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Great Wealth Transfer: o teste da geração Z brasileira

Great Wealth Transfer projeta Geração Z com US$ 74 trilhões até 2040, mas tributação, insegurança jurídica e mercado de capitais travam a fatia brasileira.

Por Beatriz Andrade Lima · · 7 min de leitura

Great Wealth Transfer: o teste da geração Z brasileira
Great Wealth Transfer: o teste da geração Z brasileira

O sinal que vem de Wall Street e o que ele pode (ou não) significar para o bolso do jovem brasileiro

Um estudo do Bank of America divulgado em janeiro de 2025 projeta que a Geração Z — nascida entre 1997 e 2012 — será, até 2035, a maior e mais rica geração da história da humanidade, acumulando US$ 74 trilhões em patrimônio global até 2040. O número, à primeira vista, parece brigar com a realidade que o noticiário mostra todo dia: jovens que não conseguem pagar aluguel, adiam a saída da casa dos pais e engrossam as estatísticas de endividamento. Segundo o portal Xataka.com.br, a aparente contradição tem um nome: Great Wealth Transfer — a maior transferência de riqueza entre gerações já registrada, em curso agora.

A leitura deste movimento importa ao Brasil por uma razão simples: o país tem a maior população de jovens da sua história recente entrando no mercado de trabalho, com a maior parte aprisionada entre a informalidade, o desemprego e o custo de morar. O que acontecer globalmente nos próximos dez anos servirá de termômetro — e, em parte, de parâmetro — para avaliar se essa geração brasileira colherá ou não a sua parte.

O que é, afinal, o Great Wealth Transfer

O conceito descreve a migração massiva de patrimônio das gerações Baby Boomer e X para as gerações Y e Z, principalmente via herança, doações e transmissão de ativos imobiliários e financeiros. Nos Estados Unidos e na Europa, o movimento é impulsionado por três fatores simultâneos:

  • Envelhecimento da população proprietária, com famílias vendendo ou repassando imóveis e carteiras de investimento.
  • Valorização real dos ativos acumulados nas últimas quatro décadas, especialmente imóveis e ações.
  • Concentração patrimonial em faixas etárias elevadas: nos EUA, a Survey of Consumer Finances mostra que baby boomers detêm hoje a maior fatia da riqueza líquida das famílias americanas.

O Bank of America estima que, só nos EUA, mais de US$ 84 trilhões mudarão de mãos nas próximas décadas. Quando o estudo globaliza o cálculo, a conta chega aos números citados pela Xataka.com.br: a Geração Z global saltará de US$ 9 trilhões acumulados atualmente para US$ 36 trilhões em 2030 e US$ 74 trilhões em 2040.

Por que a previsão não combina com a realidade visível

A divergência entre o patrimônio projetado e a renda atual é apenas aparente. A Geração Z não está sendo "paga" hoje — está herdando amanhã. Os dados do Bank of America descrevem a estrutura de propriedade da geração, não o seu fluxo de caixa mensal. Um jovem que recebe um imóvel de R$ 2 milhões em 2032 sem ter renda para pagar o condomínio é, do ponto de vista patrimonial, mais rico do que aparece no extrato bancário, e mais vulnerável do que o mesmo número sugere se a tributação sobre a herança consumir metade do valor.

E no Brasil? Onde a curva se parece com a do estudo — e onde ela diverge

No Brasil, o Great Wealth Transfer acontece em menor escala, e mais devagar, por três motivos estruturais — todos de origem estatal, não de mercado.

Primeiro, a carga tributária sobre herança. O ITCMD varia de 2% a 8% dependendo do estado, com alíquotas efetivas frequentemente maiores por causa da base de cálculo inflada por imóveis registrados abaixo do valor de mercado. Para o jovem brasileiro que herda o apartamento dos pais, o imposto vem antes da primeira parcela do financiamento.

Segundo, a insegurança jurídica sobre o patrimônio. O país combina Código Civil recente (2002), regras sucessórias complexas, partilhas que podem levar anos no Judiciário e, em determinados contextos, risco real de desapropriação ou invasão. Comparado ao título de propriedade americano — executável, transferível, líquido — o imóvel brasileiro é, para o jovem herdeiro, um ativo de liquidação lenta e custosa.

Terceiro, a compressão do mercado de capitais. A maior parte do patrimônio familiar brasileiro está em imóveis e em aplicações atreladas ao Estado (títulos públicos, poupança, fundos atrelados ao CDI). Diferentemente do que ocorre nos EUA, onde ações e fundos de investimento respondem por fatia crescente da riqueza das famílias, o brasileiro médio concentra o pouco que tem em ativos cuja rentabilidade depende de política monetária e fiscal — exatamente o que mais oscila no país.

