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Muito Prazer: a comédia de Furtado que radiografa o Brasil

Muito Prazer, comédia de Jorge Furtado, usa o humor para radiografar a informalidade brasileira e os dilemas da curadoria algorítmica, sob um olhar conservador.

Por Heitor Vasconcelos · · 7 min de leitura

Muito Prazer: a comédia de Furtado que radiografa o Brasil
Muito Prazer: a comédia de Furtado que radiografa o Brasil

A nova comédia de Jorge Furtado não trata de partidos, votações ou disputas em Brasília — e talvez seja por isso que ela diga tanto sobre o Brasil. Estreou nesta quinta-feira, 27, "Muito Prazer" (segundo o portal Terra.com.br e reportagem do Estadão), longa que parte de uma pergunta aparentemente banal: se um algoritmo consegue sugerir filmes, será que também consegue prever por quem vamos nos apaixonar? A premissa leve esconde uma radiografia do país — gente à margem da economia formal, inventando esquemas de sobrevivência num mundo em que o desejo já foi capturado pela curadoria digital.

O que está realmente em jogo neste filme

A trama é direta: Rubem (Daniel de Oliveira), motorista de aplicativo endividado, herda um motel em ruínas — o Pérola — e encontra Grace (Luísa Arraes), ex-funcionária que nunca saiu do lugar mesmo depois do fechamento. Sem conseguir vender o imóvel, reabrem o negócio com o impulso decisivo de Nalva (Samantha Jones): gravar os clientes sem que saibam e vender os vídeos, com identidade protegida, para sites eróticos.

É uma comédia. Mas é também uma história sobre o que brasileiros fazem quando não há caminho formal para resolver um aperto — e sobre quem lucra, ou perde, com isso.

Informalidade como espelho: o Brasil que Furtado insiste em filmar

Em "Muito Prazer", os personagens estão "à margem — do dinheiro, da moral, da ética, da sobrevivência", segundo o próprio diretor. É um retorno a um território que Furtado conhece bem: em "O Homem que Copiava" (2003), um jovem falsificava dinheiro para conquistar a mulher amada; em "Saneamento Básico" (2007), moradores de uma cidade gaúcha inventavam um monstro para salvar a economia local. O padrão se repete agora: "gente comum inventando maneiras de sobreviver e, no processo, revelando alguma coisa sobre o país ao redor".

Para um observador cético do gigantismo estatal, a insistência temática de Furtado não é coincidência: ela expõe, com humor triste, o resultado prático de um país onde a formalidade é cara demais, o crédito é restrito e a máquina pública sufoca antes de amparar. Rubem é motorista de aplicativo — outra forma de informalidade legalizada — e só resolve seu problema herdando um imóvel degradado. Quando o caminho cessa, a margem começa.

A pergunta que o filme faz sem responder: até que ponto o Estado brasileiro empurra cidadãos competentes para a clandestinidade — e depois os pune por terem ido para lá? Não é uma tese declarada do longa. Mas é consequência que qualquer analista atento pode extrair do que está em cena.

O algoritmo como protagonista ausente: quem decide o que você quer?

Furtado conta que começou a se irritar com sugestões automáticas de filmes. "Se você gostou desse filme, vai gostar desse. Eu dizia que não tem nada a ver uma coisa com a outra", disse ao Estadão. Da irritação nasceu o roteiro. Mas o diagnóstico que ele produz é mais amplo.

O longa opõe dois ambientes, nas palavras do próprio diretor: "o motel, analógico, e o ambiente digital. Os dois em conflito". O motel é o esconderijo de antigamente — fechado, presencial, às margens da cidade. O mundo digital é aberto, mas curado: o desejo virou produto, a sugestão virou trilha obrigatória.

Essa tensão tem tradução política direta. A discussão sobre regulação de plataformas, inteligência artificial e curadoria algorítmica domina o Congresso e o STF — do antigo PL das Fake News aos debates sobre moderação de conteúdo e uso de IA. A pergunta que o filme dramatiza é anterior a todas elas: queremos que sistemas automatizados prevejam, sugiram e, no limite, decidam o que consumimos, com quem nos relacionamos e por quem nos apaixonamos? A resposta liberal-conservadora costuma ser negativa — e por boas razões. Não se trata apenas de privacidade; trata-se de autonomia da pessoa humana diante de um poder privado — ou público — que opera sem transparência, sem recurso efetivo e sem accountability democrática.

Privacidade, consentimento e o que a piada revela

O mote cômico do filme — gravar clientes sem consentimento para vender a sites eróticos — não é gratuito. É, ao contrário, o tipo exato de violação que tem ocupado legislador, jurista e regulador em todo o mundo. Da LGPD aos debates sobre deepfake e conteúdo íntimo não consentido, a fronteira entre imagem, intimidade e exploração econômica é hoje uma das linhas de frente do direito digital.

