Após uma década fora da Festa do Peão de Barretos, a cantora Paula Fernandes volta ao palco do maior rodeio da América Latina nesta quinta-feira (27/8), segundo reportagem do portal BBC News. O retorno, em cima de um cavalo e cantando Ave Maria, é o tipo de gesto que só faz sentido quando se compreende o que esse evento representa para o sertanejo brasileiro — e para a própria artista, que volta a um lugar onde foi celebrada e, ao mesmo tempo, testada.
Uma volta que é também um acerto de contas
Paula Fernandes ficou dez anos ausente de Barretos. Não por acaso — segundo a artista, em entrevista à BBC News Brasil, o período coincide com a fase em que o sertanejo viveu transformações profundas, com a ascensão do feminejo e a consolidação de nomes como Marília Mendonça. A volta agora, aos 42 anos, com novo álbum ("30 & Poucos Anos") e um show que reúne clássicos como "Pássaro de Fogo", não é apenas uma celebração pessoal. É uma reconexão com um público e um palco que ajudaram a defini-la em 2011, ano em que foi a artista mais tocada nas rádios do país e vendeu 1,6 milhão de discos.
Mas a entrevista não tratou só de nostalgia. Paula usou o espaço para denunciar o que chama de machismo estrutural da indústria sertaneja — e, ao fazê-lo, expôs uma tensão cultural real, que vai além do mundo da música.
O que ela disse, e o que está em jogo
A reclamação central da cantora é concreta: por anos, a estrutura dos shows — camarins, palcos, logística — foi desenhada pensando em artistas homens. Ela relata à BBC News o "olhar de espanto" ao pedir banheiro no camarim, espelho, palco sem buracos para usar salto. "São necessidades femininas, não luxo", disse.
Até aqui, é uma queixa operacional legítima. Nenhuma gestão séria de eventos negaria que a logística precisa contemplar diferentes profissionais, sejam eles mulheres, homens, pessoas com deficiência ou com qualquer outra necessidade específica. Resolver isso é questão de profissionalismo, não de ideologia.
O problema surge quando a queixa operacional migra para um diagnóstico mais amplo: o de que o sertanejo seria uma indústria estruturalmente machista, na qual as mulheres seguem sendo minoria mesmo após a criação do feminejo e o estouro de Marília Mendonça.
O mercado já respondeu — e segue respondendo
Vale registrar o fato, ainda que ele contradiga parte da narrativa: o próprio mercado sertanejo produziu, nos últimos anos, uma revolução silenciosa puxada justamente por artistas femininas. Marília Mendonça, até sua morte em 2021, foi o maior fenômeno comercial do gênero. Antes dela, nomes como Maiara e Maraisa, Simone e Simaria e a própria Paula Fernandes abriram caminho. Hoje, o feminejo não é uma categoria marginal — é uma das forças centrais do sertanejo, com plateia cativa, contratos milionários e poder real de venda.
A pergunta que se coloca, portanto, não é se há machismo residual na indústria — quase certamente há, como há em qualquer setor com presença masculina historicamente dominante. A pergunta é se a resposta passa por regulação, cotas ou categorização crescente de artistas por gênero, ou se a evolução cultural e a dinâmica de mercado — que já vêm operando há pelo menos uma década — são suficientes para corrigir as distorções remanescentes.
Para esta análise, o ponto é outro
Vista pela lente editorial d'A Bússola Nacional, a entrevista de Paula Fernandes toca em um tema que vai além da música: o risco de transformar toda assimetria em "machismo estrutural" e toda diferença de resultado em "opressão". Essa leitura, quando adotada como política pública, costuma produzir mais divisão do que solução — e, no caso da indústria cultural, tende a cristalizar categorias em vez de apagá-las.
É sintomático que a própria artista tenha recorrido ao termo "feminejo" para descrever o fenômeno. Cria-se uma subcategoria dentro de um gênero musical — não por exigência estética ou de público, mas por recorte de gênero. O resultado prático: em vez de mulheres competirem em pé de igualdade com homens pelo mesmo público (e algumas vencerem, como Marília Mendonça venceu), institui-se um circuito paralelo que precisa ser constantemente justificado como "legítimo". Para uma perspectiva liberal-conservadora, essa lógica não amplia liberdade — apenas substitui um critério (talento e mercado) por outro (representatividade).
