O que está em cena — e por que um nome virou espetáculo
Um ator em cena, sozinho, contando a história da própria vida a partir do próprio nome. É essa a premissa do monólogo Meu Remédio, interpretado por Mouhamed Harfouch e destacado em matéria do portal Terra.com.br como uma obra que mistura comédia, compreensão e aceitação. O fio condutor não é um enredo de ficção: é o cotidiano de um jovem brasileiro — pai sírio, mãe portuguesa — que cresceu no Rio de Janeiro carregando um dos nomes mais populares do mundo árabe entre as décadas de 1980 e 1990.
Segundo o texto de referência, o nome Mouhamed (em suas variações transliteradas) é o mais usado entre homens árabes e significa "o louvado" ou "digno de louvor". A escolha não foi aleatória: fruto de um acordo entre os pais, representava uma carga cultural e uma responsabilidade familiar transmitidas pela via mais simples e mais pesada que existe — o nome de batismo.
Brasil dos anos 80 e 90: a estranheza que virou humor
O relato dramatizado descreve uma realidade hoje difícil de dimensionar para quem não viveu: para o menino Mouhamed Teixeira Harfouch, tarefas banais da infância — responder à chamada da escola, fazer novos amigos, tentar conversar com garotas — viravam pequenas sagas. Não por culpa da criança, mas pela distância entre o nome que ele carregava e o repertório cultural do Rio de Janeiro da época.
O dado contextual mais relevante da matéria é justamente este: embora o islamismo reúna hoje cerca de 2 bilhões de praticantes no mundo e tenha ganhado visibilidade crescente no debate público, nas décadas de 1980 e 1990 o Brasil vivia uma realidade muito diferente. A presença muçulmana era rara, mal conhecida e frequentemente reduzida a clichês distantes da vida cotidiana do brasileiro comum.
Por que isso importa para a análise política
Esta não é uma peça sobre política partidária, Congresso ou STF — e seria desonesto forçar essa leitura. Mas uma análise conservadora dos costumes e das instituições brasileiras não pode ignorar o que o monólogo expõe: o peso da família como transmissora de identidade, o custo social de ser diferente numa sociedade pouco acostumada à pluralidade religiosa, e a função do humor e da arte como espaços de processamento dessas tensões.
Três pontos merecem destaque para quem pensa o Brasil a partir da perspectiva de quem valoriza família, tradição e liberdade religiosa:
- A família como âncora de identidade. O nome não foi escolhido pelo acaso nem pela moda: foi fruto de um acordo entre pai e mãe, com lastro cultural explícito. A obra celebra justamente essa transmissão — o que dialoga com a leitura de que a família é a primeira e mais legítima instituição de preservação de heranças culturais e religiosas.
- O custo da diferença numa sociedade pouco plural. O relato não romantiza nem vitimiza. Mostra que o estranhamento era real, mas também mostra que a criança e o adolescente souberam, em alguma medida, transformar o fardo em instrumento de relação social — primeiro recurso de quem aprende a se defender sozinho num ambiente indiferente.
- A arte como espaço de elaboração. O monólogo só faz sentido porque o autor/personagem converteu experiência vivida em narrativa compartilhável. É um exemplo claro de como a cultura cumpre um papel que o Estado não cumpre — e não deve cumprir: oferecer à sociedade um espelho para que ela se reconheça, se corrija ou, no mínimo, se compreenda.
O que mudou — e o que não mudou — desde os anos 90
O Brasil de hoje é, em vários indicadores, mais aberto à diversidade religiosa e étnica do que o Rio de Janeiro dos anos 80 descrito na peça. A presença muçulmana cresceu, sinagogas, templos afro-brasileiros e igrejas evangélicas disputam espaço público, e o debate sobre identidade ganhou visibilidade.
Mas a matéria também ajuda a lembrar que abertura cultural não se decreta: ela se constrói na convivência cotidiana, no mercado de trabalho, nas escolas e nas relações pessoais. Quando o Estado tenta substituir esse processo por imposição ideológica — em qualquer direção —, o resultado costuma ser o oposto do desejado: backlash social, ressentimento e reforço das identidades em vez de diálogo entre elas. Esse cuidado vale tanto para a defesa legítima de minorias quanto para a preservação das tradições majoritárias: nenhum dos dois lados ganha quando a convivência é administrada por cima.
Para esta análise, o dado mais eloquente da peça é o que se passa fora dela. Não há menção a política pública, legislação ou ação estatal que tenha protegido ou perseguido o protagonista. A solução veio pela família, pela personalidade e, décadas depois, pela arte. É um lembrete útil sobre os limites do que o Estado pode — e do que não pode — fazer pela coexistência cultural.
Liberdade religiosa sob a lupa da Bússola
Do ponto de vista editorial, o tema da peça é um teste prático para um princípio frequentemente invocado e pouco examinado: o da liberdade religiosa plena. Defendê-la de verdade significa aceitar que um sírio e uma portuguesa batizem o filho com um nome árabe carregado de sentido islâmico — e que esse menino cresça no Brasil sem que o Estado precise aprovar, censurar ou promover essa escolha. Liberdade religiosa que só protege o mainstream não é liberdade religiosa; é hegemonia travestida de direito.
É também um teste para o princípio da responsabilidade familiar. A obra não apresenta os pais como vilões nem como heróis absolutos: apresenta-os como pessoas que fizeram uma escolha, assumiram as consequências e transmitiram ao filho um patrimônio simbólico — para o bem e para o complicado. É exatamente o tipo de arranjo que uma sociedade que respeita a família como instituição deveria proteger, em vez de tentar substituir.
Perguntas frequentes
O que é "Meu Remédio"?
É um monólogo teatral interpretado por Mouhamed Harfouch, construído a partir da experiência pessoal do ator como brasileiro de nome árabe criado no Rio de Janeiro nos anos 80 e 90, segundo o portal Terra.com.br.
Qual a origem do nome Mouhamed?
É uma das variantes transliteradas de Muhammad, entre os nomes mais populares no mundo e o mais usado por homens árabes. Significa "o louvado" ou "digno de louvor", conforme o texto de referência.
Por que o nome virou problema na infância do protagonista?
Porque, segundo a matéria, o Brasil das décadas de 1980 e 1990 tinha pouca familiaridade com nomes de origem islâmica, o que transformava situações cotidianas — chamada na escola, amizades, tentativas de socialização — em episódios de estranhamento.
Qual a relevância política do espetáculo?
Não há na peça conteúdo político-partidário explícito. Mas, para uma análise conservadora dos costumes, ela toca em três temas relevantes: o papel da família na transmissão de identidade, o custo social da diferença numa sociedade pouco plural e a função da arte como espaço de elaboração que o Estado não substitui.
O que a peça sugere sobre liberdade religiosa no Brasil?
Sugere, indiretamente, que a liberdade religiosa só é real quando protege escolhas minoritárias — como batizar um filho com nome islâmico — sem necessidade de aprovação estatal. Liberdade religiosa limitada ao mainstream não passa de hegemonia.
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