Em postagem no X neste sábado, 29, o tenente-brigadeiro Carlos de Almeida Baptista Junior, ex-comandante da Força Aérea Brasileira (FAB), classificou como "leviandade" a afirmação do senador Flávio Bolsonaro (PL) de que ele estaria pedindo votos para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A troca pública expõe um ponto sensível da corrida presidencial: o tratamento que um candidato à Presidência dispensa a depoimentos prestados por comandantes militares ao Supremo Tribunal Federal (STF) sobre a tentativa de ruptura institucional registrada no fim do governo Jair Bolsonaro.
O incidente ocorreu em meio à sabatina da TV Globo de sexta-feira, 28, quando Flávio foi perguntado sobre os relatos de ex-comandantes — entre eles Baptista — que descreveram ao STF pressões para que as Forças Armadas aderissem a um plano de ruptura. Segundo o portal Terra.com.br, a resposta do senador foi classificar Baptista como "fazendo campanha para Lula". O ex-comandante reagiu no dia seguinte.
Quem é Baptista Junior e por que sua palavra pesa
Baptista Junior comandou a Aeronáutica no período crítico que vai do segundo turno de 2022 até a posse de Lula, em janeiro de 2023. Nos depoimentos prestados ao STF, relatou ter resistido a pressões internas para que a FAB se somasse ao que as investigações classificam como tentativa de ruptura institucional. Sua versão está registrada em ata judicial — não em postagem de rede social nem em artigo de opinião.
O ex-comandante também é autor do livro "Eu Disse Não! Uma trincheira antigolpista", lançado pela Autêntica Editora, no qual narra os bastidores da crise e as pressões enfrentadas pelos militares à época. É fonte primária: estava na cadeira de comando quando as decisões foram tomadas e quando as ordens foram — ou não foram — cumpridas.
O movimento político de Flávio
O trecho mais revelador da resposta de Baptista não é a defesa pessoal, mas a leitura que ele faz da estratégia de Flávio: usar uma acusação paralela para escapar da pergunta central. Nas palavras do ex-comandante, "a leviandade [...] apresentada para não abordar a verdadeira pergunta [...] é antes de tudo uma ferramenta para fugir da responsabilidade de respondê-la".
Trata-se de técnica retórica conhecida em disputas públicas: quando uma pergunta é incômoda, deslocar o debate para um eixo mais favorável. Em vez de enfrentar o conteúdo dos depoimentos — o que foi discutido dentro das Forças Armadas, quais ordens foram dadas ou recusadas, quem sabia de quê — o senador transferiu a polêmica para o terreno da "campanha eleitoral".
Para um candidato à Presidência, o movimento carrega um risco específico: sugere que o tema é verdadeiro e que ele prefere não tratá-lo de frente. Em sabatinas com tempo curto, fugir de uma pergunta costuma custar mais caro do que respondê-la mal.
A versão mais forte a favor de Flávio
Antes de avaliar o episódio, é justo registrar o argumento na sua formulação mais sólida. Parte do campo que apoia Flávio sustenta que:
- Os depoimentos ao STF foram colhidos em contexto de pressão institucional e midiática sobre os militares, o que poderia induzir relatos alinhados à narrativa predominante;
- As investigações sobre a "tentativa de ruptura" foram amplificadas politicamente, sem que, até aqui, tenham sido apresentados à opinião pública indícios materiais inequívocos de um plano operacional concluído;
- Acusar adversários de "fazer campanha" para Lula é recurso retórico excessivo, mas não é incomum na política brasileira, exercido também pela esquerda em outros contextos.
Esses pontos merecem ser pesados. Um debate sério sobre o fim de 2022 precisa distinguir o que está documentalmente provado do que é imputação, e precisa tratar os militares como cidadãos sujeitos à lei, não como representantes automáticos de nenhum projeto político.
Feita a ressalva, a resposta de Baptista não depende de aderir a essa narrativa. Ela se sustenta em um fato simples: ele depôs sob juramento, em processo judicial, e foi chamado de "fazedor de campanha" em rede nacional. A qualidade da resposta é proporcional à qualidade do ataque — e o ataque é fraco.
