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Congresso vota nova regulação para gigantes da tecnologia

PL 4.675/2025 cria marco regulatório para big techs com poder discricionário ao Cade. Texto preocupa por expandir o Estado e ameaçar inovação e investimento.

Por Beatriz Andrade Lima · · 7 min de leitura

Congresso vota nova regulação para gigantes da tecnologia
Congresso vota nova regulação para gigantes da tecnologia

Congresso se prepara para votar nova arquitetura regulatória para gigantes da tecnologia

O Projeto de Lei 4.675/2025, que cria um marco regulatório para mercados digitais no Brasil, está pronto para ser votado no plenário da Câmara dos Deputados em regime de urgência. A proposta, apresentada pelo governo federal em setembro de 2025, afeta diretamente empresas como Google, Meta e Amazon ao criar a figura dos "agentes econômicos de relevância sistêmica" e ampliar as atribuições do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). Segundo o portal Olhardigital.com.br, o texto já conta com parecer preliminar do relator, deputado Aliel Machado (PV-PR), apresentado em julho, e aguarda apenas definição de data para entrar em pauta.

O movimento não ocorre no vácuo. Ele se insere numa tendência global de regulação das chamadas big techs, que teve como referência principal o Digital Markets Act (DMA) da União Europeia, em vigor desde 2024. A pergunta que esta análise se propõe a responder é simples: o que exatamente o Brasil está fazendo, com quais instrumentos, e em que medida a proposta avança sobre a liberdade econômica sem entregar, necessariamente, os benefícios prometidos.

Como a proposta funciona, na prática

O texto não classifica automaticamente todas as grandes empresas de tecnologia como agentes de relevância sistêmica. O que ele estabelece é um processo de designação conduzido pelo Cade, com base em critérios como porte econômico e relevância da plataforma em seu mercado. Uma vez designada, a empresa passa a ficar sujeita a obrigações específicas — que vão desde restrições a práticas de auto-preferência (quando uma plataforma favorece seus próprios serviços nos resultados de busca, por exemplo) até exigências de interoperabilidade e compartilhamento de dados com concorrentes.

O parecer do relator cria, ainda, dentro do Cade, a "Superintendência Especial de Relevância Sistêmica, Livre Concorrência e Defesa do Consumidor em Mercados Digitais". Em outras palavras, uma estrutura nova dentro de uma autarquia já existente — com orçamento, quadro técnico e poder de investigação próprios.

O argumento mais forte a favor da regulação

Antes de apresentar a leitura crítica, é justo reconhecer que as preocupações que motivam o projeto não são inventadas. Mercados digitais apresentam características estruturais — efeitos de rede, custos de troca altos, economias de escala em dados — que tendem a concentrar plataformas em poucos operadores. Práticas de auto-preferência e de vinculação de serviços podem, de fato, prejudicar concorrentes menores e reduzir a oferta ao consumidor.

Também é verdade que a autorregulação das plataformas mostrou-se insuficiente. Investigações contra o Google no próprio Cade, multas aplicadas na Europa e debates sobre abuso de posição dominante no mercado de anúncios e de busca indicam que existem falhas de mercado reais, que justificam algum tipo de resposta institucional. Quem defende o PL argumenta, ainda, que o Brasil precisa de regras claras e previsíveis, em vez de depender de casos concretos levados ao Cade um a um.

Por que, ainda assim, há motivos para cautela

Feita essa concessão, a leitura de centro-direita liberal aponta riscos concretos que o debate público tem minimizado. O primeiro é o da expansão do aparelho regulatório sobre um dos setores mais dinâmicos da economia global. Criar uma superintendência nova é, antes de mais nada, criar mais Estado — com o que isso implica em termos de custo público, lentidão decisória e captura regulatória.

Em segundo lugar, o desenho proposto depende excessivamente de discricionariedade. O texto remete ao Cade a tarefa de definir, caso a caso, quais empresas serão designadas e quais obrigações cada uma terá. Sem critérios objetivos e estáveis, abre-se espaço para decisões políticas — inclusive sob pressão de concorrentes domésticos que podem se beneficiar de regras feitas sob medida. O protecionismo regulatório disfarçado de defesa da concorrência é um risco real, sobretudo em ano eleitoral.

