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Geração Z será a mais rica da história; Brasil freia salto

Geração Z será a mais rica da história até 2035, projeta Bank of America. Brasil pode perder parte da Grande Transferência por tributos e insegurança jurídica.

Por Beatriz Andrade Lima · · 7 min de leitura

Geração Z será a mais rica da história; Brasil freia salto
Geração Z será a mais rica da história; Brasil freia salto

Um estudo do Bank of America, divulgado pelo portal Xataka.com.br, projeta que a Geração Z — aquela que hoje é retratada como incapaz de pagar aluguel, comprar imóvel ou se sustentar — será a geração mais rica da história moderna até 2035. A aparente contradição entre o cenário de vulnerabilidade imediata e a prosperidade futura não é um paradoxo: é o desfecho esperado de um processo demográfico e econômico já em curso, conhecido como Great Wealth Transfer. Para o Brasil, em particular, a leitura desse movimento ajuda a dimensionar tanto as oportunidades quanto os gargalos que podem impedir que essa riqueza se materialize por aqui.

O que o estudo mostra, em números

Segundo o portal Xataka.com.br, com base nos dados do Bank of America, a Geração Z acumulou globalmente cerca de US$ 9 trilhões nos últimos dois anos — algo próximo de R$ 46,4 trilhões. A projeção é que esse estoque salte para US$ 36 trilhões em 2030 e alcance US$ 74 trilhões em 2040. No mesmo horizonte, até 2035, a geração tornar-se-á a maior e mais rica que a civilização contemporânea já registrou, respondendo por cerca de 30% da população mundial na próxima década.

Hoje, o retrato é o oposto. O estudo aponta que a geração precisa de 146% do salário mínimo para sobreviver — dado que, embora se refira a uma média global, traduz uma sensação compartilhada por jovens em diversos países, incluindo o Brasil, onde o salário mínimo nominal não cobre o custo de vida real nas grandes capitais. Antes de comemorar (ou temer) os números projetados, vale explicar o mecanismo que os produz.

A Grande Transferência de Patrimônio: o que é e por que importa

O Great Wealth Transfer designa a transferência de aproximadamente US$ 84 trilhões em ativos — imóveis, ações, empresas, investimentos — das gerações Baby Boomer e X para a Geração Z e os millennials ao longo das próximas décadas. Nos Estados Unidos, principal economia onde o fenômeno é medido, esse movimento já é o maior da história: imóveis comprados a preços reduzidos por boomers nas décadas de 1970 e 1980 são hoje vendidos a valores astronômicos, sustentando boa parte da riqueza projetada para os mais jovens.

Trata-se, em essência, de um processo de mercado: quem acumulou patrimônio ao longo da vida tende a transmiti-lo por herança, doação ou venda. Não há automatismo, porém. A riqueza só muda de mãos com valor preservado se houver instituições que garantam direito de propriedade, sucessão sem confiscatórias e liberdade para que herdeiros vendam, invistam ou empreendam com o que receberam.

É justamente nesse ponto que o cenário brasileiro exige cautela.

O paradoxo da "geração precária": narrativa forte, contexto específico

Antes de prosseguir, é honesto registrar: o texto do Xataka também menciona, com base em outros estudos, que parte da Geração Z estaria "maltratando chefes", rejeitando empregos e se esquivando do trabalho — chegando a citar que 95% dos jovens se esquivariam do trabalho. Apresentado nesses termos, é preciso separar o joio do trigo: pesquisas sérias sobre comportamento laboral juvenil documentam, por exemplo, menor disposição para aceitar postos com remuneração baixa ou más condições, e maior busca por propósito e flexibilidade. Não necessariamente uma recusa genérica ao trabalho. A leitura "jovem preguiçoso" é, na melhor das hipóteses, uma caricatura; na pior, um desserviço ao debate.

O fato central, contudo, é que a geração acumulou US$ 9 trilhões em apenas dois anos — em parte por heranças antecipadas, em parte por acesso ampliado a instrumentos financeiros digitais, em parte pela revalorização de ativos detidos por suas famílias. A combinação "vulnerabilidade individual" somada a "riqueza agregada" não é incompatível: significa que a geração, como conjunto, possui ativos, mas tem renda pessoal baixa. É um problema de fluxo, não necessariamente de estoque.

