O primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, afirmou neste sábado (22) que, a partir de 8 de setembro, o país aplicará tarifas retaliatórias "dólar por dólar" sobre importações norte-americanas em aço, laticínios, eletrodomésticos, equipamentos agrícolas, celulose, papel e eletrônicos. A medida é resposta direta à taxação de 50% imposta pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que entrou em vigor à meia-noite e atinge cerca de US$ 20 bilhões em exportações canadenses — vinhos, móveis, laticínios, cimento, roupas, varas de pesca e equipamentos de hóquei, entre outros. Após uma semana de negociações fracassadas, Ottawa e Washington trocaram de posição: o que era uma disputa interna ao Acordo EUA-México-Canadá (USMCA) virou guerra comercial aberta entre dois aliados históricos. Para o Brasil, o episódio interessa porque redefine as regras do jogo no maior bloco comercial do qual o país é parceiro indireto, com efeitos potenciais sobre preços de commodities, cadeias automotivas e a credibilidade de acordos regionais.
Quem está em campo e o que estava em jogo
Mark Carney não é um político de carreira. Antes de assumir a liderança do Partido Liberal em março deste ano e conduzir os liberais à vitória nas eleições federais de abril, ele comandou o Banco do Canadá entre 2008 e 2013 e o Banco da Inglaterra entre 2013 e 2020. É um tecnocrata com domínio da linguagem de mercados — não por acaso, escolheu a expressão "dólar por dólar" para sinalizar que Ottawa não pretende dar margem de manobra a Washington.
Do outro lado, Trump opera dentro de outra lógica. As tarifas de 50% que entraram em vigor à meia-noite de sexta-feira foram vendidas oficialmente como resposta ao fluxo de entorpecentes e à segurança da fronteira, mas atingem produtos formalmente protegidos pelo USMCA — o acordo trilateral que substituiu o NAFTA em 2020. Segundo o portal Terra.com.br, as novas taxações "não isentam os produtos canadenses ao abrigo do USMCA, que protegeram a maior parte das exportações canadenses para os EUA nos últimos 18 meses". Ou seja: o que estava funcionando dentro do regime, Trump simplesmente rompeu.
O USMCA é o que está em risco. O pacto foi desenhado para vigorar até 2036, com cláusula de revisão prevista para 2026, e não previa um cenário em que um dos três sócios descumprisse unilateralmente as listas de exceções. Carney foi explícito ao afirmar, no Parlamento em Ottawa: "Não podemos aceitar o que eles ofereceram e não concederemos o que eles pediram." É a linguagem de quem entende que o precedente importa tanto quanto o produto.
Os setores atingidos — e o que eles revelam
A lista divulgada por Carney inclui setores com peso simbólico e político, além do econômico:
- Aço e alumínio — alvo recorrente de políticas de "Seção 232" (segurança nacional) dos EUA; fazem parte de cadeias integradas com a indústria automotiva norte-americana.
- Laticínios — área em que o Canadá restringe historicamente o acesso de produtores americanos por meio do sistema de gestão de oferta. Incluir esse item na retaliação sinaliza que Ottawa pretende reabrir a discussão pelo lado da pressão.
- Eletrodomésticos, equipamentos agrícolas e eletrônicos — bens de consumo com forte penetração de marcas norte-americanas no mercado canadense.
- Celulose e papel — setor em que o Canadá é estruturalmente superavitário e que já sofria tarifas setoriais dos EUA.
Do lado canadense exposto às tarifas de Trump, a escolha dos alvos tampouco é aleatória: varas de pesca e equipamentos de hóquei aparecem entre os itens taxados, o que mostra que o cálculo político doméstico está dentro da equação. Para um primeiro-ministro em busca de legitimidade, atacar símbolos do cotidiano canadense ajuda a vender a retaliação como defesa nacional.
Por que isso importa para o Brasil
Três pontos merecem atenção de quem analisa a política comercial brasileira.
1. O USMCA é referência, mesmo de fora. O Brasil acompanha o USMCA não apenas como observador curioso. Acordos como o firmado entre Mercosul e União Europeia e as tratativas com México, Canadá e Japão compartilham a mesma arquitetura: cláusulas de salvaguarda, painéis de solução de controvérsias, listas de exceções. Quando um sócio relevante rompe unilateralmente o regime, a mensagem para qualquer negociador é de que papel assinado não basta — o que conta é previsibilidade política do parceiro.