Há, ainda, uma questão de timing. A experiência europeia com o DMA é recente demais para que se conheçam seus efeitos completos: há sinais de que gigantes como Apple e Meta têm recorrido a estratégias de adequação parcial ou de litigância para minimizar o alcance das obrigações. Copiar um modelo ainda em teste, somando-lhe uma camada institucional própria — a superintendência — amplia a chance de erros caros. Na ponta, quem paga é o consumidor brasileiro.

Por fim, há um efeito colateral pouco discutido: o impacto sobre investimento e inovação. Regulação pesada sobre plataformas digitais pode desincentivar aportes, parcerias e até a oferta de produtos no país. Pequenas e médias empresas que dependem de serviços de big techs para operar — e são a maioria esmagadora do ecossistema digital brasileiro — também podem ser atingidas por mudanças que reduzam funcionalidades ou elevem custos.

O jogo político por trás da pauta

O projeto tramita em regime de urgência, aprovado pela Câmara em março de 2026, em meio ao calendário eleitoral. Não é coincidência: aprovar uma lei "contra as big techs" é politicamente rentável. Permite ao Executivo e à base aliada apresentarem-se como defensores do consumidor e da concorrência, sem enfrentar de imediato o ônus de explicar eventuais prejuízos à inovação ou ao investimento.

O fato de a relatoria estar com um parlamentar do PV, partido menor da base governista, também merece leitura. A escolha tende a produzir um texto mais alinhado ao Executivo, o que reforça a importância de que deputados da centro-direita — especialmente os mais identificados com a pauta da liberdade econômica — pressionem por ajustes antes da votação em plenário. O requerimento aprovado em agosto pela Comissão de Desenvolvimento Econômico para realização de audiência pública sobre os impactos econômicos da proposta é, nesse sentido, um movimento saudável, ainda que insuficiente dado o regime de urgência, que comprime a tramitação.

Por que isso importa

Porque o que se decide agora no Congresso não é apenas sobre como o Google exibe resultados de busca ou como a Meta conecta usuários. Trata-se de definir o grau de interferência do Estado brasileiro sobre mercados digitais por muitos anos — e de criar uma estrutura permanente dentro do Cade, que será difícil de desfazer.

Para o contribuinte, importa porque superintendências novas custam dinheiro público e, em regra, expandem-se com o tempo. Para o consumidor, importa porque regulações mal calibradas podem reduzir a qualidade dos serviços e aumentar preços, em vez de reduzi-los. Para o empreendedor brasileiro, importa porque o ecossistema digital é hoje a principal porta de entrada para novos negócios — e o excesso de regulação sobre plataformas pode, na prática, fechar portas em vez de abri-las.

A Bússola Nacional não é contra toda regulação. É contra regulação mal desenhada, discricionária e que separe quem decide do custo de decidir.

Perguntas frequentes

O que é o PL 4.675/2025?

É o projeto que cria o marco regulatório brasileiro para mercados digitais, estabelecendo a categoria de "agentes econômicos de relevância sistêmica" e ampliando o poder do Cade sobre grandes plataformas.

Quais empresas serão afetadas?

O texto não define automaticamente. A designação caberá ao Cade, com base em porte econômico, relevância da plataforma e impacto sobre o mercado. Google, Meta e Amazon estão entre as mais citadas, mas a lista não está fechada.

Por que o projeto é comparado ao Digital Markets Act europeu?

Porque adota categorias e instrumentos semelhantes — gatekeepers, obrigações de interoperabilidade, restrições à auto-preferência — ainda que com adaptações e a criação de uma superintendência específica dentro do Cade.

Qual é o estágio atual da tramitação?

O projeto está pronto para votação no plenário da Câmara, em regime de urgência. O parecer preliminar é do deputado Aliel Machado (PV-PR), apresentado em julho. Em agosto, a Comissão de Desenvolvimento Econômico aprovou requerimento para audiência pública sobre os impactos econômicos do texto.

Quem ganha politicamente com a aprovação?

O governo federal e a base aliada, que podem apresentar a lei como conquista em ano eleitoral. Há risco, porém, de que o texto final não agrade nem as plataformas nem os concorrentes domésticos, produzindo uma regulação que custa caro e regula pouco.

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