A humorista Evelyn Castro protagonizou, no início de agosto, um episódio que, contado por ela própria em vídeo nas redes sociais, tem todos os ingredientes de uma comédia de constrangimento: a homenagem ao tio falecido, a troca de versão da música, o silêncio dos coveiros e o "agora tu gosta" dito ao caixão. Mas o incidente, reportado pelo portal Terra.com.br, oferece uma leitura mais ampla do que o simples mal-entendido musical. Trata-se de um retrato involuntário de como a cultura brasileira absorveu — e normalizou — um gênero que tem a transgressão como matéria-prima, a ponto de ele poder ser acionado, mesmo sem querer, dentro de um velório.
O que aconteceu
Evelyn Castro contou que, durante o velório do tio no início de agosto, quis fazer uma homenagem tocando a música que o parente havia lhe apresentado na infância: "Feira de Acarí". O problema é que, em vez da versão original, ela acionou a versão "proibidão" da faixa, que abre com uma rajada de tiros. Os coveiros, segundo a atriz, "estavam parafusando" o caixão e ficaram ressabiados. "Devem ter pensado que meu tio era bandido, porque eu botei um proibidão, ri e falei: 'Agora tu gosta'", relatou.
A humorista tentou trocar de faixa, não conseguiu de imediato e ficou "sozinha fazendo os passos" da coreografia no velório. Só depois conseguiu substituir a faixa pela versão oficial da música.
O que é o "proibidão" e por que leva esse nome
O termo "proibidão" designa, no funk carioca e paulista, o subgênero cujas letras descrevem — com naturalidade e, por vezes, com celebração — o cotidiano do tráfico de drogas, o armamento pesado, a violência policial e a vida na periferia sob a ótica de quem está do outro lado da lei. O nome é autoaplicado: os próprios MCs reconhecem que o conteúdo extrapola o que toca no rádio comercial.
A distinção é relevante porque não se trata de qualquer funk. O funk "de baile" — que domina o carnaval e as festas de rua — é majoritariamente romântico ou festivo. O proibidão opera em outro registro: é funk que se assume como relato de um mundo onde a lei formal é substituída por outra ordem, e onde o "herói" da canção é, com frequência, o traficante. Por isso mesmo, faixas do gênero já foram alvo de decisões judiciais para retirada do ar, e o debate sobre regulação volta periodicamente à agenda pública — geralmente após episódios de violência envolvendo artistas ou frequentadores de bailes.
Por que isso importa
1. A naturalização tem um custo cultural
O episódio de Evelyn Castro é leve, mas o que ele expõe não é. Uma comediante que não milita no gênero, que escolheu a música por uma razão afetiva — a memória do tio —, terminou ativando o proibidão sem saber exatamente o que havia escolhido. Isso mostra que o algoritmo das plataformas e a interface dos aplicativos de streaming não diferenciam, para o usuário comum, a versão "limpa" da versão "pesada" de uma mesma faixa. Mesmo título, mesmo botão, mesma praticidade — e o resultado é uma rajada de tiros num velório.
Há uma leitura possível, do lado conservador dos costumes, que vale registrar: a fronteira entre o que é apropriado em cada momento da vida depende de instituições — família, escola, religião, comunidade — que ainda funcionam como filtros sociais. Quando esses filtros afrouxam, o que sobra é a conveniência da plataforma. Evelyn Castro não escolheu o proibidão por adesão estética; escolheu por inércia tecnológica. A piada é dela, mas o sintoma é de todos.
2. A reação dos coveiros é o dado mais revelador
Os coveiros, no relato da atriz, olharam para ela "com expressão de desconfiança" e, segundo ela, podem ter pensado que o tio "era bandido". Esse é o detalhe que merece nota. Profissionais que trabalham diariamente com a morte, e portanto com todo tipo de família e todo tipo de história, reagiram ao funk proibidão da mesma forma que reagiriam a uma arma de fogo no caixão: como sinal de alerta. Não é exagero dizer que, no imaginário coletivo brasileiro — inclusive entre pessoas simples e trabalhadoras —, o proibidão é lido como marca de pertencimento ao crime organizado. Não é "música de periferia"; é, para muitos, "música de bandido".