Por que isso importa
Três consequências práticas saltam do episódio.
Para a corrida presidencial. Flávio aparece pela primeira vez em sabatina de grande rede tendo de lidar diretamente com o tema da ruptura institucional. A forma como escolheu responder — desqualificar o depoente em vez de enfrentar o conteúdo — será revisitada em novos confrontos. Candidatos que fogem de perguntas em sabatinas pagam o preço na semana seguinte, não no momento.
Para as Forças Armadas. A publicidade do embate aproxima da campanha um tema que a própria hierarquia militar costuma preferir tratado internamente. Ocorre em momento em que a FAB, o Exército e a Marinha vêm sendo cobrados a se posicionar publicamente sobre fatos ocorridos no fim do governo anterior. Quanto mais a disputa eleitoral invade esse terreno, mais expostas ficam as instituições — e mais elas se tornam reféns do calendário político.
Para o debate sobre a ruptura institucional. O livro de Baptista, ao qual ele próprio remete o senador ("Talvez seja prudente aguardar, ler o livro e refletir, antes de outra entrevista"), entra na campanha como documento a ser lido, comentado e desmentido. A obra se torna, na prática, peça do processo eleitoral de 2026 — independentemente da vontade do autor.
Há ainda um ponto de método que interessa a quem se preocupa com segurança jurídica e devido processo legal. O caminho institucional para apurar o que houve no fim de 2022 é o processo judicial em curso no STF, com direito à defesa, produção de provas e contraditório. Atacar testemunhas em rede social, em vez de rebater o conteúdo dos depoimentos nos autos, desvia o eixo do debate — e desvia para um lugar onde a resposta técnica é mais difícil.
Perguntas frequentes
O que exatamente Flávio disse sobre Baptista?
Segundo o portal Terra.com.br, durante a sabatina da TV Globo na sexta-feira, 28, Flávio afirmou que o ex-comandante da FAB estaria "fazendo campanha" para a reeleição do presidente Lula. A declaração foi feita quando o senador foi perguntado sobre os depoimentos de ex-comandantes das Forças Armadas ao STF relativos à tentativa de ruptura institucional no fim do governo Bolsonaro.
Quem é Carlos de Almeida Baptista Junior?
É o tenente-brigadeiro que comandou a Aeronáutica no período entre o segundo turno de 2022 e a posse de Lula, em janeiro de 2023. Prestou depoimento ao STF no qual relatou ter resistido a pressões internas para que a FAB aderisse à tentativa de ruptura institucional. É autor do livro "Eu Disse Não! Uma trincheira antigolpista", publicado pela Autêntica Editora.
A tentativa de ruptura está comprovada judicialmente?
O que existe, até o momento, são depoimentos de ex-comandantes das Forças Armadas colhidos no STF, ações penais em curso e investigações em andamento. A definição do que de fato ocorreu — incluindo eventual responsabilização criminal — depende do desfecho desses processos, com contraditório e defesa. A análise política não substitui a decisão judicial, mas pode — e deve — discutir o que já está documentado.
Por que um ex-comandante escreveu um livro sobre o tema?
Baptista Junior sustenta, no próprio lançamento, que a versão militar do que ocorreu naquele período precisava ser registrada antes que se consolidasse uma narrativa única. É, ao mesmo tempo, ato de memória institucional e tomada de posição pessoal — o que o torna alvo inevitável de contestação política, e por isso mesmo precisa ser lido com atenção crítica.
O que esse episódio sugere sobre o tom da campanha?
Sugere que o tema da ruptura institucional de 2022 será uma das linhas de força do debate até outubro. Candidatos, partidos e ex-ocupantes de cargos no governo anterior serão cobrados a se posicionar — e quanto mais o tema for tratado por desqualificação pessoal em vez de conteúdo, mais a campanha tende a se tornar dependente de polêmica e menos de proposta.
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