O que revelou a pesquisa da Ipsos — e por que o resultado incomoda mais de um lado
Uma pesquisa do Ipsos exibida no programa Ponto de Vista, da revista VEJA, e reproduzida pelo portal Abril.com.br, aponta que 47% dos brasileiros defendem um governo "forte", com capacidade de investir no desenvolvimento de longo prazo e de orientar o crescimento econômico. O dado, em si, não é novo — o apoio à presença estatal na economia é uma constante histórica no Brasil, registrada em praticamente todas as pesquisas do gênero desde a redemocratização. O que chama a atenção é o outro recorte: essa preferência atravessa bolhas ideológicas e aparece tanto entre eleitores que aprovam quanto entre os que desaprova o governo federal.
O professor Marco Antonio Rocha, do Instituto de Economia da Unicamp e colaborador na construção do levantamento, resumiu o achado em uma frase: "Há uma certa convergência, a despeito da polarização política." Segundo ele, a convergência se torna mais explícita quando se pergunta sobre custo de vida, oferta de serviços públicos, defesa da economia nacional e desenvolvimento.
O resultado exige leitura cuidadosa. Em um país onde as pautas costumeiras dividem com facilidade, a economia costuma ser o único terreno em que a conversa ainda é possível — e esse terreno, convém lembrar, não é neutro.
O que significa, de fato, esse "apoio a um Estado forte"?
Primeiro, é preciso separar dois conceitos que costumam ser embaralhados no debate público: Estado eficaz e Estado grande. O eleitor que responde à pesquisa pode estar pedindo qualquer um dos dois — ou, mais provavelmente, ambos indistintamente, porque a pesquisa não permite desambiguar.
- Estado eficaz é aquele que entrega o básico com qualidade: segurança pública, saúde, educação, infraestrutura, previsibilidade regulatória. Em geral, é isso que o brasileiro está pedindo quando reclama do custo de vida e da precariedade dos serviços.
- Estado grande é aquele que amplia sua participação direta na economia, via estatais, bancos públicos, subsídios, incentivos setoriais e gasto corrente. Historicamente, no Brasil, esse caminho andou junto com elevação de carga tributária, déficit fiscal e perda de eficiência.
A pesquisa da Ipsos, segundo o relato do portal Abril.com.br, não disse qual das duas interpretações predomina. Rocha falou em "atuação estatal em diferentes frentes", "defesa do padrão de vida", "oferta de serviços públicos" e "papel de indutor do desenvolvimento". A leitura mais generosa cabe ao campo que defende intervenção; a leitura mais cética cabe a quem lembra que mais Estado, no Brasil, historicamente, custou caro — e entregou pouco.
Por que esse dado importa agora
O levantamento chega em um momento politicamente sensível. O governo do presidente Lula está no meio do mandato, com dificuldade de entregar crescimento robusto, e a oposição de direita — simbolizada pelo senador Flávio Bolsonaro — procura se reposicionar para 2026 em meio à inelegibilidade do ex-presidente Jair Bolsonaro. Nesse contexto, um achado de "convergência" é útil a todos os campos:
- Para o governo, autoriza a narrativa de que há "mandato" para investimento público, aumento de gasto e ampliação de programas sociais — desde que embrulhados na linguagem de "desenvolvimento".
- Para a oposição, sugere que existe um eleitorado de centro e até de centro-esquerda insatisfeito com o atual governo, mas que quer ouvir propostas concretas sobre crescimento — não só denúncias.
- Para o mercado e para o centro econômico, o dado acende um alerta: se 47% querem "Estado forte" sem que a pesquisa detalhe como financiar isso, há risco de que a próxima rodada de pressão política venha em formato de gasto público adicional, em meio a um arcabouço fiscal já sob tensão.
