Zelensky entre a guerra e a urna: o dilema democrático que redesenha o conflito
O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, classificou como "tsunami" a hipótese de realizar eleições enquanto o país estiver sob lei marcial, em meio à invasão russa iniciada em 2022. A declaração, dada a jornalistas no sábado, 22, conforme relatou o portal Abril.com.br, joga luz sobre um impasse que vai muito além da política interna ucraniana: trata-se da tensão entre continuidade do esforço de guerra e legitimidade democrática em um país que segue formalmente em guerra total.
O quadro institucional: por que não há eleições desde 2022
A Ucrânia suspendeu o calendário eleitoral logo após a invasão russa, com a decretação da lei marcial. Não se trata de uma decisão unilateral de Zelensky sem controle: o regime de exceção tem base constitucional e foi referendado pelo Parlamento de Kiev, o Rada Suprema. Mandatos foram prorrogados, e o funcionamento regular das instituições foi adaptado ao estado de beligerância.
Esse arranjo, contudo, carrega um custo democrático acumulado. A cada mês sem voto, cresce a pergunta — feita dentro e fora da Ucrânia — sobre quando e como a soberania popular será exercida. Não é uma pergunta retórica: ela define a natureza do regime que Zelensky afirma defender.
Fedorov, o agitador que muda o tabuleiro
O ex-ministro da Defesa Mykhailo Fedorov saiu do governo após defender abertamente mudanças nas Forças Armadas e o uso massivo de drones, linha que o tornou popular entre militares e parcela expressiva da opinião pública. Sua demissão provocou protestos em Kiev e aprofundou uma crise política que já convivia com o peso da guerra.
Ao defender eleições presidenciais em plena lei marcial, Fedorov não anunciou candidatura — sua equipe limitou-se a confirmar uma viagem aos Estados Unidos nos próximos dias, o que, na prática, alimenta especulações. Mas o gesto tem efeito político imediato: devolve o tema da sucessão ao centro do debate e abre uma frente de pressão sobre Zelensky vinda de dentro da própria estrutura governamental, não apenas de Moscou ou Washington.
Trata-se de um movimento clássico de política competitiva em momento de fragilidade do incumbente: um ator com base eleitoral própria usa uma bandeira institucional — a urgência do voto — para se reposicionar.
Por que Putin e Trump convergem, por motivos opostos
Segundo a reportagem da Abril.com.br, tanto o presidente russo Vladimir Putin quanto o americano Donald Trump defenderam a realização de eleições na Ucrânia mesmo com os ataques russos em curso. A coincidência de posição é menos surpreendente do que parece quando se analisa o interesse de cada lado:
- De Moscou, eleições em plena guerra oferecem três janelas: desgaste político de Zelensky, eventual ascensão de um governante mais favorável à negociação e — sobretudo — abertura de um ciclo de disputa interna que distraia o comando militar ucraniano.
- De Washington, a leitura é outra. Trump tem reiterado a intenção de encerrar rapidamente o conflito, e um governo ukrainiano fragilizado politicamente tende a aceitar termos menos favoráveis. Para a Casa Branca, eleições não são um valor em si neste cálculo, mas um instrumento a serviço de uma estratégia de saída.
A convergência entre um adversário declarado e um aliado estratégico, ainda que por motivos distintos, é o que torna o tema explosivo dentro da Ucrânia.
O que diz a população — e o que ela está dizendo de fato
Uma pesquisa de opinião citada pela Abril.com.br indica que apenas 15% dos ucranianos defendem eleições antes do fim da guerra. A maioria, portanto, sustenta a prioridade do esforço bélico. Mas esse número merece leitura cuidadosa. Pesquisas em países sob ataque refletem, em primeiro lugar, a disposição de sobreviver; em segundo, a avaliação do líder de guerra. Quando a maré virar, o mesmo instituto pode registrar movimento oposto.
Zelensky sabe disso. Sua declaração — "se quisermos destruir o país, podemos optar por realizar eleições em tempos de guerra" — não é apenas defensiva: é uma tentativa de antecipar o debate, fixando o custo político de qualquer ruptura interna como algo próximo da derrota nacional.
Por que isso importa
Este episódio não é apenas uma notícia sobre a Ucrânia. Ele expõe três pontos que afetam diretamente a forma como democracias ocidentais pensam seu próprio funcionamento sob pressão.
1. Suspensão eleitoral prolongada corrói a legitimidade, mesmo quando é constitucional
Lei marcial é um instrumento legítimo, mas temporário. Cada mês a mais sem voto weakens o argumento de que se está defendendo uma democracia. Zelensky tem razão ao temer a divisão interna — divisões se alimentam da percepção de que a suspensão é cómoda para quem está no poder. Para esta análise, o ponto crítico é o seguinte: não há solução institucional limpa que dispense simultaneamente segurança nacional e prestação de contas ao eleitorado.
2. A oposição interna é sinal de vitalidade — e de risco
Fedorov representa algo que Zelensky precisava evitar neste momento: uma alternativa política viável dentro do bloco governista. Em democracias saudáveis, isso é rotina. Em guerra, é ameaça existencial ao esforço militar, porque pode reorientar energia política da trincheira para o comício. Cabe aos leitores separar duas coisas distintas: Fedorov pode ser um democrata convicto defendendo o que toda democracia deve ter — e, ainda assim, sua ação pode ser explorada por Moscou.
3. A convergência entre Trump e Putin é um sinal de alerta para o Ocidente
Quando o adversário e o principal aliado chegam ao mesmo ponto por trajetórias opostas, o tema deixa de ser doméstico e vira geopolítico. Para o Brasil — que acompanha a guerra à margem, mas cujas posições em fóruns multilaterais são crescentemente cobradas —, o episódio lembra que pressões externas por "normalidade democrática" nem sempre são desinteressadas.
Perguntas frequentes
A Ucrânia pode realizar eleições durante a lei marcial?
A Constituição ucraniana proíbe eleições sob regime de exceção. Alterar isso exigiria decisão do Rada Suprema em um cenário de guerra, o que é politicamente improvável no curto prazo, segundo o que se pode inferir do quadro descrito pela Abril.com.br.
Quem é Mykhailo Fedorov?
Ex-ministro da Defesa da Ucrânia, conhecido por defender o uso de drones e exigir mudanças nas Forças Armadas. Ganhou popularidade entre militares e parte da população. Saiu do governo após cobrar essas mudanças e agora voltou ao centro do debate ao defender eleições presidenciais.
Por que Putin e Trump defendem eleições na Ucrânia?
Putin por motivos estratégicos — divisão interna, desgaste de Zelensky e possíveis términos de guerra em termos favoráveis a Moscou. Trump porque quer encerrar rapidamente o conflito e vê em uma liderança ukrainiana mais frágil um interlocutor mais maleável. Ambos convergem na posição, não na motivação.
Zelensky pode perder o cargo sem eleições?
Não pelos mecanismos ordinários enquanto vigorar a lei marcial. Sua permanência depende, na prática, da sustentação parlamentar, da lealdade das Forças Armadas e, crescentemente, do apoio dos Estados Unidos e da União Europeia. O risco político é real, mas o risco institucional imediato é limitado.
Esse cenário tem paralelo com o Brasil?
Não diretamente. O Brasil não está sob lei marcial nem em guerra convencional. Mas o debate sobre limites ao poder de exceção, sobre prorrogação de mandatos e sobre interferência externa em processos eleitorais permanece atual e instrutivo como referência comparativa — sem equivalência automática.
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