2. O efeito-cadeia sobre commodities. Retaliações tendem a derrubar o comércio bilateral e a gerar excedentes que migram de rota. Canadá e EUA são parceiros profundamente integrados em trigo, fertilizantes, alumínio e veículos. Se parte da oferta canadense for desviada para outros mercados, o Brasil pode encontrar concorrência extra em Ásia e Europa; se a demanda norte-americana por insumos cair, empresas brasileiras com exportação para os dois países sentem no volume e no preço.
3. O precedente ideológico. Trump representa uma guinada protecionista dentro de um partido historicamente pró-livre-comércio. Carney responde com retaliação — ou seja, com a mesma ferramenta que, sob uma perspectiva liberal consistente, deveria ser evitada. Os dois erodem o princípio. Para o Brasil, que se beneficia do livre-comércio como grande exportador agrícola e mineral, a notícia é ruim dos dois lados da fronteira.
Os argumentos em disputa, na versão mais forte de cada lado
O argumento de Trump. Tarifa não é ideologia, é instrumento de negociação. Os EUA têm déficit comercial bilateral, dependência de cadeias externas em setores sensíveis e um problema estrutural de fronteira. Usar a tarifa como alavanca para arrancar concessões — sobre fentanil, abertura do mercado de laticínios, compras de defesa — é coerente com uma leitura realista de assimetria de poder entre parceiros comerciais.
O argumento de Carney. Retaliar não é protecionismo, é dissuasão. Se um parceiro pode romper unilateralmente listas acordadas e ainda exigir concessões adicionais, o custo de não responder é maior do que o custo de responder. Internamente, ceder sem reciprocidade abriria flanco político e prejudicaria setores exportadores que sustentam milhares de empregos no país.
A leitura desta análise. Ambos os argumentos são defensáveis no curtíssimo prazo, mas perdem de vista o quadro maior. Guerras comerciais raramente têm vencedor claro: o histórico das retaliações dos anos 1930 mostra que tarifas retaliatórias compram tempo político ao custo de empregos, inflação e produtividade. Ottawa e Washington estão, neste momento, trocando dano por dano — e quem está do lado de fora do confronto, incluindo o Brasil, paga parte da conta via volatilidade.
O que esperar a partir de agora
Três cenários nas próximas semanas, em ordem decrescente de probabilidade.
- Negociação bilateral antes de 8 de setembro. O prazo é a única alavanca real de Carney. Sem acordo até lá, as tarifas entram em vigor e a pressão política interna sobre Trump cresce — particularmente em estados sensíveis ao preço de aço e laticínios.
- Retaliação implementada e escalada setorial. O Canadá mira setores com peso político em estados decisivos nas eleições de meio de mandato nos EUA; Washington pode responder com novos itens. É o cenário de maior risco para cadeias integradas.
- Crise aberta do USMCA. O menos provável no curto prazo, mas com peso estratégico maior. Uma revisão formal em 2026 com ruptura ou suspensão da cláusula de solução de controvérsias seria o golpe mais grave à previsibilidade do comércio norte-americano.
O fato que a maioria das manchetes não separa é este: Ottawa e Washington estão defendendo, cada um à sua maneira, a ideia de que soberania comercial se exerce com tarifa na mão. Para um país como o Brasil, estruturalmente dependente de mercados abertos para soja, carne, minério e manufaturados, a mensagem é de alerta — não de exemplo a seguir.
Perguntas frequentes
O que exatamente o Canadá decidiu?
Aplicar, a partir de 8 de setembro, tarifas sobre importações dos EUA nos setores de aço, laticínios, eletrodomésticos, equipamentos agrícolas, celulose, papel, eletrônicos e bens já atingidos pelas Seções 232 e 338, em volume equivalente ao das tarifas impostas por Washington.
Quais produtos dos EUA foram taxados por Trump?
Entre os listados pelo portal Terra.com.br estão vinhos, móveis, laticínios, cimento, roupas, varas de pesca e equipamentos de hóquei — o equivalente a cerca de US$ 20 bilhões em exportações canadenses.
O USMCA continua valendo?
Formalmente, sim. Na prática, a cláusula de exceções foi rompida unilateralmente pelos EUA, o que enfraquece a confiança no mecanismo. A revisão prevista para 2026 é o ponto crítico a observar.
Por que o Brasil deveria se importar?
Porque alterações nas cadeias norte-americanas afetam preços de commodities, fluxo de investimentos e a credibilidade de acordos regionais — três variáveis centrais para a inserção comercial brasileira.
Mark Carney é mesmo um liberal na economia?
Carney é líder do Partido Liberal do Canadá e ex-governador do Banco do Canadá e do Banco da Inglaterra, com trajetória de centro econômico e viés tecnocrático. Sua resposta atual, porém, é protecionista em forma e conteúdo.
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