A ascensão da AfD não é um acidente: é o sinal mais agudo de uma fratura no consenso alemão
Segundo o portal BBC News, o partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD) lidera com folga as intenções de voto na Saxônia-Anhalt, onde eleições estaduais ocorrem em 6 de setembro. Não se trata de uma disputa regional qualquer. A legenda coloca no centro da campanha uma proposta politicamente explosiva: tratar a chamada Erinnerungskultur — a cultura da memória dos crimes nazistas — como um "complexo de culpa" a ser desmontado, com cortes no financiamento de arte considerada "anti-alemã" e redução do ensino sobre Hitler nas escolas.
O movimento importa porque, se confirmado nas urnas, encerra um ciclo de oito décadas no qual o reconhecimento do nazismo funcionou como alicerce moral e diplomático da República Federal. Mais do que isso: expõe uma fratura geracional, regional e ideológica que já se anunciava nas últimas três legislaturas e que nenhuma das coalizões de Berlim soube responder a tempo.
Por que a "cultura da memória" tem peso institucional
Para um leitor brasileiro acostumado a debates sobre memória histórica menos institucionalizados, vale contextualizar: na Alemanha, a Erinnerungskultur não é mera disciplina escolar nem exercício museológico. É parte do que os alemães chamam de Staatsräson — razão de Estado. Sustenta políticas exteriores, posicionamento em organismos multilaterais, cooperação com Israel e, internamente, o próprio desenho curricular dos Länder.
Em outras palavras: o que a AfD propõe revisar não é uma "versão da história" disputada por historiadores acadêmicos, mas um pilar de identidade nacional construído deliberadamente ao longo de gerações. É como se, no Brasil, uma legenda vencesse uma disputa estadual propondo reescrever de cima a baixo o conteúdo que ensina a transição de 1985 ou o papel das Forças Armadas — com voto de bancada para isso.
O que a AfD efetivamente propõe
A BBC destaca três pontos do manifesto da legenda para a Saxônia-Anhalt:
- Desclassificar a cultura da memória alemã como "complexo de culpa" — ou seja, como instrumento de auto-flagelo coletivo, e não como ferramenta educativa.
- Cortar financiamento público para manifestações artísticas e culturais definidas como "anti-alemãs", o que na prática abre margem para classificação ideológica do que recebe e do que deixa de receber recursos.
- Reduzir o espaço dedicado ao ensino sobre Hitler e o Terceiro Reich nas escolas, sob o argumento de que a "constante repetição" do tema seria contraproducente.
O detalhe mais revelador da reportagem não está, porém, no manifesto. Está na fala do apoiador Gerd, 70 anos, em comício na cidade de Querfurt: "Não se pode apagar a história, mas a Segunda Guerra Mundial não tem mais nada a ver conosco." Um senhor que viveu a infância na própria Alemanha pós-1945 afirma, em público, que a guerra já não diz respeito à geração dele. É exatamente a desconexão entre experiência vivida e transmissão histórica que o establishment político alemão vinha ignorando.
A geografia eleitoral: por que o Leste de novo
A Saxônia-Anhalt não é um estado qualquer. Foi território da RDA, onde a memória do nazismo foi por décadas substituída pela narrativa antifascista oficial do regime comunista — e, depois da reunificação, sobreposta por uma pedagogia vinda de Bonn que muitos leste-alemães nunca digeriram inteiramente.
O resultado é conhecido de quem acompanha a política europeia: a AfD tem desempenho sistematicamente superior nos Länder orientais — Saxônia, Brandemburgo, Turíngia, Saxônia-Anhalt. É também nos estados do Leste que o partido já conseguiu entrar em coalizões pontuais e onde a CDU (centro-direita tradicional) mais tem oscilado entre ceder e isolar. O mapa eleitoral alemão está, há quase uma década, desenhando uma divisão que lembra — guardadas as proporções — a clivagem entre Oeste e Leste da União Europeia ampliada.
O dilema para o centro-direita clássico
Para uma análise de centro-direita como esta, o caso é instrutivo por uma razão específica: força a distinção entre ceticismo legítimo em relação a narrativas oficiais e revisionismo que as instrumentaliza para fins políticos.
