O candidato à Presidência pelo Missão, Renan Santos, entrou no debate sobre o enquadramento jurídico das facções criminosas brasileiras nesta quarta-feira (2). Em entrevista ao podcast Flow, afirmou não se sentir "confortável" em tratar esses grupos como terroristas e acusou o presidente norte-americano, Donald Trump, de não pretender "ajudar" o Brasil. A fala importa menos pelo peso eleitoral do personagem — o Missão é partido de reduzida expressão — e mais pelo que revela sobre os contornos que o debate de segurança pública já assume de olho em 2026: a tensão entre soberania nacional e cooperação internacional, e o efeito prático do rótulo jurídico no combate ao crime organizado.
O debate sobre o rótulo 'terrorismo'
Classificar facções como terrorismo não é exercício retórico: dispara consequências legais, operacionais e diplomáticas. No Brasil, a Lei 13.260/2016 define terrorismo a partir de critérios como motivação política, ideológica ou religiosa, finalidade de intimidar população ou coagir governo, e uso de violência contra pessoa ou patrimônio. Organizações criminosas como PCC e Comando Vermelho atuam com estrutura militarizada, controle territorial e capacidade de intimidação — mas movidas, na leitura convencional, por lucro, e não por projeto político-ideológico.
É exatamente nesse ponto que a fala de Santos encontra seu argumento mais defensável: a diferença de motivação não é trivial. Sob a lei brasileira, tratar tráfico como terrorismo pode esbarrar em inadequação típica e enfraquecer ações penais. No plano internacional, porém, a equiparação abre portas para sanções, bloqueio de ativos, cooperação de inteligência e eventual designação por governos estrangeiros — recursos que o aparato brasileiro, sozinho, tem dificuldade de mobilizar com a agilidade que a gravidade do problema exige.
A questão, portanto, não é semântica. É de estratégia. E é nesse terreno que a posição do candidato precisa ser pesada antes de aplaudida.
Soberania ou solução? O dilema da cooperação
Renan Santos tem razão ao desconfiar. O histórico norte-americano na América Latina em matéria de drogas e segurança é, no mínimo, ambíguo: décadas de cooperação com Colômbia, México e países andinos não eliminaram o tráfico e, em vários momentos, produziram efeitos colaterais graves — militarização, corrupção e violações de soberania. "Os americanos nunca resolveram o problema do tráfico na América Latina. Por que agora eles querem?", disse o candidato, segundo o portal Terra.com.br. A pergunta é legítima.
Mas a desconfiança em relação a Washington não responde, por si só, à pergunta que mais interessa ao contribuinte brasileiro: o que fazer, concretamente, contra facções que recrutam adolescentes, disputam rotas de droga, financiam campanhas e impõem toque de recolher em comunidades inteiras? Rejeitar a cooperação internacional sem apresentar capacidade estatal equivalente equivale a trocar pragmatismo por princípio — e o custo é sempre pago por quem mora nas áreas onde o Estado não chega.
Do ponto de vista liberal-conservador que orienta esta análise, o critério é claro: avaliza-se o que funciona e o que respeita a liberdade do cidadão, independentemente de quem propõe. Soberania é instrumento para proteger o cidadão, não obstáculo a isso.
O que isso revela sobre 2026
Santos representa a franja mais nacionalista da direita, sintonizada com a leitura de que qualquer aproximação com os Estados Unidos carrega risco de submissão. A fala busca ocupar um flanco que candidatos de maior densidade eleitoral já disputam — e onde a incoerência costuma cobrar caro. O bolsonarismo tradicional oscila, conforme a conveniência, entre adesão pragmática a Trump e retórica de defesa da soberania; o campo governista, por sua vez, vê no tema oportunidade para desgastar a oposição e reforçar a narrativa de resistência ao intervencionismo.
Para o eleitor de centro-direita, mais do que a posição em si, importa a coerência entre discurso e proposta. Defender soberania sem dizer como enfrentar o PCC é retórica vazia. Aceitar ajuda externa sem cobrar resultados é confiança cega. O meio termo — cooperação condicionada a metas mensuráveis e com preservação da capacidade operacional brasileira — é o que a maioria do eleitorado gostaria de ouvir, mas raramente ouve.
Por que isso importa
O debate que Renan Santos ajudou a recolocar na mesa tem três efeitos práticos imediatos. Primeiro, força candidatos maiores a se posicionar sobre o enquadramento das facções — questão que atravessa legislação, Forças Armadas e Ministério Público. Segundo, condiciona o tipo de cooperação internacional que o Brasil buscará ou aceitará nos próximos anos, com impacto direto em inteligência, financiamento e extradição. Terceiro, sinaliza ao eleitor que, em 2026, segurança pública será disputada também no campo das ideias, e não apenas no das operações policiais.
- Legislação: a definição de terrorismo afeta tipos penais, regime de prisão preventiva e competência da Justiça Federal.
- Cooperação internacional: designações estrangeiras habilitam sanções, bloqueio de ativos e compartilhamento de inteligência.
- Discurso eleitoral: o tema reorganiza o campo da direita entre pragmatistas e nacionalistas, e o da esquerda entre defensores da soberania e críticos do autoritarismo estatal.
Perguntas frequentes
O que muda se uma facção for classificada como terrorista?
Mudam regimes penais, a competência da Justiça (possível federalização), o alcance da cooperação internacional e a possibilidade de sanções contra integrantes e financiadores. No Brasil, o enquadramento precisa respeitar os critérios da Lei 13.260/2016.
Por que Trump se interessaria por facções brasileiras?
O governo norte-americano tem designado organizações de tráfico como terroristas e ampliado sanções contra cartéis latino-americanos. O discurso oficial aponta combate ao fentanil e ao crime transnacional; críticos veem motivações geopolíticas e pressão comercial.
Qual é o impacto real para o cidadão comum?
Classificações diferentes podem acelerar — ou travar — cooperação que ajude a desarticular redes de recrutamento, financiamento e logística das facções. Para quem vive em território controlado pelo crime organizado, o efeito é direto sobre a segurança cotidiana.
Há risco de uso político da classificação?
Sim. O rótulo "terrorista" pode ser mobilizado para ampliar poderes excepcionais do Estado, restringir garantias e criminalizar movimentos sociais legítimos. Por isso a discussão exige critérios técnicos e controle institucional, não apenas decisão política.
Por que Renan Santos é relevante se o Missão é pequeno?
Em peso eleitoral isolado, não é. Mas o repertório testado em candidaturas pequenas costuma antecipar o vocabulário de campanhas maiores. Funciona como termômetro de pauta, mais do que como protagonista da corrida.
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