendon Político-partidárias não são, em si, expressões legítimas de debate público — são, no mínimo, objetos legítimos de auditoria.
O que ainda falta saber
Até a publicação da reportagem no Terra, a reportagem tentava contato com Karina Gama, e o material apreendido aguardava análise. Sem acesso aos documentos contábeis, notas fiscais e registros financeiros recolhidos em busca e apreensão, qualquer conclusão firme seria prematura. É razoável esperar, nas próximas semanas, três tipos de desdobramento:
- comunicados oficiais da Prefeitura de São Paulo sobre o contrato e sua eventual execução;
- manifestação da defesa da Go Up e do Instituto Conhecer Brasil;
- eventuais diligências da Polícia Federal com base no material compartilhado, que podem chegar a parlamentares — caso se confirme o caminho das emendas até a produção.
O eixo de interesse público, em qualquer cenário, permanece o mesmo: rastrear o dinheiro. De onde veio, para onde foi, e o que o cidadão recebeu em troca. É disso que se trata.
Perguntas frequentes
Quem é Flávio Dino e por que ele comanda esse inquérito? É ministro do STF desde 2023, indicado pelo presidente Lula. Compete ao gabinete sorteado ou ao relator designado no Supremo a condução de inquéritos que envolvam, entre outros, parlamentares com foro. Flávio Dino, segundo a reportagem, foi o responsável por determinar o compartilhamento das provas com a Polícia Federal.
O que é a Operação Wi-Fi? É uma operação da Polícia Civil de São Paulo que investiga suspeita de fraude em contrato entre a Prefeitura de São Paulo e a produtora Go Up, avaliado em R$ 108 milhões por ano, com vínculos à ONG Instituto Conhecer Brasil.
Por que o filme "Dark Horse" virou alvo de investigação? Porque há um inquérito no STF apurando se emendas parlamentares — dinheiro público do Orçamento da União — teriam sido usadas para financiar a produção. A confirmação ou não dessa rota é o ponto central da apuração.
Karina Gama exerce algum cargo público? Não há, na reportagem do Terra, indicação de cargo público. Ela aparece como dona da ONG Instituto Conhecer Brasil e sócia da Go Up, a produtora do filme.
O que acontece a partir do compartilhamento com a Polícia Federal? A PF passa a ter acesso a computadores, celulares, documentos contábeis, notas fiscais e registros financeiros apreendidos. A partir daí, podem ser abertas linhas de investigação próprias, realizadas perícias e, eventualmente, encaminhamentos ao Ministério Público Federal.
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