A Bússola NacionalAnálise política
Estados e Municípios

Caiado pressiona rivais ausentes e impõe pauta econômica

Caiado explora ausência de rivais no debate presidencial de 2022 para ancorar a corrida na agenda fiscal, com Selic, endividamento e autonomia do Banco Central.

Por Marina Cordovil · · 6 min de leitura

Caiado pressiona rivais em véspera de debate e força disputa pela agenda econômica

Quatro dias antes do primeiro debate entre candidatos à Presidência da República na corrida de 2022, o ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD) ocupou o centro da capital paulista para cobrar publicamente a presença de adversários que lideram as pesquisas de intenção de voto. Segundo o portal Terra.com.br, ele classificou como "inaceitável" a postura de quem opta por não comparecer ao confronto promovido pela TV Bandeirantes em parceria com o jornal O Estado de S. Paulo, no domingo (23). O gesto transforma a ausência em objeto de campanha nas horas que antecedem um marco do calendário eleitoral.

Quem está em jogo e por que o palco importa

O pronunciamento foi feito em coletiva no Mercado Municipal de São Paulo, acompanhado do vice em sua chapa, Gilberto Kassab. A escolha do endereço não é neutra: simbólico do comércio e do cotidiano do consumidor, o espaço foi desenhado para ancorar a pauta econômica — exatamente o filão que Caiado pretende explorar na disputa. O candidato se apresenta como alternativa ao centro do espectro, numa tentativa de capturar votos do eleitorado que rejeita tanto a atual gestão federal quanto nomes da chamada direita radical.

Do outro lado, dois adversários que comandam a disputa nas pesquisas segundo diferentes levantamentos à época — o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) — sinalizaram que não devem participar do encontro. O não comparecimento dos favoritos cria um vácuo midiático, e é justamente nesse vácuo que Caiado procura colocar luz sobre si mesmo.

O "fujão" como estratégia discursiva

Mais do que descrever uma decisão, o rótulo "fujão" busca construir um adversário de comportamento. Ao igualar a obrigação do voto — prevista na Constituição — à obrigação de participar de debates, Caiado desloca a discussão do campo da liberdade individual para o da responsabilidade pública. Não há, no ordenamento jurídico brasileiro, norma que imponha presença em debates eleitorais; a participação é voluntária e negociada diretamente entre candidatos e veículos.

A tática dialoga com uma tradição da política brasileira: candidatos que evitam debates costumam ser cobrados publicamente pela ausência. Em 2022, porém, a cobrança ocorreu em um contexto polarizado, no qual a recusa em enfrentar adversários pode ser tanto lida como pragmatismo (preservar liderança nas pesquisas) quanto como fragilidade. Ao antecipar o argumento, Caiado procura forçar o adversário a responder à acusação, mesmo que ele não esteja no mesmo palco.

Economia como campo de batalha central

A retórica econômica de Caiado acompanha uma leitura amplamente difundida em meios financeiros e em parte do Congresso: a elevação da taxa básica de juros (Selic) seria, em última instância, resposta a um quadro fiscal percebido como descontrolado pelo Banco Central, cuja autonomia foi formalizada por lei complementar em 2021.

Na coletiva, o candidato resumiu a tese em frase de efeito: "Não é o Banco Central que aumenta juros. É o governo que aumenta a gastança". A formulação, embora simplifique a arquitetura institucional — a taxa Selic é definida pelo Comitê de Política Monetária (Copom), composto por presidente e diretores da autarquia —, captura um argumento técnico recorrente: a percepção de risco fiscal influencia o prêmio exigido pelos investidores, e isso se transmite para a curva de juros.

Há, nesse ponto, uma disputa de narrativas entre o campo político que defende maior rigidez fiscal como condição para queda de juros e o campo que associa o patamar elevado da Selic à própria estrutura da dívida pública herdada de gestões anteriores. A leitura alternativa, sustentada por integrantes do atual governo e por economistas heterodoxos, enfatiza o papel da política monetária no controle da inflação e o impacto de choques externos, como a pandemia de covid-19 e a guerra na Ucrânia, como argumentos explicativos para o aperto.

Evidências disponíveis à época mostram que o endividamento das famílias brasileiras atinge patamares historicamente altos, fato citado por Caiado na coletiva. Esse dado dá materialidade à preocupação social sobre o custo do crédito, mas não encerra a discussão sobre quais políticas públicas são mais eficazes para reduzir o spread bancário e facilitar o acesso ao financiamento.

Por que isso importa

O episódio de Caiado não se limita a uma troca de farpas pré-debate. Três consequências práticas se desenham a partir do gesto:

  • Reorganização da hierarquia midiática do debate. Sem Lula e Flávio Bolsonaro presentes, o debate da Band tende a entregar mais tempo de tela a nomes intermediários — entre eles, o próprio Caiado. Quanto mais exposição qualificada um candidato recebe, maior o potencial de conversão de intenção de voto.
  • Pressão reputacional sobre os ausentes. A narrativa "fujão" construída na véspera cria um passivo simbólico que pode ser explorado ao longo da campanha. Em eventual segundo turno ou em debates futuros, a ausência anterior será referência obrigatória.
  • Ancoragem do eixo econômico como definidor da eleição. Ao deslocar a discussão para Selic, endividamento e "credibilidade fiscal", Caiado procura enquadrar os adversários no terreno que considera mais vulnerável. Para o eleitor, isso significa que temas como controle de gastos, autonomia do BC e peso da dívida pública tendem a ganhar centralidade na cobertura jornalística e nos programas de governo.

Perguntas frequentes

Existe previsão legal que obrigue candidato a participar de debates?

Não. A legislação eleitoral brasileira estabelece regras para emissoras de rádio e televisão transmitirem debates, mas não impõe presença obrigatória a candidatos. A participação é voluntária, embora, na prática, recusas sistemáticas possam gerar custos eleitorais.

Por que a ausência de Lula e Flávio Bolsonaro em um debate é relevante?

Porque os debates são um dos raros espaços em que os candidatos são confrontados simultaneamente por adversários e jornalistas, com repercussão em tempo real. Quem lidera as pesquisas e se ausenta transfere a atenção para concorrentes, abrindo espaço para que nomes de menor intenção de voto ampliem exposição.

O que Caiado quis dizer ao atribuir a alta de juros à "gastança" do governo?

O candidato sustentou que a percepção de risco fiscal pesa na decisão do Banco Central sobre a taxa básica. A leitura oposta, comum entre economistas heterodoxos, atribui a alta de juros principalmente ao combate à inflação e a fatores externos, e não exclusivamente ao gasto público.

Quem é Gilberto Kassab, citado como vice na chapa?

Segundo o portal Terra.com.br, Kassab foi apresentado como vice na chapa de Caiado na coletiva em que as declarações foram feitas. O político preside o PSD e tem longa trajetória em São Paulo, inclusive como ex-prefeito da capital e ex-ministro de governo.

O que está em jogo no debate do próximo domingo?

A confirmação das estratégias iniciais de cada postulante, a consolidação de imagens junto ao eleitorado indeciso e o registro das primeiras gaffes ou viradas de narrativa da campanha. Em eleições pulverizadas, debates funcionam como pontos de inflexão para candidatos que disputam um lugar no segundo turno.

Gostou desta análise? Compartilhe com quem quer entender a política brasileira além da manchete e assine a newsletter d'A Bússola Nacional.

Leia também

Receba as análises da semana

Um resumo do que importa na política brasileira, direto no seu e-mail. Sem spam.

Ao se inscrever, você concorda com a nossa política de privacidade. É possível cancelar a qualquer momento.