Esse dado, por si só, enfraquece a leitura romanceada do gênero como "voz legítima das quebradas". Generalizar o funk como expressão monolítica da periferia empobrece o debate e ignora que, dentro da própria periferia, há quem rejeite o proibidão como retrato — e não como celebração — da vida local.
3. O argumento contrário, na sua versão mais forte
É preciso registrar o outro lado da disputa antes de comentá-lo. Os defensores do proibidão — pesquisadores, artistas e parte do movimento hip-hop — argumentam que o gênero é crônica, não apologia. Funcionaria, nessa leitura, como literatura oral: descreve a realidade do morro sem romantizá-la, e a tentativa de censurá-lo repete, com novas roupas, o velho erro de criminalizar a cultura popular em vez de enfrentar a desigualdade que a produz. Apontam, com razão, que o tráfico de drogas não nasceu do funk; o funk, nesse raciocínio, nasceu do tráfico. Censurar a canção seria tratar o sintoma e poupar a causa.
Esse argumento tem peso e deve ser levado a sério. Mas não resolve tudo. Se o proibidão é crônica, ele não deveria soar como celebração; se é literatura, deveria ser recebido como literatura — e não como trilha sonora de velório. O episódio de Evelyn Castro sugere que, na prática, a recepção do gênero já não se faz pela chave da denúncia social: faz-se pela chave da identificação estética. E aí a discussão muda de figura.
O que estava em jogo antes deste episódio
O debate sobre regulação do funk não nasceu agora. No início dos anos 2000, campanhas de organizações sociais e movimentos de pais de família pediam a retirada de letras do ar por apologia ao crime. Nos anos 2010, decisões judiciais pontuais censuraram faixas específicas. Em 2021, a morte do funkeiro MC Kevin, que caiu de um hotel na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, voltou a reacender a discussão sobre os limites entre a vida narrada nas músicas e a vida real dos artistas. Mais recentemente, operações policiais em bailes funk de São Paulo e do Rio reacenderam a tensão entre o Estado, os organizadores de eventos e as comunidades onde o gênero é hegemônico.
O relato de Evelyn Castro entra, portanto, num debate que já tem mais de duas décadas: o que fazer com um gênero musical que descreve — ou celebra, conforme a leitura — atividades criminosas, em um país onde essas atividades matam dezenas de milhares de pessoas por ano.
Perguntas frequentes
O funk proibidão é considerado crime no Brasil?
Não. Não há, atualmente, tipo penal específico que criminalize a composição ou a execução de funk com letras que façam referência ao tráfico. O que existe são decisões judiciais pontuais, em ações civis públicas ou ações penais por apologia de crime (art. 287 do Código Penal), que determinam a retirada de faixas específicas do ar. São casos individualizados, sem uma política pública consolidada de regulação do gênero.
Quem regula o conteúdo das plataformas de streaming no Brasil?
O Marco Civil da Internet (Lei 12.965/2014) estabelece que a responsabilidade por conteúdo gerado por terceiros é, em regra, das plataformas — e não dos usuários. Decisões judiciais podem determinar a remoção de faixas específicas. Não há, no entanto, um regime de classificação etária obrigatório para letras de música no país, ao contrário do que existe para cinema e televisão.
O episódio de Evelyn Castro tem consequência jurídica?
Não. A situação relatada não configura ilícito penal nem civil. Trata-se de um constrangimento pessoal, resolvido ainda no velório, sem terceiros lesados. A única consequência possível é reputacional — e, nesse caso, a humorista saiu fortalecida: o vídeo viralizou e foi tratado como humor, não como escândalo.
O funk é unanimemente aceito nas periferias?
Não. O funk é gênero hegemônico em muitos bairros periféricos, mas há também, dentro dessas comunidades, críticas internas ao proibidão — por parte de famílias, líderes religiosos e moradores que recusam o gênero como retrato fiel da vida local. A imagem de "música da periferia" esconde essa diversidade interna e trata comunidades inteiras como se falassem uma só voz.
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