A Bússola NacionalAnálise política
Congresso Nacional

Marco dos minerais críticos: Senado aprova R$ 5 bi e veto

Minerais críticos: marco cria R$ 5 bi em incentivos e conselho com poder de veto. Votação testa se Brasil atrai capital ou repete a insegurança regulatória.

Por Beatriz Andrade Lima · · 8 min de leitura

Marco dos minerais críticos: Senado aprova R$ 5 bi e veto
Marco dos minerais críticos: Senado aprova R$ 5 bi e veto

Senado aprova marco dos minerais críticos: o que está em jogo vai além da votação

O Senado Federal aprovou, na quarta-feira (2), o projeto de lei que cria o marco legal para exploração de minerais críticos e terras raras no Brasil, com R$ 5 bilhões em incentivos fiscais, um fundo garantidor e a criação de um conselho governamental com poder de veto sobre parcerias internacionais. A votação, feita de forma simbólica e praticamente sem alterações em relação ao texto da Câmara, encerra — ao menos no Congresso — uma disputa que misturou pressão externa, especialmente dos Estados Unidos sob Donald Trump, e rearranjo interno entre o Palácio do Planalto e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil/AP). Segundo o portal Olhardigital.com.br, o texto agora segue para sanção do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

O contexto institucional: por que essa votação não é "mais uma"

Terras raras não são commodities comuns. São insumos indispensáveis para semicondutores, ímãs permanentes de alta performance, turbinas eólicas, veículos elétricos, equipamentos militares e satélites. Quem controla reservas e cadeias de processamento controla um gargalo da economia do século XXI — e o Brasil tem uma das maiores reservas do mundo, ainda pouco mapeada e pouco explorada.

O problema crônico do país nesse setor não é geológico, é regulatório. Exploração mineral no Brasil convive há décadas com licenciamento ambiental moroso, insegurança jurídica, conflitos com comunidades e regimes tributários setorizados que penalizam capital de risco. Projetos de mineração levam, em média, mais de uma década entre a descoberta e a produção efetiva. Investidores estrangeiros e nacionais olham para o Brasil justamente por causa do gargalo institucional.

É nesse vácuo que se insere a proposta aprovada: um marco legal que promete regras mais claras, incentivos fiscais de R$ 5 bilhões e, ao mesmo tempo, cria um conselho governamental com capacidade de vetar parcerias com empresas estrangeiras em operações consideradas sensíveis.

O que o projeto efetivamente cria

  • R$ 5 bilhões em incentivos fiscais ao longo do período de implementação, segundo o texto aprovado.
  • Um fundo garantidor destinado a mitigar riscos de investimento no setor.
  • Um conselho governamental com poder de controle sobre operações, inclusive com veto a determinadas parcerias internacionais.
  • Caráter de política nacional, com vinculação à estratégia de minerais definidos como estratégicos.

Para esta análise, os dois pontos que merecem escrutínio são: de onde vem o dinheiro dos incentivos — ou seja, quem paga a conta — e o que significa, na prática, entregar a um conselho governamental o poder de aprovar ou vetar contratos entre empresas privadas e parceiros estrangeiros.

Quem paga e quem decide: as duas perguntas que o texto precisa responder

Os R$ 5 bilhões em incentivos: renúncia ou investimento?

O governo apresenta os incentivos como ferramenta para destravar uma cadeia produtiva estratégica. O argumento é razoável em tese: minerais críticos são insumos de fronteira, com externalidades positivas em pesquisa, desenvolvimento e geração de empregos qualificados. Paises concorrentes — China, Estados Unidos, Austrália, União Europeia — também despejam recursos públicos em programas semelhantes.

Há, porém, uma diferença importante entre política industrial bem desenhada e cheque em branco a setores específicos. Quando o Estado abre mão de receita de forma estruturada, está transferindo recursos do contribuinte para empresas selecionadas por critérios políticos. O resultado precisa ser medido por metas concretas — produção, empregos gerados, valor adicionado, participação em cadeias globais — e não pela quantidade de anúncios.

Para esta análise, o ponto central não é se o Brasil deve ou não explorar terras raras — deve, e tem reservas relevantes para isso. A questão é se o desenho institucional proposto entrega benefício fiscal com a devida contrapartida de resultado, ou se cria uma porta aberta para uso discricionário de dinheiro público.

O conselho com poder de veto: segurança estratégica ou controle político?

Do lado da segurança nacional, o argumento é sólido: não faz sentido entregar cadeias minerais estratégicas a potências rivais sem qualquer tipo de salvaguarda. Países democráticos consolidados mantêm mecanismos de revisão de investimentos estrangeiros em infraestrutura crítica.

O problema surge quando esse poder de revisão se converte em mecanismo discricionário, sem critérios técnicos transparentes, sujeito a decisões políticas de ocasião. Um conselho com capacidade de vetar parcerias entre mineradoras brasileiras e empresas estrangeiras precisa operar com regras claras, prazos definidos e possibilidade de recurso. Caso contrário, transforma-se em mais uma instância burocrática capaz de paralisar investimentos legítimos — o que, no histórico regulatório brasileiro, não é hipótese remota.

A geopolítica entra na sala: Trump, terras raras e a pressão externa

A aprovação do marco coincide com a escalada de interesse norte-americano, especialmente após declarações do presidente Donald Trump sobre terras raras brasileiras. O tema ganhou visibilidade depois de reuniões bilaterais e declarações públicas de autoridades dos dois países.