A leitura d'A Bússola Nacional, dentro da linha editorial declarada, é a seguinte: o brasileiro não está pedindo mais governo. Está pedindo governo que funcione. E a história recente mostra que esses dois desejos, no Brasil, costumam colidir — porque a solução historicamente escolhida para o "não funciona" foi expandir a máquina, em vez de reformar a existente.
Como a polarização política convive com essa convergência
Rocha, da Unicamp, atribui a convergência a dois fatores: a percepção de um sistema econômico crescentemente desigual e um ambiente internacional de incertezas que pode provocar choques de preços. Os dois pontos são factualmente defensáveis — porém merecem qualificação.
Sobre desigualdade: o Brasil é, de fato, um dos países mais desiguais do mundo, e qualquer leitura honesta reconhece isso. A discordância entre visões de esquerda e de direita está menos no diagnóstico e mais no remédio. A esquerda historicamente propõe redistribuição via transferência e gasto; a direita propõe crescimento via mercado, abertura e segurança jurídica. A pesquisa, segundo o relato do portal Abril.com.br, não perguntou qual receita o eleitor prefere — e essa é a omissão que mais pesa na hora de tirar conclusões.
Sobre o ambiente internacional: choques de preços são reais e recorrentes. Mas a resposta a eles — proteção comercial, subsídios, controle de preços — costuma produzir efeitos colaterais que o eleitor só percebe depois, na forma de escassez, inflação contida e crise fiscal.
O que está em jogo para o governo, o Congresso e o mercado
Três consequências práticas emergem do levantamento, ainda que com grau variável de certeza:
- Para o Executivo: o governo ganha munição retórica para avançar em projetos com viés desenvolvimentista, mas cobra-se dele o ônus de demonstrar resultado. "Estado forte" sem crescimento visível se traduz, na próxima pesquisa, em desaprovação.
- Para o Congresso: parlamentares de centro e de oposição que dialogam com o eleitorado mais pragmático têm espaço para pautar agenda de eficiência — regulatória, administrativa, tributária — sem pagar o custo eleitoral de parecerem "contra o povo".
- Para o mercado financeiro: o dado reforça a vigilância sobre qualquer sinal de afrouxamento fiscal. Se a maioria quer Estado atuante, o mercado quer saber quem paga a conta.
Perguntas frequentes
1. O que exatamente a pesquisa da Ipsos perguntou?
Segundo o portal Abril.com.br, os 47% responderam afirmativamente a uma pergunta sobre apoio a um "governo forte, com capacidade de investir no desenvolvimento de longo prazo e orientar o crescimento econômico". O texto de referência não detalha a redação completa do questionário nem a margem de erro.
2. A pesquisa mostra que o brasileiro quer mais socialismo?
Não. O levantamento, conforme relatado, identificou apoio a atuação estatal em áreas específicas — serviços públicos, custo de vida, desenvolvimento — sem qualificar o instrumento. A conclusão depende da lente ideológica de quem interpreta: a mesma resposta pode sustentar defesa de estatais ou de parcerias com o setor privado.
3. Por que esse dado incomoda o campo liberal?
Porque, no Brasil, "mais Estado" historicamente veio acompanhado de mais gasto, mais tributação e mais dívida — não necessariamente de mais entrega. Para esta análise, o alerta é que o sentimento de "queremos Estado forte" pode ser capturado politicamente como autorização para expansão da máquina, em vez de reforma da máquina existente.
4. O achado contradiz a tese da polarização total no Brasil?
Não necessariamente. A polarização em costumes, símbolos e identidade permanece intensa. O dado sugere apenas que existe um terreno — a economia — onde a conversa ainda é viável. Mas conversação possível não significa consenso sobre os meios.
5. O que ficou de fora da pesquisa que faria diferença?
Faltou, no relato disponível, a pergunta sobre como financiar a maior presença estatal: mais impostos, mais dívida, corte de privilégios ou repriorização do gasto. Sem essa pergunta, qualquer conclusão sobre "querem mais Estado" é incompleta.
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