Os juros futuros no Brasil abriram a semana em movimento contido, mas o que se passou nesta segunda-feira é menos sobre o tamanho da oscilação e mais sobre o que está por trás dela: a percepção dos investidores sobre o futuro da política fiscal brasileira, recalibrada por duas pesquisas eleitorais que mostraram uma disputa presidencial mais apertada entre Lula e Flávio Bolsonaro. Ao mesmo tempo, o cenário externo trouxe nova pressão, com ataques entre Estados Unidos e Irã elevando os rendimentos dos Treasuries de longo prazo. O resultado é uma fotografia reveladora de como o mercado brasileiro precifica risco — e de por que a corrida eleitoral de 2026 já mexe no bolso do contribuinte e do investidor muito antes do voto.
Os números do dia: contenção que esconde tensão
Segundo o portal Terra.com.br, às 10h da manhã, a taxa do DI para janeiro de 2028 estava em 13,79%, alta de 1 ponto-base em relação ao ajuste anterior. Na ponta longa da curva, o DI para janeiro de 2035 recuou 3 pontos-base, para 14,56%. Em termos práticos, são variações pequenas — mas a estabilidade momentânea esconde um debate mais profundo entre os agentes econômicos.
Uma ponta da curva subiu, a outra caiu. Isso indica que o mercado não está reagindo de forma monolítica: há fatores puxando em direções opostas, e o equilíbrio está sendo negociado hora a hora.
O fator eleitoral: o que os investidores leem nas pesquisas
As duas pesquisas divulgadas nesta segunda-feira reforçaram a leitura de que a disputa está acirrada. Pela AtlasIntel/Bloomberg, Lula aparece com 47,1% das intenções de voto no segundo turno, contra 42,6% de Flávio Bolsonaro — uma diferença menor do que a registrada em julho, quando os percentuais eram de 49,2% e 42,9%, respectivamente. A margem de erro é de 1 ponto percentual.
Pela BTG/Nexus, o cenário é ainda mais apertado: Lula com 46% e Flávio com 45%, em empate técnico considerando a margem de erro de 2 pontos percentuais. Para o mercado, essa convergência entre os candidatos tem um significado direto: maior incerteza sobre quem efetivamente governará o país a partir de 2027.
Por que o mercado prefere a indefinição — mas não por motivos ideológicos
A nota da Bússola Nacional já adianta o ponto central: parte relevante dos agentes financeiros avalia que a reeleição de Lula seria um fator negativo para o equilíbrio fiscal. Assim, uma disputa mais acirrada tem sido percebida como baixista para o dólar e para a curva de juros — o termo técnico para dizer que afrouxa ambas as variáveis.
A leitura merece ser apresentada com clareza. Não se trata de um juízo moral sobre o ocupante do Palácio do Planalto. Trata-se de uma avaliação probabilística sobre a trajetória da política fiscal: dado o histórico recente — déficits primários persistentemente abaixo da meta, expansão de gastos obrigatórios, dificuldade crônica de geração de superávits primários consistentes —, os investidores precificam um risco maior caso as políticas que pressionam esse quadro tenham continuidade.
Para ser intelectualmente honesto, registre-se o contra-argumento mais forte: a gestão Lula, quandoquestionada, sustenta que a política fiscal vem sendo conduzida dentro dos marcos legais, com o novo arcabouço aprovando metas e o governo buscando recomposição de receitas. Defensores da atual administração argumentam que juros altos refletem, em parte, o prêmio de risco soberano do Brasil — um componente estrutural que independe de quem está no poder. É uma leitura plausível, e o analista que a ignora empobrece o debate.
O fator externo: Oriente Médio e o prêmio de risco global
Do lado de fora, a rodada de ataques militares entre Estados Unidos e Irã elevou os rendimentos dos Treasuries de longo prazo. Quando os títulos americanos pagam mais, capital estrangeiro tende a migrar para os EUA — e isso pressiona a curva de juros em economias emergentes como a brasileira. O movimento é técnico, mas seu efeito é político: aumenta o custo de financiamento do Tesouro Nacional e das empresas, e pressiona o câmbio.