É preciso separar com cuidado o que é fato e o que é narrativa:

  • Fato: os Estados Unidos, sob Trump, manifestaram publicamente interesse nas reservas brasileiras de terras raras e minerais críticos. Essa é uma política oficial americana, que cruza soberania energética, corrida tecnológica e tensão comercial com a China.
  • Fato: o Brasil é fornecedor marginal nas cadeias globais de terras raras — a China domina cerca de 60% da produção mundial e mais de 80% do refino, segundo dados de mercado amplamente citados por organismos internacionais.
  • Avaliação: para esta análise, isso significa que o Brasil tem uma janela rara de negociação estratégica, mas que ela será desperdiçada se o país responder à pressão externa com mais Estado, mais burocracia e mais insegurança regulatória — exatamente o que historicamente afasta capital de risco de longo prazo.

O argumento mais forte do lado do governo é que, sem proteção estatal, empresas brasileiras serão compradas ou subordinadas por grupos estrangeiros sem qualquer contrapartida ao país. A resposta mais forte a esse argumento é que a melhor proteção ao capital privado e à soberania econômica não é controle político discricionário — é Estado de Direito, previsibilidade regulatória, segurança jurídica e regras claras de tributação. Quando isso falha, investidores simplesmente não vêm, independentemente de haver ou não um conselho com poder de veto.

Por que isso importa agora

A aprovação do marco dos minerais críticos não é apenas uma vitória legislativa do governo Lula — é a definição de como o Brasil pretende ocupar uma posição relevante em uma das cadeias produtivas mais disputadas do século XXI. As decisões tomadas nos próximos meses determinarão se o país vai atrair capital, tecnologia e parcerias internacionais ou se vai repetir o padrão histórico de abundante recurso natural, regulação confusa e cadeia produtiva subexplorada.

Há três consequências práticas imediatas:

  1. Para o investidor nacional e estrangeiro: o texto dá um sinal ambíguo — abre incentivo fiscal significativo, mas cria instância política com poder de veto sobre parcerias. A combinação de ambos pode tanto atrair quanto afastar capital, dependendo da implementação.
  2. Para o contribuinte: R$ 5 bilhões em renúncia fiscal é um custo real, que precisa ser compensado por retorno mensurável em produção, empregos e arrecadação futura. Sem metas vinculantes, o ônus recai sobre o orçamento sem garantia de benefício equivalente.
  3. Para a política externa: o Brasil ganha um instrumento formal de barganha nas negociações com Estados Unidos e China. A questão é se o governo usará esse instrumento para maximizar interesse nacional ou para projetar alinhamentos ideológicos.

A votação foi destravada após a reaproximação entre Lula e Davi Alcolumbre, segundo a fonte. Esse movimento abriu caminho também para outras pautas do governo, como incentivos a data centers e o fim da escala 6 x 1. Isso indica uma nova etapa de cooperação entre Planalto e Senado, com custos e benefícios distribuídos entre os atores — mas, para o contribuinte, o que importa é o resultado consolidado das medidas, não a engenharia política que as destravou.

Perguntas frequentes

O que são minerais críticos e terras raras?

São insumos estratégicos para indústrias de alta tecnologia, como semicondutores, ímãs de alta performance, energia eólica, veículos elétricos, equipamentos médicos e sistemas de defesa. O Brasil detém uma das maiores reservas do mundo, mas responde por menos de 1% da produção global.

Quanto custará o marco ao contribuinte?

O texto prevê R$ 5 bilhões em incentivos fiscais, conforme o portal Olhardigital.com.br. Trata-se de renúncia de receita — ou seja, o governo deixa de arrecadar para permitir que empresas do setor paguem menos tributos. O retorno depende de metas que ainda não foram detalhadas publicamente.

Por que o governo terá poder de veto sobre parcerias?

O argumento oficial é a proteção da soberania sobre recursos estratégicos. Na prática, significa que empresas privadas precisarão de aprovação de um conselho governamental para firmar contratos com parceiros estrangeiros. Os critérios técnicos de análise ainda serão definidos em regulamento.

Qual é a relação entre essa votação e Donald Trump?

O interesse americano por terras raras brasileiras, intensificado durante o governo Trump, foi um dos fatores que acelerou a tramitação do marco. O tema virou peça de negociação bilateral entre Brasil e Estados Unidos, em meio à disputa estratégica com a China pelo controle das cadeias de minerais críticos.

O projeto ainda pode mudar antes da sanção?

Não há alterações previstas até o momento. O texto seguiu praticamente idêntico ao aprovado pela Câmara. O presidente Lula pode sancionar integralmente, vetar trechos ou devolver ao Congresso. Ainda sem confirmação oficial sobre eventuais vetos.

Gostou desta análise? Compartilhe com quem quer entender a política brasileira além da manchete e assine a newsletter d'A Bússola Nacional.

Leia também

Receba as análises da semana

Um resumo do que importa na política brasileira, direto no seu e-mail. Sem spam.

Ao se inscrever, você concorda com a nossa política de privacidade. É possível cancelar a qualquer momento.

Marco dos minerais críticos: Senado aprova R$ 5 bi e veto | A Bússola Nacional