O jovem brasileiro não está fora da curva, está na contramão dela

O IBGE mostra que a fatia da população brasileira entre 15 e 29 anos é a mais afetada pelo desemprego e pela informalidade, justamente na janela em que, segundo o estudo do Bank of America, deveria começar a acumular patrimônio. Enquanto isso, o custo de morar nas capitais brasileiras segue subindo acima da inflação, e o crédito habitacional continua restrito para quem não tem entrada — que é justamente quem mais precisaria dele.

Para esta análise, isso significa: o Brasil não tem um problema de geração Z. Tem um problema de ambiente institucional para a transferência de riqueza, que atinge todas as gerações mais novas ao mesmo tempo.

O que pode acelerar — ou travar — a transferência no Brasil

A Geração Z brasileira colherá uma fração menor do Great Wealth Transfer global se três frentes continuarem como estão:

  1. Tributação elevada sobre herança e propriedade, sem teto nacional e com alíquotas progressivas em discussão no Congresso justamente agora.
  2. Falta de reforma tributária patrimonial que desonere a transmissão e tribute o consumo e a renda com mais peso.
  3. Crédito e mercado de capitais subdesenvolvidos, com taxa básica de juros entre as mais altas do mundo e custo de formalização elevado para pequenas empresas.

O inverso também é verdadeiro: onde houver desoneração da herança, simplificação registral, abertura do mercado de capitais e redução do custo de transação imobiliária, o jovem brasileiro recebe o patrimônio mais cedo, com mais líquido, e pode investi-lo em vez de gastá-lo em cartório e imposto.

Por que isso importa agora

O debate tributário que está no Congresso tem tudo a ver com o que o estudo do Bank of America anuncia. A reforma do ITCMD, a atualização da tabela do Imposto de Renda, a regulamentação do mercado de capitais e o projeto de lei que cria o regime de tributação de dividendos são peças da mesma engrenagem. Votadas em conjunto — ou em separado —, vão definir se o jovem brasileiro de 28 anos em 2035 herdará R$ 500 mil ou R$ 250 mil do patrimônio dos pais.

Para o eleitor, a tradução prática é direta: cada ponto percentual de ITCMD que se soma ao já existente é, na prática, um adiamento da vida adulta dos herdeiros. Cada barreira a mais no registro imobiliário é uma fração de riqueza que se evapora antes de chegar a quem vai usá-la. E cada ponto percentual de inflação corroendo o patrimônio acumulado pelos pais faz com que sobre menos — e se receba depois.

O Great Wealth Transfer não é um evento do qual o Brasil pode participar como espectador. É um processo em curso, e o grau em que a Geração Z brasileira dele se apropria depende menos da sorte e mais das regras do jogo.

Perguntas frequentes

O que é o Great Wealth Transfer?
É a transferência patrimonial em grande escala das gerações mais velhas (Baby Boomers e Geração X) para as gerações mais novas (Millennials e Geração Z), principalmente por herança, doação e partilha de imóveis e ativos financeiros.

A Geração Z brasileira vai mesmo ficar rica como prevê o Bank of America?
A projeção do banco é global. No Brasil, a transferência ocorre em escala menor e mais lentamente, por causa do peso da tributação sobre herança, da insegurança jurídica patrimonial e do mercado de capitais pouco desenvolvido. Sem reforma nessas frentes, o jovem brasileiro colherá uma fração menor do que a média global.

Por que o estudo fala em US$ 74 trilhões até 2040?
É a soma estimada do patrimônio acumulado pela Geração Z global, somando heranças, renda poupada e valorização de ativos. O número reflete estoque, não fluxo mensal — ou seja, o patrimônio total da geração em um ponto no tempo, e não o quanto cada jovem individualmente terá no bolso.

O que o Congresso brasileiro tem a ver com isso?
As regras de tributação de herança (ITCMD), de Imposto de Renda, de dividendos e do mercado de capitais são definidas por lei federal ou estadual. Mudanças em qualquer dessas frentes alteram diretamente quanto patrimônio chega, líquido, à geração mais nova.

Quando essa transferência deve se intensificar no Brasil?
A janela coincide com a passagem patrimonial dos Baby Boomers (nascidos entre 1946 e 1964) e da Geração X (1965-1980), que se acelera a partir de 2030, à medida que cresce o número de inventários e partilhas. Para esta análise, o Brasil precisa entrar nessa janela com regras claras — ou ficará de fora da maior redistribuição patrimonial privada da história.

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