Vale destacar: o Brasil não tem controle sobre esse vetor. A geopolítica do Oriente Médio é um dado exógeno que se sobrepõe à política doméstica. Para o contribuinte brasileiro, isso significa que o preço do dinheiro no país é decidido em duas mesas — uma em Brasília, outra em Washington e Teerã.
Por que isso importa para além do gráfico
Uma curva de juros futura mais alta, como a que persiste acima de 14% na ponta longa, não é apenas uma estatística de mercado. Ela se traduz, em meses, em:
- Crédito mais caro para famílias e empresas, especialmente no crédito imobiliário e no capital de giro;
- Pressão sobre o orçamento público, dado que parcela significativa da dívida pública é indexada à Selic ou à inflação;
- Desestímulo a investimentos de longo prazo, justamente os que geram empregos e produtividade;
- Expectativa de inflação mais persistente, já que juros nominais altos refletem, em parte, o componente de risco inflacionário percebido.
Em outras palavras: a "contenção" do dia é o sintoma; a doença é o risco fiscal estrutural. E esse risco é calibrado pelo mercado com base em sinais políticos — incluindo pesquisas eleitorais.
O que está em jogo até 2026
Estamos entrando na fase da corrida eleitoral em que cada nova pesquisa é lida como um sinal sobre a sustentabilidade das contas públicas. Isso não é irracionalidade do mercado — é, antes, racionalidade preventiva. O investidor não espera o resultado da eleição para se posicionar; precifica a expectativa agora.
Para a Bússola Nacional, o ponto de chegada desta análise é simples: enquanto persistir a percepção de que a política fiscal brasileira é vulnerável a mudanças de governo, juros altos e dólar pressionado serão o estado natural da economia — independentemente de quem ocupe a cadeira do Planalto. A solução de fundo passa por âncoras fiscais críveis, previsibilidade regulatória e uma relação mais transparente entre Executivo, Congresso e sociedade sobre o tamanho do Estado e o destino do dinheiro público.
Esse debate é, em última instância, sobre quem paga a conta. E o pagador é o mesmo: o cidadão que financia o Estado, investe na poupança, toma crédito para abrir um negócio ou financia a casa própria.
Perguntas frequentes
O que é a curva de juros e por que ela se move com pesquisa eleitoral?
A curva de juros reflete a expectativa dos agentes econômicos sobre as taxas de juros futuras. Quando uma pesquisa indica uma disputa mais apertada entre candidatos com visões fiscais distintas, o mercado ajusta sua precificação — incorporando mais incerteza sobre a trajetória da dívida pública.
Por que o mercado associa Lula a risco fiscal?
Segundo o texto do portal Terra.com.br, parte dos agentes avalia que a reeleição de Lula seria um fator negativo para o equilíbrio fiscal. A leitura se apoia no histórico recente de resultados primários abaixo da meta e na composição do gasto público atual. Trata-se de avaliação de mercado, não de sentença definitiva.
O conflito entre EUA e Irã realmente afeta os juros no Brasil?
Sim. Tensões geopolíticas elevam a busca por ativos seguros, especialmente Treasuries americanos. Com mais capital migrando para os EUA, os juros nos países emergentes tendem a subir para compensar o maior risco percebido.
Uma disputa mais acirrada ajuda ou atrapalha o investidor?
No curto prazo, segundo a leitura apresentada pela fonte, uma disputa mais apertada tem sido percebida como fator baixista para o dólar e para a curva de juros — o que favorece ativos brasileiros. No longo prazo, porém, a indefinição prolongada tende a elevar o prêmio de risco.
O que o contribuinte pode fazer com essa informação?
Pouco no curto prazo, mas muito no longo. O recado principal é que a política fiscal e a política eleitoral estão umbilicalmente ligadas — e que cobrar responsabilidade fiscal dos candidatos, independentemente de partido, é parte do exercício da cidadania econômica.
Gostou desta análise? Compartilhe com quem quer entender a política brasileira além da manchete e assine a newsletter d'A Bússola Nacional.