O filme, claro, propõe o problema sem resolvê-lo: os personagens "protegem" a identidade dos clientes, vendem o produto e seguem em frente. É comédia. Mas o leitor atento deve perguntar: o que está em jogo quando a imagem do corpo se torna mercadoria sem que o portador do corpo tenha sido consultado? Para uma perspectiva liberal-conservadora, a resposta começa pelo indivíduo — sua autonomia, sua propriedade sobre a própria imagem, sua responsabilidade sobre o que consente. Não se resolve com mais Estado nem com menos Estado: resolve-se com clareza sobre quem é o titular do direito.

Custos morais e costumes: o conservador que entra na sala de cinema

Vale registrar o óbvio, sem fugir dele: este não é um filme que conversa naturalmente com o público conservador de costumes. O tema central — o comércio de intimidade filmada — está longe das pautas tradicionais sobre família, sexualidade e pudor. A obra tampouco propõe essas pautas; propõe outra coisa.

Mas é exatamente por isso que o filme é politicamente interessante. Uma análise intelectualmente honesta distingue três planos — e confunde-los é o que produz caricatura dos dois lados:

  • O plano do autor. Furtado faz a comédia que quer fazer, com a liberdade criativa que deve existir em qualquer sociedade adulta. Crítica à obra, não ao autor.
  • O plano da política pública. O cinema brasileiro vive, em boa medida, de financiamento público — Ancine, Fundo Setorial do Audiovisual, editais de estados e municípios. Cabe perguntar, sem moralismo e sem caricatura, até que ponto o contribuinte deve sustentar narrativas que não subscreve. Não é censura. É orçamento — e orçamento público se discute, por definição, em público.
  • O plano do costume. O filme entra em sala com classificação etária, frequentador adulto e boletim de entrada. Cabe ao público decidir se quer assistir — e cabe ao conservador argumentar publicamente por suas preferências, em vez de simplesmente demonizar a obra. Demonizar substitui o fácil pelo fácil; argumentar substitui o fácil pelo difícil, que é onde mora a convicção.

Por que isso importa

Uma comédia que estreia em sala não muda o voto de nenhum deputado, não altera a Selic e não derrubará nenhum ministro. Mas importa por três razões.

Primeiro, porque obras como esta descrevem o Brasil informal com uma franqueza que a estatística oficial nem sempre alcança. Quando se discute reforma tributária, crédito e desburocratização, é útil lembrar quem está do outro lado da formalidade — e por que está lá.

Segundo, porque a regulação da economia digital deixou de ser tema de futurista e virou tema de Comissão Parlamentar de Inquérito. O Congresso discute o que fazer com plataformas, moderação e curadoria algorítmica. Um longa que dramatiza essa curadoria é contribuição ao debate, não distração dele.

Terceiro, porque a cultura brasileira segue sendo financiada, em parte relevante, com dinheiro do contribuinte. O conservador brasileiro legítimo tem todo o direito de perguntar o que está comprando com o que recolhe — sem que isso signifique censura. Significa transparência, debate e prestação de contas.

Perguntas frequentes

"Muito Prazer" é um filme de esquerda?
Não há, no material disponível, indicação de filiação partidária do longa ou do seu diretor. A comédia toca temas universais — informalidade, privacidade, desejo — sem aderir a uma bandeira política identificável.

O filme trata pornografia como tema central?
A comédia usa a economia do conteúdo adulto como motor narrativo, mas o foco dramático está nas personagens à margem e no conflito entre mundo analógico e curadoria digital, segundo declaração do próprio Furtado ao Estadão.

O longa recebeu dinheiro público?
O texto de referência não informa o mecanismo de financiamento desta produção. A política de fomento ao cinema brasileiro — operada historicamente pela Ancine e pelo Fundo Setorial do Audiovisual — é tema relevante para o contribuinte e merece acompanhamento, mas sem dados específicos sobre esta obra qualquer afirmação adicional seria especulação.

Jorge Furtado é filiado a algum partido?
Não há, na reportagem consultada, qualquer referência a filiação partidária do diretor. Sua filmografia é marcada por observação crítica do cotidiano brasileiro, sem adesão declarada a uma corrente política específica.

O cinema brasileiro ainda fala do Brasil real, e ainda o faz com humor que incomoda — característica que merece ser preservada, discutida e, quando necessário, contestada, em qualquer latitude ideológica. Mais difícil do que escolher um lado é ouvir o outro sem distorcê-lo. É essa a tarefa de quem analisa a política a partir da cultura — e não o contrário.

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