O que isso significa para o Brasil

No caso brasileiro, a projeção global não se transfere automaticamente. Três freios estruturais limitam o tamanho da fatia que chegará aos jovens daqui:

  • Carga tributária elevada. O Brasil tem uma das cargas tributárias mais altas do mundo sobre consumo e renda, o que comprime a poupança das famílias e encarece a transmissão patrimonial. Heranças são tributadas pelo ITCMD, com alíquotas que chegam a 8% dependendo do estado — barreira relevante na sucessão de empresas familiares e na manutenção de ativos produtivos.
  • Insegurança jurídica e patrimonial. O direito de propriedade no Brasil convive com ocupações irregulares, litígios fundiários e uma percepção persistente de risco regulatório. Ativos só se transferem com valor preservado quando há confiança institucional de que serão respeitados pela máquina pública.
  • Mercado de trabalho e crédito restritivos. A geração que chega à vida adulta no Brasil enfrenta um mercado formal com alta informalidade na faixa etária de entrada, juros reais entre os mais altos do mundo e dificuldade de acesso à primeira moradia. Em outras palavras: o estoque existe, mas o fluxo que o converte em qualidade de vida é travado.

Para que a Geração Z brasileira capture parte substancial da Grande Transferência, três variáveis precisariam caminhar na direção correta: reforma tributária que desonere produção e investimento; segurança jurídica que valorize ativos; e mercado de crédito que permita ao jovem usar o patrimônio recebido para empreender, comprar imóvel ou financiar educação e qualificação.

Por que isso importa agora

A leitura desta análise é que o estudo do Bank of America ilumina uma transição silenciosa, mas já em curso: nas próximas duas décadas, o centro de gravidade econômico da sociedade muda de geração — e com ele mudam padrões de consumo, moradia, investimento e voto. Para o formulador de políticas públicas no Brasil, a mensagem prática é direta: tributar heranças como se fossem "dinheiro novo" afasta capital produtivo; regular o mercado de aluguel como se o proprietário fosse o inimigo do inquilino retrai oferta de imóveis; e manter o crédito caro transforma herança em consumo imediato em vez de investimento de longo prazo.

Para o jovem brasileiro, a implicação é pragmática: o estoque global pode até existir, mas a parte que chega até aqui depende do arranjo institucional. Quem defende liberdade econômica, direito de propriedade sólido e tributação moderada não o faz por apego ideológico — o faz porque é exatamente esse o arranjo que maximiza a probabilidade de que o patrimônio gerado pela geração anterior se converta em mobilidade real para a próxima, em vez de ser capturado por tributação, litigância e instabilidade.

Perguntas frequentes

1. A Geração Z vai mesmo ficar mais rica que os Baby Boomers?

Segundo o portal Xataka.com.br, com base no Bank of America, sim: a projeção é que, em 2035, a geração se torne a mais rica da história, com US$ 74 trilhões estimados para 2040 — impulsionada principalmente pela herança de patrimônio acumulado pelas gerações anteriores.

2. Por que, então, tantos jovens dicen não conseguir pagar aluguel hoje?

Porque estoque (patrimônio) e fluxo (renda mensal) são coisas distintas. A geração, como conjunto, detém ativos em crescimento; individualmente, grande parte ainda não tem renda suficiente para arcar com o custo de vida — diferença que fica mais aguda em países com mercado de crédito caro e aluguel urbano elevado, como o Brasil.

3. O que é a "Grande Transferência de Patrimônio"?

É o processo, já em curso, pelo qual patrimônios acumulados por Baby Boomers e geração X — imóveis, ações, empresas — são transferidos por herança, doação ou venda para as gerações mais jovens ao longo das próximas décadas. Estima-se que movimentará cerca de US$ 84 trilhões globalmente.

4. Essa tendência chega ao Brasil?

Parcialmente. A transferência patrimonial existe, mas é freada por carga tributária elevada, insegurança jurídica e mercado de crédito restritivo. Sem reforma nesses três fronts, a fatia brasileira da riqueza global tende a ser menor do que a média internacional.

5. "95% dos jovens se esquivam do trabalho" é verdade?

Pesquisas sobre comportamento laboral da geração documentam maior busca por propósito, flexibilidade e recusa a certas condições precárias — não uma rejeição genérica ao trabalho. A versão "jovem preguiçoso" é, na melhor das hipóteses, simplificação; na pior, distorção que ignora causas estruturais, como desalinhamento entre formação oferecida e demanda do mercado.

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