O ceticismo, em si, é parte da tradição liberal-conservadora. Existe uma pergunta razoável — feita por historiadores sérios — sobre quando uma pedagogia memorialística deixa de formar consciência crítica e começa a operar como catecismo. Existe também uma pergunta fiscal legítima sobre o financiamento público de manifestações artísticas cujo mérito é definido previamente como "anti-fascista" pelo Estado. Esses pontos merecem debate.
O que a AfD propõe, contudo, não é esse debate. É o caminho inverso: trocar uma pedagogia estatal por outra pedagogia estatal, só que invertendo o sinal — do "complexo de culpa" para o que, na prática, equivaleria a um branqueamento. A proposta de cortar verbas de arte tida por "anti-alemã" não substitui o Estado tutor pelo mercado livre; apenas troca o critério político da tutela.
É aqui que o conservador de princípios precisa estar atento. Confundir "crítica ao excesso" com "negação do fato" é um atalho perigoso — e é exatamente o atalho que a AfD oferece aos seus eleitores. O apoio do aposentado Gerd, com sua bandeira desfiada na scooter, é emocionalmente compreensível e politicamente compreensível, mas intelectualmente autoenganoso: ele viveu a guerra como criança e ainda assim declara que ela "não tem mais nada a ver conosco". É o tipo de frase que só se constrói sobre décadas de silêncio bem organizado.
Por que isso importa além da Alemanha
Três ordens de consequência, mesmo para quem não é alemão.
1. Para o projeto europeu. A Alemanha é o motor institucional e fiscal da União Europeia. Uma Berlim que internaliza uma narrativa revisionista do século XX muda a sua capacidade — e a sua disposição — de sustentar a arquitetura multilateral europeia. Isso afeta diretamente parceiros como Polônia, França e, indiretamente, o Brasil nas cadeias industriais em que europeus são compradores relevantes.
2. Para o estudo dos populismos ocidentais. A AfD é caso de laboratório: um partido de extrema-direita que cresce justamente onde uma classe trabalhadora historicamente protegida por um Estado generoso (a RDA) foi depois submetida a uma modernização abrupta (a reunificação) sem que suas elites intelectuais reconhecessem publicamente o trauma. A fórmula — desindustrialização relativa, sentimento de substituição cultural e memória oficial vivida como imposição — ressoa em outros contextos ocidentais, inclusive o brasileiro.
3. Para o significado de "direita" no século XXI. A ascensão da AfD empurra a CDU para um dilema clássico: contenção (cordão sanitário, como já se tentou) ou incorporação parcial (assumir temas da agenda imigratória e identitária para recuperar eleitorado). É o mesmo dilema que partidos de centro-direita na França, Itália, Áustria e, em chave distinta, nos Estados Unidos vêm enfrentando. O resultado na Saxônia-Anhalt em setembro será lido como termômetro.
Perguntas frequentes
A AfD é de "extrema-direita"? É a mesma coisa que conservadores como Merkel?
Não. A CDU é o partido conservador tradicional alemão, herdeiro da tradição liberal-democrata cristã do pós-guerra. A AfD é classificada pelos serviços de inteligência federais e por diversos Länder como caso suspeito de extremismo — há divergência institucional sobre o rótulo formal, mas não sobre a distância programática entre as duas agremiações.
A Saxônia-Anhalt é estado importante?
É um dos 16 Länder, com cerca de 2,1 milhões de habitantes e peso simbólico maior do que o populacional. Fica no centro-leste do país e foi peça-chave da divisão da Alemanha na Guerra Fria. Resultados aqui costumam antecipar tendências nacionais.
O que acontece se a AfD vencer?
Há o "cordão sanitário" tradicional: os demais partidos se recusam a fazer coalizão com a legenda, e ela governa a oposição parlamentar. Mas a AfD já governou pequenos municípios no Leste, e a pressão interna sobre a CDU para romper o cordão cresce a cada ciclo eleitoral.
O que é a "Erinnerungskultur"?
Literalmente, "cultura da lembrança". Designa o conjunto de práticas educacionais, museológicas, artísticas e políticas que mantém viva a memória dos crimes nazistas. Foi institucionalizada gradualmente a partir da década de 1960 e é hoje parte da identidade constitucional alemã.
O que esse caso tem a ver com o Brasil?
Em termos diretos, pouco: é política doméstica alemã. Em termos de método, muito: é um exemplo acabado de como a disputa por narrativas históricas funciona como substituto para a disputa por políticas concretas — e de como o centro político paga caro quando ignora a pergunta sobre o que está sendo ensinado nas escolas e por quê.
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