Política, IA e o futuro da criação
A entrevista à BBC News também tocou em dois pontos que interessam diretamente à agenda política e econômica brasileira: política e inteligência artificial na música. Sem reproduzir aqui detalhes não confirmados pelo trecho disponível, vale situar o debate.
O tema da IA generativa na música é, hoje, uma das fronteiras mais sensíveis do direito de propriedade intelectual. Modelos de IA são treinados com obras de artistas que, em geral, não autorizaram nem foram remunerados por esse uso. Para vozes do campo liberal-conservador — e para os próprios criadores — trata-se de uma expropriação silenciosa: alguém se apropria do trabalho alheio para treinar uma máquina que, depois, pode competir com o autor original. A declaração de Paula Fernandes, resumida no título da entrevista como "talvez eu seja real demais", ganha sentido justamente nesse contexto: a artista reivindica autenticidade quando a tecnologia começa a tornar a autoria artificial viável e barata.
Esse é um tema em que o Brasil precisa definir posição com clareza — e em que o Congresso, mais do que correr para regular de forma precipitada, deveria garantir proteção efetiva ao direito autoral e à remuneração dos criadores. Propriedade intelectual é, antes de tudo, propriedade.
Por que isso importa
O retorno de Paula Fernandes a Barretos é, antes de tudo, um termômetro cultural. Mostra que o sertanejo continua sendo um dos espaços mais vivos da cultura popular brasileira — e que as tensões identitárias que atravessam a sociedade também chegam a ele, muitas vezes embaladas em questões operacionais que, isoladamente, são legítimas.
Para o leitor atento, três consequências práticas merecem destaque:
- Não tratar toda queixa como prova de tese. A reclamação logística de Paula Fernandes é válida e deve ser resolvida pela indústria. Generalizá-la para "machismo estrutural do setor", porém, ignora que o próprio mercado já promoveu mulheres ao topo do gênero nos últimos quinze anos.
- Cuidado com categorias identitárias na cultura. A criação de subcategorias por gênero pode parecer inofensiva, mas reforça uma lógica de separação que, quando transplantada para política pública, costuma produzir mais divisão do que inclusão real.
- Propriedade intelectual é o próximo campo de batalha. O uso de obras musicais para treinar IA sem autorização é um tema que une criadores de diferentes espectros políticos — e uma das poucas áreas em que o Brasil pode legislar com clareza para defender quem produz.
Perguntas frequentes
Por que Paula Fernandes ficou dez anos fora de Barretos?
Segundo a própria cantora, em entrevista à BBC News, o afastamento coincidiu com transformações do sertanejo e com mudanças em sua carreira. Não há, no texto da reportagem, indicação de proibição ou conflito declarado com a organização do evento.
O que é "feminejo"?
É o termo usado para descrever a vertente do sertanejo protagonizada por artistas mulheres, impulsionada principalmente a partir de nomes como Marília Mendonça, Maiara e Maraisa e Simone e Simaria.
O sertanejo é estruturalmente machista?
A reportagem da BBC News registra o depoimento da cantora. De fato, a presença feminina no topo do gênero, embora crescente, ainda é proporcionalmente menor do que a masculina. Mas o mercado já produziu correções significativas na última década, com artistas femininas alcançando o primeiro lugar em vendas e streaming.
O que Paula Fernandes disse sobre IA na música?
Segundo a chamada da entrevista publicada pelo portal BBC News, a cantora abordou o tema da inteligência artificial na música e se definiu como "talvez real demais". O trecho disponível não detalha suas posições específicas.
Qual a relevância política disso?
Indiretamente, o episódio toca em três agendas: identidade de gênero na cultura, regulação da indústria musical e proteção do direito autoral frente à inteligência artificial — temas que tendem a chegar ao Congresso nos próximos anos.
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